04/01/2008

.: CINEMA .: Cinema Nacional

Antes que você pergunte: não, ainda não vi “Tropa de Elite”. E também não tive a oportunidade de conferir “Meu Nome é Johnny” – embora Selton Mello seja o astro daquele que é um dos melhores filmes nacionais nos quais coloquei os olhos em muitos anos, o incrível CHEIRO DO RALO, ao qual tive acesso neste último final de semana. Por sinal, este é sem dúvidas o papel da vida do Selton, que sempre considerei um excelente ator, entre os Top 5 de sua geração.

Interpretando o personagem que é (ou parece ser) praticamente uma representação autobiográfica do próprio autor Lourenço Mutarelli, Selton está totalmente à vontade. Os diálogos da mais pura escrotidão proferidos por seu próprio Lourenço saltam de maneira natural e factível, nos fazendo crer 100% que, sim, existem muitos seres humanos nojentos e desprezíveis como aquele. E um deles pode até ser o seu vizinho.

O mais estranho é que Lourenço é tão nojento e asqueroso, tão bizarro, tão depressivo, tão inconveniente, tão viciado na mais pura podridão humana...e, ainda assim, exala um carisma tão poderoso quanto o próprio cheiro pútrido que emana do ralo de seu banheiro. Lourenço é um maldito. Mas um daqueles malditos pelos quais é impossível se apaixonar.

O texto é essencialmente urbano e humano, sem precisar recorrer aos cansativos expedientes de “bandidagem carioca na favela”, “história do Brasil” ou “fome e miséria no Nordeste” que povoam a nossa filmografia em momentos de crise criativa. No muitíssimo bem-selecionado elenco de apoio, destaque para Mutarelli himself, um dos quadrinistas underground mais consagrados do Brasil e que encontra a sua própria redenção na pele do segurança cool da empresa de Lourenço. A cena na qual os dois trocam um papo cabeça no puído sofá do local chega a ser quase histórica, antológica, naquele que é um muitos pontos altos da película.

Outra surpresa para este que vos bloga foi 2 FILHOS DE FRANCISCO, a tão falada cinebiografia de Zezé Di Camargo e Luciano que eu ainda não tinha visto – depois dos 5.000.000 de espectadores nos cinemas, aliás, talvez eu fosse um dos poucos que ainda não tinha visto. E não por preconceito, bem pelo contrário até, já que todos os comentários positivos me levavam a querer dar uma boa olhada na obra de Breno Silveira. Mas sim pela combinação de falta de tempo + falta de oportunidade. Quando a Globo alocou o filme entre suas atrações para começar o ano, não tive mais desculpas. E não me arrependi em nada, caros colegas bangers puristas que sei que acessam este endereço.

Porque o filme é muito menos uma biografia de uma dupla sertaneja e muito mais a história de um homem simples que, em meio à pobreza, resolve lutar pelos sonhos de seus filhos, transformando-os em seus próprios. É um dramalhão? Claro que é, não tenha dúvidas. E que chega até a resvalar para o lado novelesco na última meia-hora, quando Zezé vem para São Paulo tentar a sorte.

O segredo de “2 Filhos de Francisco” é mesmo a interpretação entregue de Ângelo Antônio no papel do paizão dos garotos, revelando uma figura de apaixonante de enorme coração. Assim como em “Cheiro do Ralo”, trata-se de um filme de atores, um filme de personagens, um filme de seres humanos. No fundo, este é o segredo de todos os filmes que me tocam de verdade, muito mais do que efeitos especiais e demais trucagens e fuleiragens (como diria o mestre Falcão) do gênero.

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