15/12/2008

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Amanhecia em Paris.

Putz.

Mas que diacho de começo é este? "Amanhecia em Paris"? É uma espécie de conto romântico, sobre um quarentão cheio de problemas emocionais que se apaixona por uma jovem artista de seus 20 poucos anos e vive com ela um tórrido caso de amor entre champanhes e croissants? Definitivamente não. Ainda mais porque a Espanha seria um cenário muito mais interessante. Não por acaso você escolheu o nickname de "El Cid" para acompanhá-lo em sua jornada internética. Você não gosta de escrever este tipo de coisa "je t'aime, mon amour", nem tente ficar forçando a barra. Que inferno, esta foi mesmo uma péssima maneira de começar.

Pense, sujeito. Você gosta de coisas com humor, não? Você é daquele tipão todo extrovertido, o piadista da turma, coisa e tal, daquele tipo de leonino egocêntrico e apaixonante. "Charme" é o seu sobrenome. Poderia ser um astro da stand-up comedy, tipo um Seinfeld da vida. Dê uma piscadela para o espelho. Isso mesmo. Yeah, baby, you can do it. Então, comece falando de algo engraçado. Algo interessante, intrigante, empolgante. Que pegue o leitor de primeira e que o faça ir até o final com você, conduzido pela mão como uma criança. Você está no controle. O senhor das palavras. Ajeite os óculos. Coloque a cabeça para funcionar. Vejamos...e se fosse algo como:"Sabe, estava pensando em como as cadeiras dos aviões são desconfortáveis".

Jesus. Nem o Chris Rock teria sido tão ruim.

Se está tão difícil encontrar um ponto de partida, por que não apelar para a metalinguagem? Meio Charlie Kauffman. Naquele filme "Adaptação", uma história sobre as dificuldades de se criar uma história. Legal, legal.

- Não, cara. Esqueça esta opção. Até o Alan Moore já fez isso em "A Voz do Fogo". E o Mutarelli também, naquele "Jesus Kid". Expediente clichê pra dedéu.
- Hein? Quem está aí?
- Eu, ué.- Eu quem?
- Não tenho nome, na verdade. Mas sou este goblin dentuço e mal-encarado que você fica desenhando insistentemente na sua prancheta enquanto o professor está explicando coisas como desenvolvimento de personagens, melhor utilização de diálogos, uns trecos assim.
- Bem que o meu pai diz que esta história de parar de comer carne e ficar ouvindo heavy metal ia me deixar maluco...
- Pára com esta mis en cène. Coisa mais fresca. What a drama queen. Para um cara que até agora estava falando sozinho, conversar com um goblin imaginário não tem nada demais. Nem precisa de um nível alcoólico elevado, vá. E vamos combinar: você é o escritor e, portanto, o narrador deste conto. Não tem direito algum de ficar usando este travessão de personagem.

Verdade. Desculpe.

- Assim é melhor.

Mas me responda um negócio: o que você quer? Por que diabos vem me atormentar justamente quando estou tendo que criar um conto para a próxima aula? Já estou atrasado!

- Ai, meus sais. Homem, é você quem está escrevendo esta bagaça. É óbvio que você sabe o que eu quero! Até as minhas falas é você quem digita! Como não ter a menor noção do que eu anseio?
Você quer...ser o protagonista do meu conto?

- Menino esperto. Viu só como não foi difícil? Devo jogar um biscoito pra você?

Olha o respeito com o seu criador, mísero mortal. Nestas páginas, como você bem sabe, eu sou Deus.

- Mil perdões, meu amo e senhor. Mas este papo de "mísero mortal" foi mesmo de doer, hein?

Hein?

- Nada não. Estava falando sozinho. E aí, você topa a proposta? Aposto que a história ficaria muito mais legal comigo no papel principal do que esta bobagem toda que você fez até agora.

E o que o pequenino aí sugere? Vamos ouvir. Não vai doer nada mesmo.

- Uma coisa heróica, meio aventureira, para deixar o Tolkien no chinelo. "O pequeno goblin corria velozmente pela floresta, sendo seguido de perto pelos melhores homens da cavalaria do reino. Ninguém poderia passar impune pelo roubo do maior tesouro das cercanias. Eis que, súbito, ele encontra uma pequena toca aos pés da árvore mais frondosa - e se atira para dentro dela, a tempo de fugir de seus captores. Mas antes que pudesse respirar aliviado, nosso bravo guerreiro goblinóide se depara com um assustador par de olhos amarelos brilhando no escuro". E por aí vai. Bom, não é? E por favor, me descreva com olhos verdes profundos. Tipo aqueles do Fábio Assunção.

Esquece. Tenho minhas dúvidas de que qualquer um que não seja jogador de RPG saiba de fato o que é um goblin. Ainda mais um de olhos verdes.

- E existe o Google pra quê?

Não quero partir para o lado da fantasia, estava matutando uma coisa que fosse mais uma crônica urbana, compreende? Meio "Estranhos no Paraíso". Conhece?

- Só. Terry Moore é gênio.

Justamente. E nisso você não se encaixa. Embora deva admitir que você estava indo bem no tipo de narração que pretendia. "Cercanias" foi mesmo muito bonito, jargão arcaico e tudo.

- Modéstia à parte, melhor do que você com aquela masturbação intelectual de "Amanheceu em Paris".

É, aquilo foi mesmo esquisito. Mas poderia ser o bom início de um conto de espionagem, por exemplo, descrevendo como um personagem meio James Bond enxerga o horizonte da Cidade-Luz em um hotel chiquérrimo depois de uma merecida noite de sono - afinal, horas antes, ele tinha dado cabo de um exército inteiro de agentes russos. Viu só? Inventei tudo rapidinho. Tem potencial. Basta jogar uma femme fatale de olhar lânguido e tá tudo certo.

- Tá nada. "Agentes russos"? Troço mais demodê, cruz-credo. Deixa eu te contar uma coisa: a Guerra Fria já acabou. E faz bastante tempo, diferente do que possam sugerir os filmes do Chuck Norris ou os gibis do Capitão América. Jura? Mas que goblinzinho espertalhão, não é? Onde você aprendeu este sarcasmo todo?

- Com você, ó todo-poderoso senhor desta criação em papel. E tem mais: estamos neste "chove-não-molha" há um tempão e você não percebeu o mais importante.Que seria?

- Você já está se aproximando do que seria a reta final de um conto. Uns 4.000 ou 5.000 toques, mais ou menos. Aquele ponto no qual a trama teria que começar a fazer uma reviravolta que delinearia o encerramento triunfante e surpreendente da sua pequena história, fazendo que o leitor se apaixone pela sua modesta obra. Particularmente, acho que ainda está em tempo de buscar o resultado e colocar um certo goblin no comando da coisa toda. A galera vai adorar, tenha certeza.

Eu tenho uma idéia melhor. Que tal a gente encerrar com uma coisa do tipo...hum...veja bem..."e então, quando aquele par de olhos amarelos finalmente se revelou, o pequeno goblin percebeu que tinha caído na armadilha de um orc faminto, cujo rosto de feições medonhas podia vislumbrar em detalhes graças à luz pálida de uma vela. Sorrindo e mostrando uma bocarra de dentes enormes e pontiagudos, o orc se aproximava com seu corpo curvado e de dimensões titânicas praticamente tremendo de tanta excitação pelo momento que precedia a sua refeição - a primeira em muitos dias depois de uma dieta à base de frutas secas recolhidas na floresta. Uma risada diabólica preencheu as toscas paredes da toca, anunciando ao mundo o destino que esperava aquele goblin, outrora um bravo e destemido guerreiro, agora diminuído ao status de petisco".

- Errr...eu...bom...eu acho horrível. Uma apelação sem tamanho. Afe. Inclusive considero "bocarra" uma palavra sem qualquer graça literária. Jamais esperaria que você, logo você, fosse usar uma frase como "diminuído ao status de petisco". Tsc, tsc, que decepção. Camões deve estar se revirando no túmulo.

Suponho que seja melhor optar por um "fim" simples e lacônico?

- Se não tiver nenhum orc, é até melhor. Vai inflacionar o seu budget. Um "the end" como naqueles filmes clássicos da década de 50. Simples e efetivo, para arrancar lágrimas dos olhos.

Sei. Mas e aquele papo de "reviravolta que delinearia o encerramento triunfante e surpreendente da sua pequena história"? Talvez a participação de uma criatura fantástica como um orc pudesse dar ares épicos ao encerramento da minha obra. Imagine só aquela trilha sonora retumbante do Howard Shore. Peter Jackson morreria de inveja.

- Esquece isso, bobagem. Esta obrigatoriedade das reviravoltas finais só mostra a fraqueza dramática de uma trama dependente dos finais surpresa. Você não vê o Shyamalan? Não vai querer acabar como ele, que tristeza. Vamos com um "the end" e já está lindo. Eu até traduziria este texto para o inglês e enviaria para um destes agentes de celebridades hollywoodianas, pode render uma adaptação milionária, dirigida pelo Ron Howard e com produção executiva do Tom Hanks. Incrível. O Adam Sandler poderia interpretar você.

E quem interpretaria você, posso saber?

- O Fábio Assunção, é lógico. Excelente começo para a carreira internacional do sujeito.

Mas por onde andava mesmo aquele orc?


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* Nota Mental: O Fábio Assunção tem olhos azuis, e não verdes. Só para constar.

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