06/11/2009

.: CINEMA .: Distrito 9

Tá bom, juro que até entendo a frustração de algumas pessoas com Distrito 9, ficção científica produzida por Peter Jackson e dirigida pelo estreante Neill Blomkamp. O tom documental dos trailers e vídeos promocionais é usado apenas em parte da projeção - em especial na primeira meia-hora, que ajuda a apresentar o personagem principal e a estabelecer rapidamente todo o conceito por trás de uma comunidade de alienígenas que chega à Terra e acaba sendo segregada em um bairro-favela de de Johannesburgo, na África de Sul. Há, inclusive, quem reclame justamente do ritmo do filme, que seria acelerado demais. E existem aqueles que citam a injeção de ação e adrenalina nas sequências finais como um aspecto hollywoodiano demais.

Eu disse que entendo tudo isso. Mas não disse que concordo. Pra mim, "Distrito 9" entrou disparado entre os melhores filmes do ano, bem do ladinho de "Bastardos Inglórios". Como sou preguiçoso, fui até o meu post anterior sobre o filme e dei uma copiada/adaptada básica na descrição da trama, apenas para não deixar perdidos aqueles que chegaram agora:

"Na década de 90, os humanos recebem de braços abertos, sobre a cidade de Johannesburgo, na África de Sul (sim, os ETs não escolheram Nova York desta vez!), uma gigantesca espaçonave com uma população alien em busca de abrigo. Vinte anos depois, a situação mudou radicalmente. O campo no qual foram alocados, o chamado Distrito 9, transformou-se em um gueto militarizado e miserável, no qual estes seres são confinados e tratados com desprezo e preconceito. Em 2010, uma megacorporação armamentista tem seus próprios planos para as defesas dos extraterrestres, buscando construir armas com a tecnologia de fora do planeta. E quando Wikus van der Merwe (Sharlto Copley), agente no comando da operação, descubre a situação desumana na qual vivem estas criaturas, acaba colocando a si mesmo em risco ao executar um plano inesperado, envolvendo um misterioso vírus. A premissa do filme é toda baseada em "Alive in Joburg", um curta-metragem dirigido pelo próprio Blomkamp e lançado em 2005 e que fala sobre a interação social entre os aliens e os habitantes da capital sul-africana - onde o diretor passou a maior parte de sua infãncia durante o apartheid"

Já entendeu do que se trata, certo? Pois bem. O timing do filme pode parecer um tanto acelerado um alguns momentos? Vá lá. Mas não acho que seja o tipo de coisa que prejudica a história. Aliás, acho que tanto isso quanto a mistura entre as linguagens documental e cinematográfica padrão só ajudam a dar mais agilidade, deixando pequenos pedaços propositalmente sem explicação para que a imaginação do espectador trabalhe por si mesma. E quanto à ação no final, ela cai como uma luva para os fãs de ficção científica, que no fim das contas também gostam de sua parcela de bons efeitos especiais, representando uma subida visível na linha narrativa e sem se desviar em nenhum momento do propósito de provocar com uma metáfora, por vezes até pouco sutil, a respeito do preconceito. Quando um exoesqueleto mecânico aparece em cena, Michael Bay deve ter se agachado em posição fetal e chorado. Muito.

Sharlto Copley merece uma menção especial. O camarada, produtor do curta original e conhecido por ser um incansável fomentador do cinema independente no cenário sul-africano, está em seu primeiro papel no cinema (tudo que ele tem em "Alive in Joburg" é uma ponta). E está irrepreensível, adicionando as doses certas de emoção e carisma a um papel que não é nada fácil e que poderia cair tranquilamente no ridículo (dizer mais seria um baita spoiler). O que eu sei é que Sharlto deveria dar aulas de interpretação para Keanu Reeves e Vin Diesel - isso só para citar alguns dos intérpretes milionários que interpretam menos do que o meu dedão da mão esquerda.

O filme acerta também ao não generalizar no retrato dos alienígenas, cujos motivos da presença aqui na Terra nunca são revelados. A única coisa que fica clara é que não se trata de uma missão de conquista - pelo menos neste primeiro momento, tudo bem. Fruto de um trabalho fenomenal da equipe de efeitos visuais da WETA, eles podem ser tão bons quanto maus, assim como os seres humanos. Li em alguns fóruns alguns sujeitos dizendo "mas como estes aliens podiam ser subjugados pelos traficantes nigerianos se tinham armas tão potentes?". Senhores espertinhos, assistam ao filme de novo e prestem atenção na parte em que se explica que a casta de ETs que ficou por aqui é uma casta de operários, que só sabem seguir ordens e que estão perdidos como formigas sem sua rainha. Eles são, em sua maior parte, selvagens que jamais se organizariam para um levante, para tentar conquistar este planeta estranho. Tudo que eles são é um bando de criaturas que acabam enxotadas para um canto escuro e sujo, onde atrapalhem menos. Não te lembra nada? :-)

Falando nisso, "Distrito 9" deixa uma lição final: não temos que ter medo de uma invasão vinda de fora, de outras galáxias. Temos é que ter medo de nós mesmos. Porque bastou o ser humano se deparar com uma raça inteligente diferente da sua para demonstrar que consegue ser ainda mais visceralmente escroto do que a gente já sabia pelas manchetes dos jornais.

Distrito 9 (District 9)
Direção: Neill Blomkamp
Roteiro: Neill Blomkamp & Terri Tatchell
Elenco: Sharlto Copley, Jason Cope, Nathalie Boltt, John Sumner, Vanessa Haywood, William Allen Young, Nick Blake

2 comentários:

Silas Chosen disse...

(quem fez os efeitos do D9 foi a Industrial Light and Magic mesmo. A Weta estava a todo o vapor com O Hobbit e Lovely Bones)

Thiago "El Cid" Cardim disse...

Ué. A Weta aparece citada nos créditos finais como responsável pelos efeitos especiais. E o IMDB concorda comigo: http://www.imdb.com/company/co0076091/

Beijos do metal!