19/03/2008

.: CINEMA .: Perdoe-o, Eisner, ele não sabe o que faz.

Isso virou tema de uma das minhas colunas no Delfos e que deve ser publicada em breve, mas já adianto em primeira-mão: recentemente, peguei o maior bode do Frank Miller. Nos quadrinhos, pelo menos na última década, o cara não tem escrito nada que preste – um mínimo acerto aqui, outro acolá, mas as cagadas são muito mais memoráveis, em especial aquelas com o Batman (Cavaleiro das Trevas 2? All-Star Batman?). Gostei das adaptações para os cinemas de “Sin City” e “300” – que, inclusive, considero melhor do que o gibi original – e devo admitir que fiquei feliz quando soube que ele assumiria a direção do filme do Spirit. Porque, além de escritor de quadrinhos, o cara é fã e seguidor fiel do nosso finado, que Odin o tenha, Will Eisner.

Mas, esta semana, passei a ter minhas dúvidas sobre a sanidade do narigudo para segurar tamanha bronca. Afinal, por mais “The Spirit” seja a obra mais, digamos, pipoca de Eisner, ainda assim é deliciosa e absolutamente genial. Pois é. Aí, me vem o Miller dizer que o seu maior desafio na adaptação foi transformar Ellen Dolan, filha do comissário e grande amor da vida de Denny Colt, numa personagem menos chata. ”Meu primeiro pensamento foi fazer de Ellen um elo mais forte entre o herói e a realidade - na verdade, um elo entre Spirit e a sobrevivência”, afirmou o sujeito. Tá. Mas aí vem a bomba: “Como, na minha interpretação, Spirit sofre muito mais castigo físico no que no original, pensei que ele precisaria de alguém para colocá-lo de pé. Assim, a Dra. Ellen Dolan é a cirurgiã que sabe mais do que ninguém sobre os singulares poderes de recuperação de Spirit".

Veja. Nada tenho contra a transformação de Ellen numa médica, contanto que isso seja salutar para o resultado final. Mas sinto um cheiro estranho no ar. Sinto que Miller quer transformar Ellen numa espécie de femme-fatalle. Uma, digamos, “do bem”. Mas ainda assim, uma femme-fatalle – como aquelas que povoam aos montes o mundo de “Sin City” e que ele adora. O fato é que o próprio Spirit já está suficientemente cercado de femme-fatalles, que é o estereótipo típico de suas vilãs. Mas Ellen Dolan não. A moça foi feita para ser pentelha. Como também era a Lois Lane da mesma época, dos primórdios do Super-Homem de Siegel e Shuster.

Aquela simpática boa moça retratada na cultura pop dos anos 40, forte por um lado, mas intensamente dependente por outro. Do tipo que quer ter um emprego fora de casa para provar seu talento, mas ainda sonha com uma casinha de cerca branca, com uma churrasqueira no quintal e um casal de lindos filhos muito bem-educados. Me assusta ver Miller querendo dar tamanha força à moça a ponto dela perder esta sutil dualidade.

O outro ponto fundamental é “os singulares poderes de recuperação de Spirit”. Alô? Tem alguém na linha? Perdão, mas de que “poderes” ele está falando??? Pirou, homem? Juro por Crom que espero honestamente que Miller esteja sendo poético ao falar de “poderes de recuperação”. Caso contrário, se ele estiver realmente se referindo a poderes, de fato, o fedor se espalhará pelo ar. Porque a graça do Spirit mesmo é ele ser apenas um camarada mascarado que combate o crime com inteligência e pitadas de bom-humor.

Miller, Miller, Miller. Não me faça pegar nojo.

(comecei a falar como purista? oh, oh)

3 comentários:

Silas Chosen disse...

não é purismo diante de uma mistura de Spirit com Wolverine.

Ele vai ter esqueleto de adamantium?

Gardagami disse...

See here or here

Gabriela Iscariotes disse...

Opa, acho que rolou um errinho no texto; Miler não estaria querendo transformar a moça numa personagem menos chata? Porque senão não faz sentido dizer que ela foi feita pra ser pentelha, de propósito.