24/11/2009

.: QUADRINHOS .: Gibis com um olhar sobre o ser humano

Apesar de ser ávido leitor de gibis de super-heróis, preciso dizer que sou um apaixonado por histórias em quadrinhos. Ponto. Nunca deixei que qualquer Batman ou Homem-Aranha me impedisse de ler também outros gêneros – em especial aqueles mais adultos, urbanos e contemporâneos, que deixam de lado os fantasiados superpoderosos para falar de seres humanos comuns. E como observador da vida cotidiana e dos personagens típicos de uma grande cidade, não tinha ninguém melhor do que Will Eisner. Ganhei de presente de aniversário de casamento o encadernado Nova York – A Vida na Grande Cidade, que reúne quatro graphic novels do mestre da Nona Arte: “Nova York - A Grande Cidade”, “O Edifício”, “Caderno de Tipos Urbanos” e “Pessoas Invisíveis”.

Constantemente lembrado por seu genial trabalho com o detetive mascarado “The Spirit”, para mim Eisner sempre mostrou muito mais brilhantismo à medida que envelheceu, em sua fase pós-Segunda Guerra Mundial. Foi quando seu olhar se voltou para a vida própria que tinham as ruas e vielas de Nova York, metrópole pela qual sempre foi apaixonado. Seu traço, mais do que amadurecido, oferece diagramação até hoje inovadora e surpreendente, além de uma utilização brilhante de luz e sombra e expressões faciais que transmitem emoções absolutamente genuínas. Como se não bastasse, o encadernado traz uma série de histórias que permanecem atuais e que poderiam ser ambientadas em qualquer grande cidade do mundo.

Em “Nova York - A Grande Cidade”, Eisner mostra pequenas histórias ligadas a temas como metrôs, escadarias, janelas, paredes. Já “O Edifício” é quase uma fábula, que interliga quatro fantasmas a um único prédio antigo, demolido e transformado num moderno aglomerado de escritórios. Inédita por aqui, “Caderno de Tipos Urbanos” revela o próprio Eisner como personagem, fazendo anotações da correria cotidiana. E “Pessoas Invisíveis”, também nunca publicada no Brasil, mostra três brilhantes contos sobre moradores que são praticamente esquecidos em meio à multidão.

Em comum, as quatro obras aqui reunidas têm em comum o tema da solidão nos ambientes urbanos, das pessoas que vivem verdadeiras histórias épicas que nos passam completamente despercebidas entre arranha-céus monstruosos e todo o barulho de motores. Este olhar de Eisner é surpreendentemente delicado e ao mesmo tempo amargo e sofrido, com o qual eu e você podemos nos identificar facilmente. Pois é, Frank Miller. Por mais que você tenha criado “Sin City” para ser um sucessor direto de “The Spirit”, deveria ter entendido que isso não bastava para chamá-lo de herdeiro de Eisner, deste Eisner que entendia tão bem o coração humano. Se algum autor contemporâneo pode assumir este papel, este alguém é Craig Thompson, o norte-americano responsável pela pungente obra Retalhos. Totalmente autobiográfica, a história se passa sob o frio do Wisconsin, alternando lembranças da infância do autor, na qual dividia a cama (e as aventuras e desventuras) com o irmão mais novo, e de sua adolescência, quando conheceu a primeira namorada, Raina. A arte usa enquadramentos inusitados e uma linha narrativa gráfica que fariam Eisner ficar orgulhoso. Pura poesia visual.

Descobrindo seus dotes artísticos, Craig se via constantemente oprimido pela religião de seus pais, que lhe colocavam diante de um Deus rancoroso e opressivo, sempre com a ameaça do inferno ao seu redor. De maneira intimista e sutil, ele tenta exorcizar os fantasmas de um passado repleto daqueles pequenos abusos e crueldades que papais e mamães imaginam que são pouca coisa se comparados aos seus dias de trabalhado suado – mas que deixam marcas para sempre na cabeça dos pequeninos. É quando Craig passa a questionar seu futuro, sua coragem, seus sentimentos, sua vocação. Em um dado momento, depois que ele e Raina consumam o amor e depois tentam descobrir como se relacionar à distância, o escritor mostra um brilhantismo tamanho que faria Miller esconder a cabeça como um avestruz envergonhado. A última conversa dos dois ao telefone chega a trazer lágrimas aos olhos de tão real.


Uma boa dose de realidade também é o que você obtém ao ler Persépolis, da iraniana Marjane Satrapi. Já transformada em uma cultuada animação, a obra completa só caiu agora nas minhas mãos, depois de ouvir uma série de comentários positivos de amigos e especialistas em HQs – mas não deixou de ter o impacto de uma bomba atômica. Com uma arte simplória em P&B, de traços toscos e quase infantis (lembrando, como bem salientou Eduardo Nasi, os cordéis nordestinos), Marjane revela como foi a sua infância em meio à revolução islâmica do Irã. Filha de pais abastados e politizados, que não concordam com o autoritarismo religioso que se impõe no país. Não deixa de ser impactante ver como foi que uma garota aparentemente comum fez suas descobertas – drogas, bebida, sexo – de maneira absolutamente diferente numa sociedade muçulmana.

Comportando-se de maneira subversiva, Marjane acabou indo estudar na Europa, onde se deparou com as inúmeras diferenças culturais e viveu com uma série de conflitos internos entre a sua visão de Deus (assim como Craig Thompson em “Retalhos”, vale lembrar) e todas as tentações de um universo radicalmente diferente de música, bebidas e relacionamentos livres. Acabou transformando-se num monstro, irreconhecível e vergonhosa para si mesma – e teve que retornar ao Irã, onde enfim descobriu quem era de verdade. Marjane , Craig e todos os personagens de Eisner são pessoas de verdade. Podem não usar uniformes multicoloridos. Mas travam batalhas dignas dos maiores heróis. Para eles, qualquer “Crise Infinita” ou “Invasão Secreta” é fichinha.


Nova York – A Vida na Grande Cidade
Roteiro e Arte: Will Eisner
Número de páginas: 440
Editora: Quadrinhos na Cia.

Retalhos
Roteiro e Arte: Craig Thompson
Número de páginas: 592
Editora: Quadrinhos na Cia.

Persépolis
Roteiro e Arte: Marjane Satrapi
Número de páginas: 352
Editora: Companhia das Letras

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