29/10/2008

.: CINEMA .: Zeitgeist

Em um curso que estou fazendo aos sábados, cujos temas genéricos são cultura e entretenimento, um dos professores sugeriu, como uma espécie de “videografia obrigatória”, que assistíssemos ao filme “Zeitgeist”. Documentário escrito e dirigido por um desconhecido Peter Joseph em 2007, o filme tornou-se uma verdadeira mania na internet, distribuído rapidamente em todos os softwares de compartilhamento de arquivos possíveis e imagináveis. O próprio site oficial, inclusive, oferece links para download do vídeo completo, com legendas nas mais diferentes linguagens – incluindo o português. Portanto, é mais do que recomendado que você clique no link a seguir e dedique duas horas de sua vida a esta experiência: http://www.zeitgeistmovie.com/main.htm

Palavra do idioma alemão, “Zeitgeist” significa, de acordo com a Wikipédia, “espírito de época ou espírito do tempo. O Zeitgeist significa, em suma, o nível de avanço intelectual e cultural do mundo, numa certa época, ou as características genéricas de um determinado período de tempo”. E a idéia do filme é justamente mostrar o quanto os seres humanos se tornaram dependentes de mitos cuidadosamente criados com a intenção de controle, nos quais se acredita com uma fidelidade quase cega e aos quais não se pode contestar sem ser chamado de “herético”. Estruturalmente, o filme “Zeitgeist” se divide em três partes: religião (comparando a mitologia das religiões pagãs com os mitos criados dentro do cristianismo), política (estabelecendo dados que relacionam diretamente o governo dos EUA aos atentados de 11 de setembro) e economia (revelando o total interesse dos banqueiros internacionais nas guerras e em crises econômicas como a que se abate hoje sobre nós).

“Zeitgeist” tem um bom quinhão de teoria da conspiração? Claro que sim. Mas isso não impede que a edição ágil e inteligente revele a coerência por trás de um deus-sol mitológico como qualquer outro na Grécia ou no Egito antigo ter sido transformado em uma figura humanizada e que teria existido de verdade, com supostas comprovações históricas e tudo mais. Qualquer um que tenha mínimo interesse pelo assunto percebe que Jesus é apenas uma versão do deus-sol Rá, transformado pelos romanos anos mais tarde em verdade incontestável por interesses políticos. Não sou e nem nunca fui ateu. Acredito numa força maior, numa energia que permeia todos nós. Mas esta força maior está longe de ser um velhinho de barba branca que mora no céu e olha pra mim com 10 mandamentos servindo como guia – ou, então, eu posso “ir para o inferno”, ardendo em chamas para sempre. E isso porque este Deus, tão punitivo e rigoroso, ainda diz que me ama! Como diz o próprio documentário: “Eu não sei o que é Deus. Eu só sei o que ele não é”.

Quando fala sobre o 11 de setembro, “Zeitgeist” deixa Michael Moore no chinelo ao rasgar o verbo e dizer, sem rodeios: o governo dos EUA foi diretamente responsável pelo 11 de setembro e tinha todos os motivos para criar, assim como acontece na religião, um inimigo mítico para unir o povo americano, um demônio para temer e combater. Os argumentos são realmente chocantes. Meio apocalípticos. Mas deixam qualquer um de boca aberta, gostando ou não, seja para amar ou odiar. Os leitores de quadrinhos se lembram de Ozzymandias e do final surpreendente de “Watchmen”? Pois é. Bem por aí. Mas de maneira muito menos altruísta.

“Zeitgeist” não é um filme para ser engolido sem contestação, como se fosse uma verdade absoluta. Até porque isso contraria completamente a mensagem final da película, de que a revolução só vai começar verdadeiramente dentro de cada um de nós quando pararmos de aceitar sem pensar tudo que vem das telinhas e telonas e passarmos a nos enxergar como seres humanos, como uma raça interdependente, como um sistema - e não como pessoas especiais que merecem muito mais, que precisam ter muito mais para poder muito mais, de acordo com o que a publicidade apregoa. Mas acho que é um filme para assistir e pensar. Pensar de verdade. Pensei imediatamente no primeiro “Matrix”, o único que presta: despluga aí, camarada. Estão tentando te enrolar. Enxergue a verdade.

O encerramento do filme – logo depois de uma espécie de amarração entre os três temas, que parece um daqueles filmes de ficção científica sombrios e opressivos - é lindo, e devo dizer que me bateu bem fundo porque eu já acreditava em boa parte daquilo mesmo, dentro da minha filosofia anarquista-pacifista particular. Uma outra frase dita no filme é interessante destacar: “A humanidade só vai mudar quando o poder do amor tornar-se mais forte do que o amor pelo poder”. Meio riponga, meio Lair Ribeiro. Até é. Mas acho que é bem por aí.

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