10/09/2008

.: PESSOAl .: Frio como o inferno

Para comemorar o post de número 300 deste blog, resolvi colocar por aqui o meu primeiro conto de inspiração medieval. Apesar de ávido consumidor de produtos nerds envolvendo elementos de fantasia, ficção científica e/ou super-heróis, nunca foi muito a minha praia escrever este tipo de material. Sempre preferi histórias contemporâneas, urbanas, sobre os relacionamentos de pessoas comuns e com uma pitada de humor. Todavia, convidado por uma grande amiga, acabei arriscando algumas palavras ambientadas na Idade Média. Por motivos que não cabe reportar aqui, o conto acabou não sendo publicado. Então, eu o compartilho com o mundo. Eu gostei bastante do resultado final. E fiquei deveras orgulhoso dele.


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Certas lembranças só vêm à tona em situações extremas, revelando mais significado do que se pensava. Antes que nossa comitiva partisse em missão para o Norte, pude conversar com Lorde Montagne, velho amigo de família e veterano das batalhas em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo. Com os bigodes sujos de vinho e a voz embargada, o guerreiro combalido tentou parecer sério quando soube do destino reservado para mim.

- Meu jovem Jacques, saiba que as escrituras estavam erradas: o inferno, morada de Satanás, não é quente e repleto de chamas. O inferno é frio. Uma desesperadora imensidão branca. Que traz uma desoladora sensação de solidão.

Meu pai tentou mudar o rumo da conversa, fazendo uma piada sobre os dentes dos novos criados. Mas Montagne finalizou, aos sussurros, de maneira que apenas eu ouvisse:

- Você vai se lembrar, Jacques. Quando o frio congelar seus ossos, você vai se lembrar...
Na hora, só conseguia pensar no prestígio que teria ao retornar, que finalmente me permitiria pedir a mão de minha doce milady Danielle em casamento. Parecia que o paraíso estava reservado para mim. Até que, depois de semanas de dura cavalgada, cheguei ao inferno. Por vontade própria. E me lembrei de Montagne.

Aqui estou, espada em punho, esperando pela chegada dos bárbaros. Sei que o sangue do filho de Deus se derrama para nos consagrar contra esta horda de monstros torpes. Mas tudo que consigo pensar neste momento é nas palavras de Montagne.

Está mesmo frio como o inferno. Sinto meus ossos congelados sob o peso da armadura. Meus dedos estão endurecidos ao redor da minha arma. O ar em meu peito faz parecer como se eu estivesse prestes a explodir. O vento circunda meu corpo com tanta força que mal consigo ficar de pé, e nada ouço além das apressadas orações de Crebleau ao meu lado.

A neve desaba tão pesadamente que a imensidão branca descrita por Montagne me faz sentir suas palavras marcadas a ferro e fogo. Não consigo enxergar um palmo à frente do meu elmo, que nunca me pareceu tão desconfortável. Tenho vontade de gritar. Sinto meus pés afundando, como se estivesse sendo tragado para as profundezas. O inferno é gelado. E eu tenho medo.

As palavras do bispo Antoine parecem ecoar tais quais os reverberantes sinos de sua catedral.

- Bravos ou covardes, justos ou vis, bem-aventurados ou miseráveis, todos os homens confrontarão a verdade em seus últimos dias, antes de ascenderem aos céus ou serem sugados para as catacumbas de Lúcifer. Vocês estão preparados? – desafiava ele.

Não, não estou preparado. Diante deste inferno glacial, encaro minha própria verdade. Pois eu, e apenas eu, sei que sou uma farsa. Neste lugar abandonado por Nosso Senhor, descubro que sou covarde, vil, miserável. E isso congela ainda mais os meus ossos. Um soluço seco faz brotar lágrimas de meus olhos, que endurecem antes que rolem por minha face. No inferno, não é permitido chorar. Nunca fui lutador, guerreiro, cavaleiro. Minh'alma sempre foi a de um escriba. Até que conheci Danielle. Dona de uma voz suave que enchia meu coração de júbilo. Aqueles olhos de um verde penetrante queriam mais do que cicatrizes de batalha. Ela enxergou além de minha face delicada, motivo de escárnio por parte dos garotos. Tocou meu rosto, minha boca, meu coração.

Até que, numa tarde de outono, enquanto caminhávamos pelos jardins, depois de ouvir os odes que passei a lhe escrever, Danielle pareceu transfigurada ao olhar em meus olhos. Era um olhar de tamanho ardor que chegou até a me assustar.

- Amado Jacques. Suas palavras são de uma pureza sem igual. Mas está na hora de você reconhecer aquilo que vejo desde a primeira vez. Mergulhei nos seus olhos e vi um fogo que me surpreendeu. Um fogo que arde em chamas tão altas, mas ainda trancafiado em teu peito. É o fogo da coragem. Você merece ser cavaleiro. Pois tem mais bravura do que imagina. Deixe que este fogo saia. Que queime ao seu redor e transforme sua vida. Eu estarei para sempre ao teu lado. Pois não tenho medo de ser queimada. Quero é ser abraçada por estas chamas.

Foi a primeira vez que nos beijamos. A primeira de muitas. Naquela noite, parecia que eu podia ver, em tintas nítidas, aquele cavaleiro que Danielle pintara no jardim. Anunciei minha decisão tempestuosamente ao meu pai. Queria lutar e honrar o santo nome do Nosso Criador, como os maiores heróis de nossa nação. O orgulho transbordava de sua expressão marcada pela amargura, um homem que sempre teve riquezas, mas que se deixou enganar por amigos de falsas intenções e submeteu-se a uma existência de muito trabalho e poucas recompensas. Meu pai sempre apoiou meus dotes literários, com genuína admiração. Mas eu sempre soube que ele sonhava em ver-me com a bandeira na armadura, trajado como santo guerreiro. E eu realizaria seu sonho, a qualquer custo. Por Deus. Pela pátria. Por Danielle. Por meu pai.
Foram anos de árdua preparação. Meu pai investiu todas as suas economias em meus treinamentos. Eu parecia cada vez mais certo de minha decisão, e ele jamais se arrependeu, por mais que até a comida e a água tenham sido rarefeitas. Por mais que os ferimentos fossem constantes e os obstáculos aumentassem gradativamente. Toda a zombaria só me dava força para provar que eu tinha sido forjado no fogo da guerra e do aço. Eles tiveram que engolir seus chistes. Saibam, idiotas, que Jacques tornou-se um valoroso guerreiro. Por Deus. Pela pátria. Por Danielle. Por meu pai.

Fincado no meio deste inferno gelado, dói meu coração perceber que foi tudo em vão. Este é um homem que eu não reconheço. Traí meu Deus, minha pátria, minha Danielle, meu pai. Deveria ter dedicado minha vida a escrever sobre cavaleiros, e não travestido como o herói que não nasci para ser. Meu pai, me perdoe. Assim como você, minha idolatrada Danielle. Danielle. Danielle. Inferno. Maldita seja, Danielle!

Que estúpido fogo da coragem foi este que você enxergou em meu âmago, que ardia em chamas tão altas? Este fogo me fez sonhar um sonho impossível! Estas são as marcas de quem foi queimado pela vida! Se estivesse aqui, eu mesmo trataria de dar-lhe um bom par de sopapos, para fazer sua voz suave confessar que estava errada! Quero ler em seus delicados lábios que você me enganou. Senhor, sinto vontade de gritar!

Espere, Jacques. Respire fundo, sua sanidade se esvai rapidamente. Não perca a razão, homem! Guarde este grito dentro de seu peito, preserve sua coragem para os bárbaros.

Minhas mãos continuam a tremer. Mas parece que o solo também está treme. Meus irmãos em armas se movimentam, preparando-se para o combate. Então, é possível distinguir as pesadas cavalgadas se aproximando. O inferno toma vida. Os bárbaros se jogam sobre nós como uma onda de puro horror. Seus gritos parecem urros demoníacos. E sua imagem desordenada de peles e chifres...Que Cristo nos proteja! Estamos no inferno. Esta é sua hora, Jacques. Solte o grito. Talvez Danielle esteja certa. Talvez exista um fogo queimando intensamente dentro de você. Deixe a voz sair!
A voz...
... esta voz...
... sufocada...
...pela lança que atravessa meu dorso.

Não consigo articular sequer um pedido de ajuda. Nem consigo sentir dor. O sangue quente escorre pelo meu corpo enquanto minhas pernas não resistem e me forçam a ajoelhar, exalando um ar gelado que parece explodir meu peito.

Montagne tinha razão. Está frio como o inferno. Meus dedos endurecidos soltam instintivamente o cabo da espada. Meus ossos se descongelam sob o peso da armadura, levando-me enfraquecido ao chão. A neve continua desabando nesta imensidão branca. À frente do meu elmo, as botas de Crebleau. Ele parece desesperado, talvez esteja chorando. O vento sussurra uma canção conhecida: "quando o frio congelar seus ossos, você vai se lembrar". Eu me lembro. E não tenho mais vontade de gritar. Sinto meu corpo inteiro afundando, como se eu estivesse sendo tragado para as profundezas.
O inferno é gelado. E eu não tenho mais medo. Posso chorar em paz. Meu fogo... se apagou.

2 comentários:

Paulo Martini disse...

Uau, hein? Cara, o conto está muito bom MESMO! :-D Gostei de verdade.

E agora levante essa bunda magra e vá logo para a Irlanda! :-D

Abração!

William disse...

Rapaz... muito bom o conto! Fiquei curioso para saber mais sobre a vida do "bravo guerreiro" e sua amada. Mas o final foi ótimo.

Eu sempre quis escrever contos assim, mas não tenho talento.

Abraço!