29/01/2009

.: CINEMA .: Reflexões sobre “Watchmen”

Nos últimos dias, andei relendo minhas velhas 12 edições de “Watchmen” para me preparar para o filme – tenho ido bem pouco ao cinema ultimamente, mas este eu garanto que vejo na tela grande. Nem que seja sozinho! :-)


Enfim: o fato é que acabei chegando a uma conclusão inabalável. Realmente acho que Mr. Snyder vai ser um filme sensacional. Bom, muito bom, bom mesmo, talvez até eleito como o “melhor do ano” nestas mesmas páginas em dezembro de 2009. Mais justo à obra de Alan Moore do que foram “A Liga Extraordinária” (Afe!) ou “V de Vingança” (Bacana, até. Mas é só), por exemplo. No entanto...desculpem-me aqueles que tiveram orgasmos múltiplos assistindo aos últimos vídeos, mas não acho que vai ser possível dizer que ele é tão bom quanto o gibi original. A comparação é inevitável, trata-se de uma adaptação, não me venham com churumelas. Com os olhos percorrendo novamente aquelas páginas e encontrando detalhes que eu ainda não tinha visto, muitos anos depois, tenho quase certeza de que a minha frase, ao sair do cinema, será: “Puta filme. Mas ainda falta muito para ser tão bom quanto o original”.

Parece coisa de purista. Talvez até seja mesmo, não nego. Mas, matem-me se quiserem, entendo bem o que Alan Moore diz quando afirma não querer saber do resultado das adaptações de suas obras para as telonas. Afinal, segundo ele, aquelas são histórias escritas tendo as potencialidades do meio “quadrinhos” em mente – e que estas características particulares podem se dissipar quase que completamente no cinema. O cara tá certo, rapá. E eu explico. Ou tento.

Na minha opinião, por mais que Frank Miller pense o contrário, Moore é o verdadeiro herdeiro da maestria da narrativa quadrinística de Will Eisner. Miller absorveu o que tinha de mais superficial nos trabalhos de Eisner, a influência do cinema, os enquadramentos de câmera, as brincadeiras com luz e sombra. Muito bonito de ser ver. Mas Alan Moore foi além. Ele entendeu que a Nona Arte permite um tipo de experimentação diferente das outras mídias. E “Watchmen” é a maior prova disso. A trama é tão sensacional não apenas, como dizem os críticos de opinião fácil, por fazer um retrato realista dos vigilantes uniformizados. “Watchmen” é incrível por ser, décadas depois, ainda tão atual. Neste mundo paranóico pós-11 de setembro, com a crise mundial batendo na porta, Moore desenhou um panorama tão vívido da sociedade norte-americana que ainda é tristemente real mesmo depois de Obama desalojar Bush da Casa Branca.
Mas tem mais: estão ali a metalinguagem dos “Contos do Cargueiro Negro”, a HQ dentro da HQ e cuja trama em absolutamente tudo a ver com toda a história contada ao seu redor. Cada trecho de livro e/ou documento fictício anexo aos capítulos complementa a história de maneira muito forte, dando ainda mais dimensão e tridimensionalidade aos personagens. Como o coitado do Snyder teria tempo, em um único filme de duas ou três horas, de apresentar Rorschach ou o Dr.Manhattan daquela forma tão vívida, tão orgânica? Não tem jeito. Vai acabar acontecendo de forma bem mais diluída. E nem é culpa do diretor, coitado. Ele está pegando o bonde andando (leia-se: personagens criados por outra pessoa) e vai fazer o melhor que pode.

Repito: não duvido do talento do Snyder. Além de “300”, ele fez “Madrugada dos Mortos”, que é uma película de zumbis que mereceria aplausos do mestre do gênero, George Romero. Por exemplo: a decisão de deixar a trama de “Watchmen” ambientada na década de 80 foi acertadíssima, digna de um sujeito com a cabeça no lugar, porque a ambientação é praticamente um personagem da história e ajuda muita coisa ali a fazer mais sentido. E se eu aceitei que o Sam Raimi tirasse os lançadores de teias do Homem-Aranha e os substituísse por lançadores orgânicos, posso aceitar qualquer alteração desde que faça sentido para que a história funcione melhor. Neste ponto, sou bastante flexível – sim, eu sei bem o que ele vai fazer com o final do filme e achei bem interessante e coerente, para não dizer corajoso.

Mas cinema é cinema. Cinema não é história em quadrinhos. E qualquer transferência de um lado para o outro causa perdas. É inevitável. O grande pulo do gato é que Snyder vai ter que rebolar para minimizar estas perdas – porque, diabos, em se tratando de algo tão fantástico quanto “Watchmen”, as perdas da transferência serão muitas.

2 comentários:

Anônimo disse...

bastante equilibrada a sua crônica. ou artigo. concordo em vários pontos, principalmente na diferença das mídias.

vou além e me considero purista, talvez xiita.

tou pensando seriamente em não ver o filme. comparação será inevitável, e não quero ficar com má impressão de watchmen.

a propósito, excelente comparação entre eisner, miller e moore.

Thiago Matos disse...

Ate hoje eu nao engoli o lance do Leonidas morrer corno.....