06/03/2008

.: CINEMA .: Tropa de Elite

Mais de 11 milhões de pessoas (contando aqueles que foram os cinemas e também aqueles que assistiram de maneiras, digamos, “alternativas”) e um Urso de Ouro depois, finalmente assisti ao fenômeno Tropa de Elite. Não vamos entrar no mérito de “ah, mas por que você não viu uma cópia pirata?”. Sei que a cada esquina tinha uma, e me ofereceram o dito cujo mais de uma dezena de vezes. Mas preferia ter visto a película no cinema, tela grande. Coisa minha, princípios meus, não é hora de discutir aqui. Como não tive tempo enquanto a produção estava em cartaz, acabei esperando a obra do José Padilha chegar às locadoras. E pronto. Tive que falar sobre este assunto mais vezes do que tive que responder a pergunta “por que você não come carne?”, e prefiro evitá-lo pelo menos aqui.

Juro que estava meio “de bode” com todo o hype feito em cima das aventuras do Capitão Nascimento. Tudo mundo tinha visto, tudo mundo falava que era muito bom, todo mundo sabia (e repetia à exaustão) os jargões do capitão do BOPE, todo mundo mandava piadinhas pela internet baseadas nas situações do filme...Uma coisa de louco. Mas sou meio contra as unanimidades burras, aquelas indiscutíveis e intransponíveis tipo Nirvana ou Legião Urbana. Ou “Cidade de Deus”, do qual todo mundo é obrigado a gostar de paixão ou não pode ser considerado “brasileiro de verdade”. Por isso, mantive meu pé atrás. E ainda bem que caí do cavalo – porque achei o filme ótimo, no final das contas!

Aproveitando que falei de “Cidade de Deus”, deixe-me dizer uma coisa: “Tropa de Elite” é muitíssimo superior ao tão decantado filme de Fernando Meirelles. Sinto desapontar os xiitas. Tecnicamente, “Cidade...” é impecável. Mas “impecável” para os americanos, veja bem. É filme feito na medida para os gringos assistirem. A velocidade da fotografia e da edição, é tudo produzido no mesmo esquema dos filmes estadunidenses da escola Quentin Tarantino/Robert Rodriguez, privilegiando a violência com takes estilosos e diálogos bem-sacados. Nunca vou esquecer da seqüência inicial, cópia descarada do trailer de “Snatch”, de Guy Ritchie. O restante, todavia, não me convence. Acho uma película vazia de conteúdo – e, pelamordedeus, que não me digam que ele não glorifica a bandidagem. Ou alguém em sã consciência acredita que o personagem principal de “Cidade...” é o inocente Buscapé, que fugiu da violência ao seu redor e tornou-se “uma pessoa de bem”? Quem virou camiseta, adesivo, ícone da cultura pop, herói? O traficante e assassino Dadinho...quer dizer, o Zé Pequeno, porra.

“Tropa de Elite” é um filme muito mais autêntico e autoral. A câmera é quase documental, tremendo nervosamente nos momentos em que vira quase primeira pessoa na perseguição dos personagens. As cores são estouradas e a iluminação é de uma secura que combina com a brutalidade da trama. A narrativa é de uma urgência impressionante. E os diálogos, de fato, são recheados de naturalidade, inteligência e, ao mesmo tempo, ótimas tiradas – que vão além do “pede para sair”, “não vai subir ninguém” e demais petardos que já se tornaram parte do nosso imaginário. As interpretações são muito verdadeiras e imersas em total intensidade, em especial a do hoje tão idolatrado Capitão Nascimento. Wagner Moura incorpora o policial com tanta força que, ao final da projeção, é praticamente impossível dissociar o camarada daquela farda preta. Meio o fenômeno que ocorreu com o Selton Mello depois de “O Cheiro do Ralo” – pra mim, ele virou o Lourenço para sempre!

O timing é eletrizante, criando seqüências de ação de tirar o fôlego e transformando “Tropa de Elite” em um excelente filme do gênero, uma espécie de “Duro de Matar” cuja história é focada especificamente na nossa realidade. E com um protagonista muito mais mal-humorado, claro. Aliás, é fácil entender como diabos o Capitão Nascimento se tornou um herói nacional. Não, no filme ele nada tem de herói. Na verdade, é um cara paranóico e obsessivo, um matador por natureza. Bastava apenas alguém passar fogo na família dele para transformar o sujeito no Justiceiro, porque a caveira na roupa ele até já usa. Até o cabelo do Moura lembra o Frank Castle do Mike Zeck! Mas, num país assolado pela violência como o nosso, no qual os bandidos de Brasília se juntam aos bandidos de cima dos morros para transformar nosso dia-a-dia num inferno, “Tropa de Elite” se torna uma pequena vingança pessoal para cada espectador. Sim, caros grupos de direitos humanos, sabemos que o que Nascimento faz não é nada bonito. Mas vamos todos deixar a hipocrisia de lado: a alma sai um tantinho lavada depois de ver os bandidos sendo tratados como bandidos, de fato.

Também sei que o pensamento do Capitão Nascimento tem um quê de dicotômico e que, obviamente, determinadas posturas adotadas por ele chegam a extremos desnecessários. Mas, por causa disso, chamar “Tropa de Elite” de “fascista”, “direitista” e “incentivador da tortura” é fugir do assunto escapando de maneira sacana pela esquerda, numa boa. É tentar evitar uma discussão pra lá de pertinente. Ou alguém aí discorda do interesse do ponto levantado por ele com virulência perante um bando de estudantes universitários com uma suposta “consciência social”, todos garotões de classe-média, a respeito da culpa sobre a inocente maconha consumida por eles no crescimento da criminalidade comandada pelos traficantes? Não digo que eles sejam os únicos culpados, seria ser reducionista e simplista demais. Mas que têm uma boa parcela de culpa e devem começar a pensar nisso o quanto antes, ah, isso têm. A minha consciência tá limpa. E a sua?

2 comentários:

Silas Chosen disse...

Já conversei sobre Cidade de Deus com você.

Mas sobre Tropa de Elite, concordo em gênero, número e grau.

Chamar de fascista...

Jota disse...

Limpíssima, camarada.

O "appeal" do Capitão Nascimento, o que criou o ciclo reverenciador do personagem, na real, é o fato de que ele não bate pra salvar o dia, pra salvar a dama, pra combater o mal. O capitão Nascimento bate pra doer.