06/03/2009

.: QUADRINHOS .: Porcaria Suprema

O camarada trabalha feito um cavalo o mês inteiro para ganhar o seu suado e mirrado salário. Aí, vai até a banca para comprar aquele gibi que ele leva para casa todos os meses de sua vida, faça chuva ou faça sol. Imagine só o que não deve sentir o tal sujeito quando ele termina de ler sua revista em quadrinhos e tem a nítida sensação de que jogou o dinheiro fora – ou de que apenas a primeira das quatro ou cinco histórias vale mesmo a pena. Pois foi isso que senti quando gastei R$ 7,50 com “Marvel Millenium: Homem-Aranha nº 86”.

A tal primeira história que valeu cada centavo do meu dinheiro foi justamente a do Homem-Aranha Ultimate. Brian Michael Bendis continua genial ao contar, com leveza e naturalidade, uma história de heróis adolescentes sem máscaras e sem supervilões, com Peter Parker, Bobby Drake (Homem de Gelo) e Johnny Storm (Tocha Humana) na praia, falando bobagens de conteúdo pop e curtindo suas respectivas paqueras. Páginas que mereciam ter um picote para serem destacadas do restante da revista.

X-Men com o retorno do Sr.Sinistro e a aparição do Apocalipse? Blergh. Quarteto Fantástico desenhado por um clone do Michael Turner e numa trama forçada continuando a parada do Cubo Cósmico e marcando o retorno de Thanos? Argh. Mas nada podia ser pior do que a “sensacional” estréia do volume 3 dos Supremos, cortesia de Jeph Loeb e Joe Madureira. Não poderia ter uma equipe criativa menos adequada para substituir Millar e Hitch – que, com sua linguagem cinematográfica, profundidade de personagens e realismo quase fotográfico, não combina em nada com o refugo da Image anos 90 que Loeb e Madureira fazem.

O roteiro de Loeb não tem qualquer timing, tudo acontece sem qualquer sentido e de maneira corrida, apresentando situações como se fossem cenas separadas entre si. O Venom, que parece esquecer completamente a fantástica origem criada por Bendis em “Homem-Aranha” e trata o vilão como o estúpido babão da cronologia atual, aparece sem mais nem menos, quebra tudo na nova base dos Supremos (agora desvinculados da SHIELD) e vai embora. A Valquíria entrou na equipe, aliás, e ninguém ficou sabendo. E ela ainda se enrosca com o Thor, claro. Logo depois, como se nada tivesse acontecido, o Capitão América passa por um babacão de ombros largos ao repreender as roupas decotadas da Feiticeira Escarlate. Gavião Arqueiro, agora usando pistolas ao invés de arco e flecha, rosna como se fosse o Wolverine. Um dos Supremos morre. E acabou.

Isso sem contar o desenho do Madureira, do qual nunca gostei. Todos os personagens masculinos são musculosos demais, inchados demais, com a mesma cara de “mamãe, me perdi na década passada”. E as mulheres, sem exceção, são todas vagabundas bombadas prontas a se oferecer lascivamente ao primeiro imbecil de colante colorido. Quem foi que disse que o Gavião Arqueiro agora é o Grifter, dos WildCATS? E por que diabos os uniformes são iguais aos da cronologia normal? Não faz qualquer sentido! Tudo tem gosto e sensação de velho, de datado, de bobinho, de uma adolescência cheia da testosterona e sem qualquer cérebro, da qual não tenho nenhuma saudade. Chamem logo o Rob Liefeld para a zona ficar completa.

Dá vontade de dar fast-forward nesta fase e chegar logo ao futuro no qual Millar voltará a colocar suas mãos no título, numa boa.

Um comentário:

Silas Chosen disse...

No meio do ano passado eu tinha baixado duas edições dos supremos3, não tinha comentado com você? É quase o mesmo sentimento broxaleante que você tem ao passar de ALL STAR SUPERMAN para ALL STAR BATMAN. "Quem decidiu tentar canibalizar o meu cérebro?"

A mina que pega o Thor, usando gíriazinhas e achando seu Thorzão "gostosão", a morte do arqueiro como um personagem, A morte dos bons diálogos, da arte inovadora, a morte do roteiro bem feito...

É um monte de funeral atrás do outro.