01/06/2007

.: CONTO .: Manuel

Manuel nunca gostou de seu nome. Achava "coisa de tiozão". Tinha 25 anos, mas nunca tinha conhecido qualquer Manuel com menos de 35. Dizia que as meninas nas baladas lhe atribuíam pelo menos mais uns 4 ou 5 anos de idade quando descobriam seu nome. O batismo se deu não pela origem portuguesa, como seria de se supôr, mas sim pela preferência de seu pai, velho jornalista, pela obra de Manuel Bandeira. Mas este Manuel, do alto de seus 25 anos, sempre achou que o paizão tinha errado na medida - porque vivia insistindo que o Manuel do Bandeira era com O, e não com U.

Mas, no fundo, bem lá no fundo, o que incomodava Manuel a respeito do fato de ser Manuel... era a mediocridade. Manuel sempre foi apenas mais um. Um cara comum, como outro qualquer, sem grandes conquistas, performances ou atributos. Na escola, só tirava notas na média, na medida suficiente para passar de ano. Não era feio, mas também não era bonitão. Não era dos caras mais engraçados e nem mais extrovertidos. Mas também não tinha aquela timidez charmosa que atrai certas mulheres. Era designer mas, no trabalho, também não era grande coisa. Fazia um trabalho que, geralmente, era avaliado como "bom". Apenas isso. Nada de "ótimo", "fantástico" ou "extraordinário". Um sujeito sem superlativos. Para os amigos, Manuel era simplesmente um cara "bacana". Para ele mesmo, no entanto, este tal de Manuel era um bosta. Tentando sair de sua vidinha de bosta, Manuel descobriu um ritual que o satisfazia. Toda quarta-feira, ele passava a hora do almoço sozinho no escritório, debruçado sobre os sites com anúncios de garotas de programa. Durante cerca de uma hora, escolhia sua preferida a dedo. Selecionada a moça, ele ligava e marcava um encontro para o final da tarde, sempre num flat. E se realizava.

Solteiro, sem maiores compromissos financeiros a não ser seus próprios luxos, Manuel gastava cerca de 150 reais semanalmente com uma "namoradinha de aluguel", com a qual ele deixava de ser Manuel. A cada encontro com uma prostituta, uma história diferente. Já foi Pedro, um engenheiro casado e com um filho pequeno, carente e cheio de neuras. Já foi Carlos, um estudante de direito indeciso entre casar com a noiva de três anos ou continuar na vida boêmia. Já foi Alexandre, garoto do interior que veio trabalhar na capital e que estava há seis meses sem "dar umazinha". Já foi namoradinho e grosseirão. Já foi Augusto, Fernando, Lucas, Afonso, Davi, José, Antônio. Mas nunca Manuel.

Nos encontros com as "meninas", Manuel saía de sua vidinha de bosta e se tornava alguém especial. Alguém com muita coisa para contar. Alguém cuja vida fazia brilhar os olhos de outro alguém, interessada em tudo que ele tinha para falar no intervalo entre uma camisinha e outra. As histórias não eram verdadeiras. E muitas vezes, o interesse das garotas também não. Mas para ele, era suficiente. O melhor holofote que seus 150 reais podiam comprar.

Naquela quarta-feira, a escolhida foi uma tal Manuela - por mais que o nome fosse uma enorme coincidência e lembrança, foi a que mais lhe agradou. Nunca gostou de repetir. Mulher mais velha, 38 anos, bonitona, conservadona. Para ela, tinha reservado uma de suas facetas favoritas: Nicolau. Também era um de seus nomes preferidos, aliás. Nicolau era cartunista frustrado, um sujeito sarcástico e de humor ácido que passava as tardes enterrado em um emprego público patético, fazendo caricaturas de um chefe que odiava. Para Manuel, Nicolau daria até um filme. Com o Paulo Betti no papel principal. Depois de 1h30, o Manuel que virou Nicolau voltou a ser Manuel - estava atrasado para um encontro na pizzaria com os pais. Acelerado, pagou o valor devido a tal Manuela (mesmo que, a cada vez que a chamasse pelo nome, desse um sorrisinho sacana sentindo a ironia), pegou o elevador correndo, entrou no carro voando e seguiu deslizando rumo à Avenida Paulista. Só depois de bons pedaços de uma pesada pizza de calabresa e bons goles de Coca-Cola é que nosso Manuel percebeu: seu cartão do banco não estava na carteira.

Manuel ficou tenso. Não se preocupou com a conta da pizzaria, porque sabia que o pai arcaria com a despesa. Acontece com qualquer um, não é? Sua preocupação real era que a tal Manuela descobriria que ele, na verdade, não era Nicolau, mas sim... um Manuel qualquer. Tinha certeza de que o cartão tinha caído lá, porque foi a última vez em que mexeu na carteira. Na cabeça de Manuel, muito mais preocupante do que ter a conta esvaziada era o fato de ter seu segredo revelado. Se sentia nú, revelado, aberto, ultrajado, exposto. Um bosta. No dia seguinte, foi ao banheiro do escritório próximo da hora do almoço. Sacou o celular e ligou para a Manuela, maldita seja, agora senhora de seu grande segredo e principal fantasia. Dois toques depois, ela atende, voz aveludada.

- Pois não?- Por gentileza - gaguejava ele - eu queria falar com a Manuela.
- É ela - riu-se a moça, pela rima involuntária.
- Eu...eu...eu sou o Nicolau, lembra? Que esteve aí ontem.
- Nicolau? Que Nicolau? Ah, sim o Nicolau. O desenhista. Oi, gracinha, tudo bom? Que posso fazer por você?
- É que eu... acho que esqueci uma coisa no seu apartamento...
- Que coisa?

"Maldita, maldita, maldita", pensou, batendo na pia do banheiro. "Ela tá me testando". Estava suando, com as mãos molhadas e trêmulas. Respirou fundo. Continuou.

- Acho que o cartão do meu banco caiu por engano, enquanto eu tirava o dinheiro da carteira para te pagar.
- Cartão de banco? - disse ela, com o sorriso fácil. - Ué, mas o único cartão que achei foi de um tal de Manuel Fernandes..

Não, não, não. Ela não estava fazendo isso com ele. Ela não ia forçá-lo a admitir que era Manuel, aquele Manuel sem graça, sem sal e sem tempero.

- Alô? - provocou Manuela novamente. - Tem alguém aí?
- Tem, tem sim. É... sou eu. O Manuel Fernandes. - a voz de Manuel era diferente da voz do confiante Nicolau. Não tinha nada de sarcástico. Falando baixinho e sussurrante, soava como um completo derrotado.

- Bom, eu tô tomando conta do seu cartão. Quando você quiser vir buscar...
- Eu vou... vou... - tomando fôlego - vou hoje à tarde. No mesmo horário.
- Se você quiser aproveitar pra gente brincar mais um pouquinho... - brincou a maldita do outro lado da linha.

Maldita. Tinha seu segredo cruel em mãos, e ainda queria mais dinheiro.

- Tudo bem - respondeu Manuel, sem a coragem de um Nicolau ou Frederico - a gente faz outra festinha.

Sorriso amarelo, Manuel se olhava no espelho e sentia cada vez mais... um bosta. Agora mais do que nunca na vida.- Então tá bom. Até às 18h, ok?Manuel não respondeu. Só desligou o telefone, sem forças para respirar. Se arrastou como um zumbi pelo trabalho durante o dia inteiro. Mal conseguia se concentrar. Sentia como se a única alegria de sua vida tivesse sido arrancada de maneira cruel, sofrida. Como aquela vadia maldita podia atacá-lo pelas costas daquela forma? Nunca as últimas horas do expediente demoraram tanto para chegar. Mas chegaram, enfim. Não sentia fome. Não tinha condições de dirigir. Preferiu pedir um táxi. Estava tremendo novamente, mesmo na hora de dizer o endereço. Enquanto olhava indiferente pela janela, percebeu o sorriso sacana do taxista quando percebeu para onde estavam indo: um flat em um dos bairros mais conhecidos da cidade por sua alta concentração de "acompanhantes". Estava estampado na cara o que o nosso Manuel ia fazer. O sorrisinho cheio de significado era um sinal nítido entre dois machos da espécie humana, uma espécie de aprovação ao ritual da sacanagem alheio. Manuel não respondeu. Nem olhou de volta. Ficou em silêncio. E a tosse seca do taxista e seu boné do Palmeiras só deixaram Manuel ainda mais cheio de ódio.

Chegando no flat, Manuel subiu apressado. Mal disse "oi" para Manuela. Num misto de raiva e excitação, agarrou a mulher pelos cabelos e arrancou suas roupas. Ela reclamava da truculência, mas ele seguia em frente. Não parava. A jogou com voracidade na cama. Nunca tinha transado daquela forma. Com tanta intensidade, tanta força, tanto vigor, tanto poder. Mordeu e chupou deixando marcas. Ela parecia estar gostando, pois respondia marcando suas costas com as unhas. Com a maldita de quatro, sentiu-se no controle. Quando gozou, Manuel gritou com vontade, dando tapas na bunda dela de maneira que arrancou-lhe gemidinhos de dor. Satisfeito, caiu sem roupas na cama. Nunca esperava que fosse ter esta reação. Quieto, de olhos fechados, mexia os dedos aleatoriamente. Sentiu-se vivo. Sentiu-se único. Sentiu-se o senhor daquela cama. Sentiu-se muito mais Nicolau do que Manuel. Sentiu-se...

- Uau, hein, Manuel? Ontem você não foi assim, viu?

Manuel abriu os olhos. Ainda não estava totalmente no controle da situação. Porque ainda faltava dar àquela maldita o que realmente merecia. Chamá-lo de Manuel, como ousava? Desgraçada. Repentinamente, todo o ódio que sentiu enquanto refletia no banco do táxi, ao som da tosse seca do taxista gordo e repugnante, retornou enchendo suas veias. Virou rapidamente subindo por cima de Manuela. Suas mãos se fecharam em torno do pescoço da garota. Ela começou a se debater. Mas o franzino Manuel mostrou força e resistência que nunca tinha esperado de si mesmo. Seus olhos queimavam em fúria, seus dentes trincados quase racharam, seus dedos já estavam doloridos. Logo, a respiração de Manuela começou a desaparecer. Até que seu corpo, combalido e sem vida, tornou-se uma coisa flácida no meio da cama, entre lençóis desarrumados. Acabou.

Manuel continou apertando seu pescoço durante alguns minutos. Quando percebeu o que tinha feito, largou-a com um grito assustado. Saltou da cama, ainda nú, e percebeu a situação. Aquele quarto estranho, aqueles bichos de pelúcia, aquelas velas aromatizantes com cheiro de nada, aquele perfurme barato. Aquela mulher morta na cama, ao lado da embalagem rasgada de preservativo. Sentiu nojo de si mesmo. Vontade de chorar. Mas, ao invés disso, sorriu. Sentou no chão e começou a rir descontroladamente. Mãos nos joelhos, cabeça baixa, Manuel tinha se tornado outra pessoa. Talvez aquele fosse o segredo sujo de Augusto, Fernando, Lucas, Afonso, Davi, José, Antônio, Carlos, Alexandre, Pedro. Talvez fosse o segredo de Nicolau. Mas nunca, nunca de Manuel. Manuel era um sujeito comum, simples, ordinário. Nunca um assassino. Ainda mais, numa quinta-feira.

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