08/12/2009

.: QUADRINHOS .: Batman: Cacofonia

De todos os personagens de quadrinhos de heróis, talvez o Batman seja aquele que mais sofre nas mãos de roteiristas medíocres. Em sua série regular, são raras as vezes em que ele acaba nas mãos de um escritor de responsa, fazendo com que as histórias sejam em grande parte sofríveis. Mas quando, em edições especiais, o Homem-Morcego cai nas mãos de autores como Alan Moore, Grant Morrison ou, em sua fase pré-estrela de Hollywood, Frank Miller, não há quem segure. Pois e não é que o cineasta e nerdmaster Kevin Smith acaba de entrar para este seleto rol com a ótima série “Batman: Cacofonia” – que, aqui no Brasil, foi lançada pela Panini Comics em edição única e fechada, para o alívio dos nossos bolsos?


“Batman: Cacofonia” é uma história violenta, sombria e muito intensa, do tipo que os bat-maníacos adoram. A arte, bem competente, fica a cargo de Walter Flanagan – um dos melhores amigos de Smith e que, além de fazer diversas aparições especiais na filmografia do diretor, é constantemente citado em suas obras, no cinema ou nas HQs. Os fãs, aliás, devem se lembrar de seu papel recorrente como Walt Grover, o Fanboy.

No entanto, o que é mais interessante em “Batman: Cacofonia” é mesmo o texto direto e reto de Kevin Smith, com os já conhecidos diálogos verborrágicos que o caracterizam. A sua representação do Coringa é mais do que insana: é quase pornográfica (“eu costumo ser o ativo”, repare bem nesta conversa surreal), repleta de palavrões e com um gosto por sangue que não perdoa nem uma escola repleta de inocentes crianças.

Tudo começa assim: quando o Pistoleiro é contratado para matar o Palhaço do Crime, invade o Asilo Arkham com a intenção de meter uma bala em sua cabeça. Mas acaba abrindo espaço para que um misterioso sujeitinho chamado Onomatopeia, com uma estranha tara por efeitos sonoros, entre na roda com seus próprios planos para o Coringa. O mascarado sonoplasta, criação de Smith durante sua passagem no título do “Arqueiro Verde”, é bacaninha mas pouco acaba importando no frigir dos ovos. Nada continua sendo revelado a respeito dele, a não ser sua obsessão por caçar vigilantes uniformizados que não têm poderes – e dos quais Batman é o representante máximo, é bom recordar.

Fora do Asilo, o Coringa quer vingança de um gângster chamado Maxie Zeus, que transformou o seu gás do riso em uma droga que se tornou a grande mania das baladas de Gotham. “Agora temos um império”, diz Zeus. “E metade dele é seu”. Mas o Coringa não se importa. “Eu não quero um império, meu chapa. Nunca quis. Tudo que sempre quis é me divertir”, explica. A guerra está declarada.

A relação entre o Batman e seu principal antagonista é, assim como em “A Piada Mortal”, dissecada de maneira inteligente e ao mesmo tempo assustadora. Um momento crucial no telhado do distrito policial envolvendo os dois e ainda o Comissário Gordon dá uma dimensão não só do que existe entre eles mas também dos limites da missão de Bruce Wayne nas noites de Gotham City. E um diálogo entre Batman e Coringa no hospital chega a ser do tipo memorável, começando com o Morcego fazendo a seguinte pergunta: “Você quer realmente me matar?”. A resposta do vilão risonho é chocante.

Destaque ainda para esta ótima definição sobre a psiquê do Coringa: “Imagine-se tentando resolver a equação matemática mais complexa do mundo rodeado por meia dúzia de tevês a um palco da sua cara. Cada uma sintonizada em uma estação diferente e trocando de canal freneticamente e ainda com o volume no máximo. Assim é ser o Coringa”. Uau.

BATMAN : CACOFONIA
Editora: Panini Comics
Roteiro: Kevin Smith
Desenhos: Walt Flanagan
Número de páginas: 96
Preço: R$ 7,50

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