14/07/2009

.: QUADRINHOS .: Laerte é o cara!

Dos chamados Los Tres Amigos, tríade máxima de quadrinistas brasileiros, meu preferido sempre foi o Angeli, com seu sarcasmo cinza e casmurrice assumida. Personagens como o Bob Cuspe e Os Skrotinhos foram parte importante da minha formação como leitor de gibis, um tipo de leitor pré-adolescente e cheio de espinhas que aprendia que o mundo das HQs era muito mais do que apenas super-heróis, patos falantes e meninas baixinhas e dentuças.

Sinceramente, nunca fui lá muito com a lata do trabalho do Glauco, cujo Geraldão sempre me soou tosco não apenas no traço, mas no resultado final das piadas: era tudo menos sutileza e mais grosseria. Mas preciso confessar que, nos últimos anos, o paulistano Laerte Coutinho subiu tanto no meu conceito que, se não tomou o posto do Angeli, pelo menos está pau a pau. O cara refinou o seu estilo narrativo a um ponto que passou a flertar com o non-sense e com o poético, com o onírico, mergulhando de cabeça nas referências literárias e deixando parte de seus fãs confusa e outra parte maravilhada. Eu me incluo nesta segunda metade.


Dá muito prazer ver o que ele vem publicando em seu espaço diário de jornais como a "Folha de S.Paulo" (que merece parabéns pela coragem, aliás). É uma das partes mais mágicas e singelas do meu dia. Do crítico incendiário e esquerdista da época dos "Piratas do Tietê", ele foi tornando-se um observador delicado do cotidiano. No meu ponto de vista, tudo começou com o Homem-Catraca, um de seus personagens mais fantásticos - mais até do que o Overman, por mais que meus instintos marvetes relutem em admitir - e com uma abordagem inicial mais provocativa. A mudança já se fazia presente em sua obra, cada vez menos óbvia. Mas, com a morte de seu filho em um acidente de carro, Laerte se transformou de vez. A dor de uma tragédia tão repentina o fez passar por uma das mais significativas reviravoltas dos quadrinhos nacionais - quiçá até do mundo.

O Laerte de hoje em dia se diz em crise. Nós agradecemos. Ele está provocativo, intenso e cheio de significados ocultos em uma simplicidade que chega a chocar.

Alguns descrevem esta fase de Laerte como estranha. Eu a descrevo como especial e única.

Na comparação com a Santíssima Trindade dos quadrinhos gringos, Glauco sempre foi uma espécie de Frank Miller: pouco papo e muita ação, do tipo "vou esfregar isso na sua cara", splash page. Para o Angeli, ficou o papel de Alan Moore - mal-humorado, por vezes meio ignorante e genial. No caso do Laerte, a comparação com o Neil Gaiman de Sandman não poderia ser mais apropriada.

Uma amostra deste Laerte pode ser vista em Manual do Minotauro, blog mantido pelo autor e atualizado diariamente. Endereço imperdível: http://verbeat.org/blogs/manualdominotauro/

Recomendadíssimas as séries dos homens-palito (na tag "roteirista") e especialmente a do Pequeno Travesti. A primeira tira é de arrancar lágrimas dos olhos de qualquer marmanjo.

2 comentários:

Mitocôndrio disse...

Num entendo muito bem as coisas que o Laerte escreve hoje em dia. Mas eu até gosto e tals.

Vander disse...

Concordo. Laerte é o cara.