30/12/2008

.: CINEMA .: Batman: O Cavaleiro das Trevas

Antes tarde do que nunca, é hora dos amigos pararem de me atirar pedras e erguerem suas tochas incandescentes: finalmente assisti ao mais hypado filme nerd do ano, a nova aventura cinematográfica do Morcegão da DC Comics. E para iniciar os trabalhos, é necessário dizer que se trata do melhor filme que vi no ano. Sem exagero. Nunca escondi de ninguém que apenas gostei de “Batman Begins”, a empreitada anterior do diretor Christopher Nolan com o personagem. Não achei nada de “fantástico”, “espetacular”, “monumental”. É de fato um bom filme, um reboot adequado para a combalida franquia. Mas ainda faltava comer um bocado de arroz com feijão para ser comparado aos clássicos que o defensor de Gotham City tinha nos gibis, como “O Cavaleiro das Trevas”, “A Piada Mortal” ou mesmo “Batman: Ano Um”. Embora por motivos bem diferentes, acabei me sentindo muito mais tocado por “Superman Returns”, por exemplo.

Neste “Batman: O Cavaleiro das Trevas”, Nolan se desobriga do fardo das histórias de origem e aplica o seu conceito de “realidade” ao bat-universo de maneira muito mais profunda e, ao mesmo tempo, mais sutil. Ao invés de se focar em coisas como um bat-móvel que pudesse parecer crível, o diretor preferiu trazer o clima sombrio do mundo social e político pós-11 de setembro, cutucando na ferida dos heróis e vilões cuja face já não é facilmente reconhecível à primeira vista como em outros momentos. Como os leitores de HQs bem sabem, o Batman nunca foi exatamente um super-herói no sentido clássico. Trata-se de um homem perturbado, psicótico até, caminhando perigosamente na linha fina entre a justiça e o vigilantismo. E é aí que Nolan acerta ao trazer paralelos entre ele, o Coringa, o promotor Harvey Dent e o tenente de polícia James Gordon. Resultado? “Batman: O Cavaleiro das Trevas” é um dos melhores filmes sobre personagens de quadrinhos até o momento, equiparado, em termos de tratamento da mitologia, talvez apenas a “Homem-Aranha 2”.

O mais engraçado é perceber que, assim como nos filmes anteriores a “Batman Begins”, esta nova obra coloca o Cruzado Embuçado como o pano de fundo. Embora sua presença, direta ou indireta, possa ser sentida em todos os momentos do filme, ele não é nem de longe o personagem principal.

A história é especialmente sobre o Coringa, um anárquico agente do caos que surge do nada e transforma, de forma pervertida, a vida dos outros três homens ao seu redor. Ele não quer dinheiro ou poder. Tampouco quer matar o Batman – em quem ele enxerga uma espécie de complemento de sua própria personalidade. O que ele quer, de fato, é fazer um perturbado experimento social para provar que até o mais digno dos seres humanos pode ser quebrado e transformado em um louco sem controle. Para isso, ele vai levar Dent – que é a esperança de toda uma cidade, incluindo o próprio Batman, na luta pela limpeza das ruas – e também Gordon até o limite, nem que para isso precise jogar uns contra os outros, ameaçando todos os inocentes que se colocarem no caminho. Ou seja: “A Piada Mortal” na veia, em especial na deliciosa cena em que o Morcego interroga o Coringa na cadeia. Juro que, no final do filme, fiquei esperando que o Coringa contasse a piada da lanterna.

Sei que talvez corra o risco de parecer repetitivo, mas é impossível deixar de falar na vigorosa interpretação de Heath Ledger como o Palhaço do Crime. Enquanto muita gente torcia o nariz para a escolha daquele loirinho de “O Segredo de Brokeback Mountain” para o papel que outrora foi de Jack Nicholson, eu não tive muitas dúvidas sobre como ele entraria de cabeça na interpretação do arquiinimigo de Batman. Afinal, Hugh Jackman era apenas um ator de teatro com cara de bom moço e cabelinho de lado antes de provar que podia ser um bom Wolverine. Mas Ledger foi além, esfregando na cara dos xiitas um Coringa assustador, mordaz, visceral, incontrolável. Uma verdadeira força da natureza. Quando ele incendeia milhões de dólares da Máfia sem qualquer remorso, o vilão chega ao seu ápice de crueldade e sadismo. Substituí-lo para um possível retorno do Coringa vai ser uma tarefa duríssima.

Acertada também foi a escolha de Aaron Eckhart para viver Harvey Dent – um homem que, antes mesmo de ter o rosto desfigurado e tornar-se o Duas Caras, já dá provas de uma alma despedaçada e alquebrada. Michael Caine, Morgan Freeman e, é claro, Gary Oldman entregam as ótimas interpretações de costume, sem muito segredo. Jogo ganho.

Por falar em elenco, aliás, se “Batman: O Cavaleiro das Trevas” tem um defeito, ele ainda é a interpretação levemente equivocada de Christian Bale justamente quando Bruce Wayne usa o uniforme sombrio. Em “Batman Begins”, já me incomodava aquela voz forçada que ele empunha para diferenciar Bruce Wayne de seu alter-ego orelhudo. Em “Batman: O Cavaleiro das Trevas”, a voz está ainda mais forçada, sendo até alvo de piadas em diversos sites pela nerd-web. Quando Bruce Wayne tem que ser o playboy desvairado, ele teria que parecer levemente deslocado – porque ele fica realmente à vontade na vingativa pele uniformizada do Batman, que eu sempre considerei seu verdadeiro “eu”. Bale acaba se comportando ao contrário, mostrando total naturalidade como Bruce Wayne e uma pitada de desconforto como Batman. Talvez Nolan pudesse levar o sujeito para trocar uma palavrinha com o Alan Moore para aprender um pouco mais sobre o mais distinto cidadão de Gotham e seus hábitos noturnos.

...ou melhor, se ele preza pela integridade física de seu protagonista, talvez fosse interessante considerar o Grant Morrison. Deixemos o Alan Moore plantado em seu pub que é melhor.

PS: Frank Miller? Quem é esse cara mesmo?

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