28/07/2009

.: MONDO NERD .: Ser ou não ser nerd, eis a questão?

Há cerca de quatro ou cinco anos, quando ainda fazia parte da redação da finada AOL Brasil, conduzi uma reportagem cujo título era “Sou nerd e estou na moda”, sobre a onda do orgulho nerd que a gente já via, lá atrás, tomando conta da internet e também da cultura pop, com mais e mais nomes nacionais e internacionais “saindo do armário”. Hoje, com o chamado “Dia do Orgulho Nerd” já instaurado e comemorado oficialmente, se eu tivesse que fazer uma nova versão desta matéria, com certeza o título seria apenas ligeiramente diferente, mas de conteúdo totalmente diverso: “Ser nerd está na moda”.

Na verdade, este texto ganhou corpo depois que eu e os amigos do finado (será?) site A ARCA trocamos uma série de e-mails discutindo o artigo Eu nunca fui nerd, publicado pelo jornalista André Forastieri no seu blog (leia aqui). Mas juro que discorrer sobre isso já era uma idéia que me passava pela cabeça desde que vi, no Multishow, o ex-BBB Diego Alemão com uma camisa escrito “Nerd Pride” (juro!). Imediatamente pensei: “será que sair por aí dizendo que é nerd virou uma coisa chique? Será que todo mundo agora quer ser nerd só para ficar na crista da onda?” (ok, admito que usar a expressão “crista da onda” denuncia a minha idade).

Falando por mim, posso dizer que nerd é um termo divertido, que a gente usa há mais de uma década simplesmente porque diz respeito a uma referência pop, que nos é saudosa e familiar. Lembro até hoje que, quando eu tinha meus 11/12 anos e fazia aula de roteiro de HQ em uma associação de Santos, conheci um monte de fãs de quadrinhos, jogos de RPG, cinema e demais vertentes da cultura pop. Muitos deles são grandes amigos até hoje e inclusive foi daí que surgiu o principal núcleo d’A ARCA – nosso site de entretenimento que gerava conteúdo para a AOL e para o UOL, caso você não tenha idéia do que diabos estou falando. Naquela época, nos chamávamos de “nerds” justamente por causa do filme, porque éramos adolescentes de óculos e cheios de espinhas. Mas algum tempo depois, quando integrei a equipe editorial do Submarino, descobri, com uma amiga jornalista, que outros grupos com os mesmos interesses existiam em outras partes do país, mas usando outros nomes para se referirem a si mesmos, como era o caso dos “toscos” de Campinas. Podia ser cool, pop, tanto faz. Dava tudo no mesmo.

Quando, dos espólios da PQP (fenômeno de humor dos primórdios da internet, no qual tive orgulhosa participação), fundamos A ARCA, o espírito era esse mesmo. Usávamos o termo nerd porque era uma palavra de fácil associação, que já dava a entender imediatamente o tipo de conteúdo e/ou de pessoa ao qual nos referíamos. Ao lado dos amigos do Judão – que, na época, atendia pelo simpático nome de Cu do Judas – criamos uma campanha para que as pessoas deixassem de ter vergonha de dizer que eram fãs de gibis, animação, games. Em “Eu Sou Nerd, e Daí?”, nós dizíamos que ser nerd é uma coisa legal, que você podia ser fã destas e de muitas outras coisas sem precisar fingir, sem precisar esconder dos amigos “não-iniciados”. Isso era parte de cada um de nós, por que precisaríamos fugir da verdade? Era nosso jeito particular de dizer que não era preciso ser alto, loiro e forte para ser bacana – você pode ser feliz consigo mesmo sendo baixinho, magrelo e de óculos.

O caso é que eu acho que, nos últimos anos, começaram a entender este papo um pouco ao pé da letra demais, e compreendo que era exatamente disso que o Forastieri estava falando. O termo "nerd" virou modinha. Hoje, todo mundo acha descolado dizer que é nerd, colocar camiseta retrô de super-herói e sair dizendo que é vintage. Mas ser nerd apenas por ser é uma porcaria. De fato, ler só gibi e ver só os blockbusters ocasionais não faz de ninguém uma pessoa interessante. O exemplo do Forastieri para "A Liga Extraordinária" é lindo – ler a obra e regurgitar que ela é genial é muito fácil. Que tal ir mais além e tentar entender as referências literárias, conhecer os personagens citados pelo Alan Moore? Isso vale também para "Watchmen" e suas inúmeras referências políticas. Quer dizer que ser nerd é só gostar de cultura pop e esquecer do resto do mundo? Endeusar o Alan Moore e não entender que ele mesmo teve um universo de referências que vai muito além das HQs é de uma boçalidade sem tamanho. Se ser nerd virou sinônimo de ler apenas quadrinhos e não livros, de jogar apenas RPG e não futebol, de ir apenas ao Anime Friends e não a um barzinho com os amigos, é sinal de que tem algo bem errado nesta concepção.

O mesmo vale para a galera que ouve heavy metal mas não sabe quem é o tal do Wagner, da "Cavalgada das Valquírias" citada e reproduzida em sua música favorita do Blind Guardian ou do Grave Digger. Ou nunca ouviu nada de blues, o estilo dos negrões que influenciou Elvis, que por sua vez influenciou os branquelos, que influenciaram o Black Sabbath e o Led Zeppelin e por aí vai. Originalmente, ser nerd nunca significou estar ilhado do mundo no universo colorido da Comic Con. O amigo Leandro “Zarko” Fernandes tem uma frase ótima: "Todo mundo pode ser tudo ao mesmo tempo e ninguém precisa levantar bandeira de nada". Isso define tudo. Ser nerd não precisa ser algo excludente, assim como ser headbanger ou funkeiro. Posso ser fanático por animação japonesa, cinema pipoca e/ou quadrinhos de super-heróis. Mas deixar que minha vida se resuma a isso e que eu seja definido apenas e tão somente por isso é uma porcaria. Como disse outro grande amigo, Bruno “Benício” Fernandes, ser nerd virou uma tribo. E tribos são estereótipos. E estereótipos são perigosos.

O fato é que, nos dias de hoje, não só ficou fácil para que as pessoas usem estereótipos babacas para enquadrar aos outros - mas também ficou fácil para que as pessoas enquadrem a si mesmas em estereótipos babacas e reducionistas. Todos nós somos criaturas multifacetadas. Quando vou visitar os amigos em Santos, sentamos para conversar, claro, sobre nossas paixões. Sobre cinema, sobre quadrinhos, sobre animação. Mas o Bruno e o meu irmãozão Paulo “Fanboy” Martini podem bem atestar, apenas para usar um exemplo recente, que também podemos falar sobre a vida. Sentamos os três num banco da avenida da praia e ficamos falando sobre relacionamentos, sobre envelhecer, sobre a vida adulta. E foi ótimo, acho que o ponto alto da noite. Podemos ser nerds. Mas ninguém disse que nerds têm que ser aqueles moleques que dedicam a vida de maneira cega a alguma coisa. Esta nunca foi a nossa intenção. Se em algum momento demos esta impressão, preciso me desculpar e dizer que erramos no ponto. Talvez tenhamos nos colocado demais no papel dos garotos estudiosos que combatiam o preconceito dos Alfa-Betas.

Também concordo 100% com o Leandro quando ele diz que certos "nerds" se acham superiores aos outros só porque lêem quadrinhos ou manjam de cinema-pipoca. Catso, isso não nos faz melhores ou piores do que ninguém. Ok, é bem mais provável que a gente atraia pessoas com gostos similares aos nossos. Mas eu tenho amigos, e muitos, que não lêem quadrinhos, que não são fanáticos por cinema e nem fazem idéia do que é um RPG. E tenho certeza que todos vocês também têm. E daí? Vocês acham que não consigo passar uma noite divertida com estas pessoas? As piadas são outras, os papos são outros. Mas as risadas são as mesmas. Somos todos seres humanos.

Tenho um paralelo bem prático e fácil: fico bravo, do tipo pê da vida mesmo, quando ouço alguém dizer que sou "superior e mais evoluído" porque sou vegetariano. Não, não, não. Errado, errado, errado. Esta é uma escolha minha, só isso. Por meus motivos, minhas razões, que são filosóficas e um tantinho religiosas. É meu jeito de viver, só isso. É certo para mim, não precisa ser para os outros. Nunca quis impor isso a ninguém, não faço militância. E isso é apenas uma parte de mim. Sou nerd, sou vegetariano, sou fã de heavy metal. Mas também sou pai, sou marido, sou filho. Sou muitas coisas ao mesmo tempo, jamais limitado a apenas e tão somente uma delas. É isso que faz de cada pessoa uma pessoa especial e diferente, uma pessoa única. Eu sou nerd, vegetariano, fã de heavy metal, pai, marido, filho. E antes de tudo isso, sou o Thiago. E você?

9 comentários:

Silas Chosen disse...

Assinado Embaixo

Gê disse...

El Cid , sabe o que eu curti deveras no seu texto? o "sera"? Na parte que a Arca está finada.Planos para poder voltar com o site? diz que sim , Heinnnn.

kaickull disse...

Eu já coloquei na cabeça que rótulos só existem para que as pessoas sintam-se bem. "Puxa, aquele cara de óculos fundo de garrafa, canetas no bolso e que não fala com ninguém... Será que ele vai me morder? Oh, ele é um nerd? OK: Acho que posso viver com isso." Entendo quando o Thiago diz que "ficou legal ser nerd", já que isso sempre foi sinônimo de quem se dá melhor com máquinas do que com pessoas - até bolaram o rótulo 'geek' para esse outro tipo - e que gosta de gibis e quinquilharias relacionadas, mas acho que isso só ocorre porque hoje dependemos muito de computadores e é conveniente para as pessoas "normais" (ou, não "nerds", "geeks", o que seja) terem alguém assim por perto, de modo que seu cotidiano não fique comprometido. Da minha parte, não suporto a maioria das pessoas porque elas se apegam à esses rótulos como meros limitadores da personalidade alheia. "Oh, fulano usa óculos? OK, então ele é nerd e não se fala mais nisso." Digo isso pq já aconteceu comigo (como já deve ter ocorrido com outras pessoas que acessavam A ARCA algum tipo de incoveniência do tipo) situações constrangedoras relacionadas. Não importa. "Ser nerd" é uma escolha, mais do que uma limitação ou maldição. Já disse mais de uma vez que eu não sou nerd, porque rejeito rótulos de qualquer tipo. Só assumo que sou chato, porque sou mesmo. Mas também sou feliz em dizer que fiz todas as minhas escolhas até hoje e vivo bem com a maioria delas, e espero o mesmo de todos.

darthaule disse...

Parafraseando Wayne Campbell: "Excellent!". Parabéns pelo texto e parabéns atrasado pelo aniversário. :)

Netto Careca disse...

respondendo ultima frase:
- Eu sou o fernando... e não bebo a 30 minutos!.. =)

;....
engraçado que... essa semana mesmo comentei (alias, comento isso sempre)..
o fato de nerd virar modinha, tribo.. e ninguem dos q se dizem nerds só pra estarem no HYPE, sabem o que é ser nerd... sao estereotipos so para auto afirmacao..

e achei sensacional os fatos e comentarios.. referente 'a vida.. a ter amigos nao nerds e ainda ser divertido estar com eles...

tanto os que se acham,, quanto os que sao bitolados, devem abrir os olhos pra isso...

abraaaço ae cidão!

Carolina Moretti disse...

Morro de saudade da A Arca...da campanha do Sou nerd e dai...=/

Concordo com td que tu falou!Expressou muito bem a sensação que muita gente deve estar tendo nessa era de "modinha nerd"...

Um abraço!

Enrique disse...

Perfeito. =)

RicardoNerd disse...

Numca tive a oportunidade de conversar com um nerd do tipo bitolado ao extremo quanto aos seus hobbies(como citado no post) mas acredito que deve se frizar no que você mesmo disse:
"É meu jeito de viver, só isso. É certo para mim, não precisa ser para os outros."
...ou seja, se algum fanboy se acha fodão porque sabe o nome de todos os lanternas verdes, ótimo, temos um especialista no assunto.
porque eu sincerament tô de saco cheio de: falar sobre a vida cotidiana e das relações sociais, acredito que com você tenha sido o contrário.

Fi disse...

Quem sou eu? Um nerd vegetariano tb...

Mto bom o texto, acho que é exatamente isso.

Tudo o que vira moda começa a perder o sentido, mas eu acho que não adianta muito esquentar a cabeça com isso. As pessoas vão continuar tendo essa necessidade de rótulos, modas etc., e o negócio é ignorar. Hoje é com nerdice, amanhã vai ser com outra coisa e depois de amanhã com outra. E os autênticos nerds continuarão sendo autênticos nerds, não que isso seja alguma vantagem ou desvantagem :).