05/10/2007

.: QUADRINHOS .: Homem-Aranha – Potestade

Deixe pra lá toda aquela polêmica gratuita (e que, tenho cá pra mim, alardeada pela própria Marvel) que rodou a internet sobre a cena do “pênis-aranha” ou mesmo a justificativa do “esperma radioativo” para a morte de Mary Jane. Não é nada disso que torna “Homem-Aranha: Potestade” uma porcaria. O que torna “Homem-Aranha: Potestade” uma porcaria é o fato de que a história INTEIRA é ruim. Simples assim. Kaare Andrews pode ser um cara legal, pode ter feito coisas muito legais, mas “Potestade” NÃO é legal. Nem um pouco.

O negócio é um pastiche sem graça do “Cavaleiro das Trevas” – e não, isso NÃO é um elogio. A comparação com a história do Batman, por mais que eu não a considere o momento mais genial do Frank Miller (prefiro muito mais “Ronin”), é totalmente injusta. Soa menos como “referência/homenagem” e mais como “falta de criatividade”. Até o recurso dos noticiários entrecortando a trama é utilizado, com destaque para o nome do âncora do jornal: Miller Janson (Frank Miller+Klaus Janson, a dupla do “Cavaleiro das Trevas”).

O futuro totalitário apresentado por Andrews é raso, sem dimensão e óbvio demais: uma sociedade comandada pelas grandes corporações e policiada por uma milícia truculenta que comanda todos os movimentos dos pobres mortais, 1984-style (todos com um visual que lembra o Devorador de Pecados); na qual os heróis mascarados foram extintos e um certo Peter Parker envelheceu na miséria financeira e humana, destruído por dentro e por fora...Ele reencontra sua máscara, reencontra seu eu verdadeiro e...e...pense um pouco e me diga quantas vezes você já não viu uma trama semelhante, estrelada por tantos outros personagens?

O desenvolvimento da história não melhora em nada. Parker é um homem triste e amargurado que parece ter se esquecido do mantra “com grandes poderes, vêm grandes responsabilidades” e vive se lamentando, de um lado para o outro, a morte de sua amada Mary Jane, vendo a mulher em tudo quanto é lugar (que a ruiva me perdoe, mas ela jamais foi um elemento primário na definição da mitologia do aracnídeo, surgido muito antes de sua invenção). Mas basta ele colocar o velho uniforme para se transfigurar de maneira surpreendente, dando os mesmos saltos rocambolescos de outrora e fazendo piadinhas infames. Será que fui só eu quem perdeu alguma coisa no meio do caminho? A coisa acontece automática demais, falta uma sutileza, uma transição, uma delicadeza narrativa. Como storyteller, Andrews entrega tudo de maneira brutal e pouco atrativa, como um rinoceronte que despeja força bruta por suas páginas sem pensar muito, atirando fatos e fotos como que querendo apenas chocar.

Vejamos o caso do Sexteto Sinistro. Os vilões são retratados de maneira estúpida, vazia, apenas como máquinas de matar que passaram tantos anos congelados. Quem são eles, onde estiveram, o que passaram, como é o seu relacionamento com Peter? A idéia relativa ao Dr.Octopus é ótima, de verdade, mas tratada de maneira superficial e tão rápida que parece ter sido uma idéia de última hora jogada ali apenas para polemizar...de novo. Onde está Norman Osborn (ou seus herdeiros), o grande antagonista de Peter? Quem diabos vai engolir o fato de que J.Jonah Jameson e Peter Parker são velhotes quase da mesma idade (o Cabeça de Teia começou a trabalhar no Clarim aos 17 anos e Jonah já era um tiozão!)? E por que a maldita insistência em retratar AQUELA COISA como sendo o maior inimigo que o Homem-Aranha tem? Raios, raios duplos! A motivação deste “vilão” e seu grande plano são tão ridículos que já foram utilizados em uma esquecível minissérie ainda com o Aranha Escarlate e voltou a ser assunto nos EUA novamente recentemente. Que novidade, hein?

E por último, mas não menos importante, queria entender o motivo da escolha de “Potestade” para título nacional da série (publicada, graças a Deus, integralmente por aqui). “Potestade” é muito bonito, pomposo, chiquetoso, e uma palavra que existe verdadeiramente, tudo bem, eu entendo. Mas é uma palavra difícil de se pronunciar em um país com milhões de analfabetos. E uma palavra, me desculpem, feia PRA CACETE. A palavra existe, e está no dicionário como sinônimo de “poder, potência”, com paralelos divinos. Hum. Por que não usar algo como PODER DIVINO, PODER SAGRADO, DINASTIA DO PODER, PODERES DO FUTURO ou qualquer coisa que o valha? Eu pensaria em opções melhores se estivesse sendo pago para isso (ligando o medidor de sarcasmo). “Potestade” é sacanagem.

O objetivo da comunicação é comunicar, é atingir o interlocutor, é ser efetiva. “Potestade” é uma palavra barroca, cheia de redondilhas, que não cabe no vocabulário dos garotos que a gente quer que voltem a ler quadrinhos. Ou a gente se moderniza, ou os mesmos trintões (que logo serão quarentões e/ou cinquentões) de sempre é que vão continuar lendo gibis...o que garante a este mercado mais, no máximo, umas duas décadas.

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