21/01/2008

.: QUADRINHOS .: O fim de Guerra Civil [SPOILERS!]

Juro que, quando vi o final de “Guerra Civil # 6”, tive a impressão de que o Mark Millar ia acabar com tudo que tinha construído até então – exatamente como aconteceu com “Os Supremos – Volume # 2”. A página de encerramento com aquele amontoado de heróis rangendo os dentes e se preparando para a pancadaria me fez imaginar que Millar recorreria a um expediente recheado de splash pages com dezenas de personagens em combates épicos e heróicos – mas com conteúdo zero, esquecendo-se do mais importante nesta “pataquada” toda: o roteiro. Mas qual não foi a minha surpresa ao perceber que até que ele soube lidar bem com a coisa toda, de maneira sutil e, na medida do possível, elegante?

Quando a batalha é levada, pelo Manto, diretamente para o meio da cidade de Nova York, eu já tinha sentido um cheirinho diferente no ar. Um lance meio...”putz, ele vai fazer isso. Era disso que o Homem de Ferro precisava”. Vemos o Capitão América trapaceando com a armadura do Ferroso para deixar a pancadaria entre ele e Tony Stark em pé de igualdade – mas, se considerarmos que sem a sua roupa robótica, Tony é apenas um bilionário sem poderes enquanto Steve Rogers é um sujeito com o soro do supersoldado correndo nas veias, percebe-se que a luta não foi assim tão justa. E quando a luta destrói boa parte do bairro, colocando as vidas daquelas pessoas em risco, eu tive a certeza de como a história terminaria. E não poderia ter sido de maneira tão inteligente, com os próprios cidadãos nova-iorquinos pulando em cima de um Capitão América cego de ódio, para impedi-lo de matar Stark, e fazendo-o ver que a luta, afinal, tinha se tornado pessoal, fazendo todos os combatentes se esquecerem de quem realmente importava: as pessoas que eles deveriam proteger.

Estamos falando de Steve Rogers. Um homem que veste a bandeira dos EUA e que, antes de qualquer coisa na vida, é um guerreiro. Um soldado. Mas um soldado cujo objetivo primordial é sempre salvar vidas, não importando que ideologia esteja governando a Casa Branca ou a SHIELD no momento. Quando o Bandeiroso abre os olhos para a violência que ele mesmo ajudou a deflagrar em nome de uma idéia, sem pensar nas conseqüências, repetindo o mesmo caos e destruição de Stamford, era de se esperar que ele, em lágrimas, largasse tudo e decidisse que aquela batalha já estava perdida. Dentro dele. E nisso, Mark Millar acertou no alvo.

Destaque ainda para a singular cena, sem diálogos, na qual o Justiceiro apanha a máscara do Capitão América do chão sem ser visto, em meio aos destroços da batalha. Depois do diálogo genial entre os dois na edição anterior [quando Frank Castle se recusa a bater no Capitão América – afinal, ele sempre foi um soldado, e o Capitão é, antes de tudo, um ídolo para ele], Millar nem precisou de palavras para dizer absolutamente tudo naqueles poucos quadrinhos. Pra mim, por sinal, é bizarro perceber que os dois melhores personagens da série, Capitão e Justiceiro, são justamente os dois que eu odiava ler há alguns anos exatamente pela safra de péssimos roteiristas aos quais eles foram expostos. Como as coisas mudam.

O saldo final de “Guerra Civil”, no meu entender, é altamente positivo. Mas Millar colocou a cronologia da Marvel tão de pernas para o ar, remodelando as relações entre os personagens, as mitologias de suas principais equipes [em especial os Vingadores e o Quarteto Fantástico] e dando novo status quo aos principais personagens da editora, que tenho dúvidas de que a trupe do editor Joe Quesada tenha coragem de seguir tudo a partir daí como deveria, encarando o desafio com coragem, como novas possibilidades criativas, e não como um “ih, fodeu. E agora, o que a gente faz?”. Mas tudo bem. Qualquer problema, é só voltar ao “normal” num estalar de dedos, dizendo que foi tudo “mágica”. Ou então dizer que foi uma invasão de skrulls se fazendo passar pelos grandes heróis da Casa das Idéias, sei lá. Que Stan Lee tenha piedade de nós.

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