13/03/2008

.: PESSOAL .: Os novos pecados capitais

Certo dia, o Papa Chico Bento 16 acordou de mau humor. Não estava mais no barato de ficar fazendo charadinhas para Hank, Eric, Presto e sua turma – e como a batalha contra os rebeldes no espaço sideral está mesmo perdida e ele nem foi convidado para a exposição no Ibirapuera, decidiu que era hora de decretar mais alguns pecados capitais. Agora, além dos velhos conhecidos gula, luxúria, avareza, ira, soberba, vaidade e preguiça, teremos manipulação genética, uso de drogas, desigualdade social e poluição ambiental.

“Os novos pecados vão além dos direitos individuais e têm uma dimensão social”, explicou o monsenhor Gianfranco Girotti, responsável pelo tribunal da Cúria Romana que trata das questões internas do Vaticano. Hum.

Sobre “manipulação genética”, o correto seria dizer “células-tronco” – porque, afinal de contas, estas polêmicas pesquisas se tornaram a principal dor de cabeça do Bentão nos últimos anos. Ou alguém duvida que, ao se levantar uma discussão desta natureza, a respeito de qual seria o momento do nascimento da vida de fato, também não se iniciaria um debate a respeito do aborto? “Não, não. Aborto não. Vamos dizer que a manipulação genética é pecado e pronto, tudo resolvido”. E as senhoras católicas vão passar a se benzer todas as vezes que olharem para um cientista na televisão. “O quê, você quer ser geneticista, menino? Perdeu o juízo? Isso é pecado, você vai para o inferno!”. Mendel e suas ervilhas devem estar orgulhosos.

Sobre a poluição ambiental, tudo bem, eles que joguem o Bush e seus cupinchas num trem direto e reto para os domínios de Belzebu. E o acréscimo das drogas eram esperado – mas Girotti complementou de maneira infeliz: "A droga enfraquece a psique e obscura a inteligência, deixando muitos jovens fora do circuito da Igreja", explica. Ah, entendi. “Não vamos deixar estes moleques usarem drogas, porque isso os afasta da Igreja”. Claro. O fato de que o comércio ilegal de drogas incentiva a violência pode ser descartado, desde que os traficantes vão à Missa todo domingo. Amém.

Mas o melhor é mesmo a história da desigualdade social. Bill Gates? Toda vez que meu Windows der pau, eu saberei que o castigo virá em algum momento da sua vida, porque você vai para o inferno. Sem escalas. Alguém precisa, no entanto, explicar ao Papa que, se promover a desigualdade social é pecado, o Vaticano pode ser considerado um antro de perdição. Estamos falando de uma das instituições mais ricas do planeta, que vive cercada de ouro maciço em um dos países com a economia mais estável da Terra.

Pergunta: por que não usar integralmente este dinheiro para ajudar os necessitados? Que tal vender a sede de US$ 60 milhões que a Opus Dei mantém em Manhattan e doar tudo para os necessitados na África? Por que diabos o Bentoso precisa de um trono tão suntuoso ou de roupas tão fartas em jóias para propagar a palavra de Jesus – que era filho de carpinteiro e vivia de sandálias por aí?

O John Doe teria mesmo muito mais trabalho pela frente.

E se você não entendeu a referência e nem o motivo de ter a foto do Kevin Spacey ilustrando este post, sugiro assistir a um filme chamado “Seven”. Depois a gente conversa.

Um comentário:

Anônimo disse...

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