08/12/2009

.: TELEVISÃO .: Heroes – 3ª Temporada

“Por que diabos você ainda insiste em ver este lixo?”, foi a frase mais educada que ouvi de amigos nerds quando disse que estava terminando de ver a terceira temporada de “Heroes”. Ora, ora. Eu sei que a segunda temporada foi beeeeeeem meia-boca. Mas gostei tanto do plantel de personagens e do desenvolvimento da temporada inaugural (que, vale lembrar, também não é lá uma unanimidade entre os fãs) que resolvi dar mais uma chance, continuar doando minha audiência à criação de Tim Kring. Só para ver onde ia dar. E gostei de ver o caminho pelo qual ele optou na segunda metade desta temporada de número 3, por mais que o roteiro ainda tenha lá seus probleminhas de timing.

Sim, sim, eu quis dizer na “segunda metade” mesmo. Porque esta terceira temporada é, efetivamente, dividida em dois volumes. O primeiro deles, “Villains”, cheira bem mal. É do tipo que me faria desistir de ver o restante do programa, caso eu não fosse um sujeitinho bem persistente. O pai de Nathan e Peter Petrelli (este último, cada vez mais chato e perdendo cada vez mais o posto de protagonista) retorna das cinzas para executar um plano bizarro de criar uma fórmula sintética que poderia dar poderes a quem bem entendesse. As idas e vindas são tão rocambolescas e o paizão dos Petrelli é tão forçado que você chega a ficar constrangido em certas ocasiões, por mais que criar uma espécie de equipe de poderosos malvados fosse uma solução interessante. Uma irmã gêmea para Nikki? Que coisa mais nas coxas, parece folhetim global!!!!! Sylar seria irmão de Peter e Nathan? Quem diabos engoliria isso? E quem foi o imbecil que resolveu transformar o Dr.Mohinder numa aranha humana?

Um grande acerto de “Villains”? O divertido primeiro encontro entre a cheerleader Claire e o über-geek Hiro, os dois personagens mais representativos da série, correndo em direção ao passado para salvar o futuro e sem conseguir entender patavinas do que o outro diz. De resto, mais de 99% destes primeiro episódios parecem saídos de gibis ruins da Image em seu auge macabro da década de 90.

A segunda metade desta temporada chama-se “Fugitives” e consegue melhorar bastante. Aqui, vemos o senador Nathan Petrelli revoltado com o mundo, incorporando um certo Senador Kelly e iniciando uma caçada a todos que têm superpoderes. A comparação com Kelly faz todo o sentido, porque a série ganha um clima de X-Men na época dos Sentinelas, com traições, conspirações e fugas espetaculares. E tudo isso dando uma boa pisada no freio, desenvolvendo sub-tramas de maneira mais calma e sem a necessidade de ter que mostrar o elenco inteiro em um único episódio.

No final das contas, “Fugitives” faz a terceira temporada valer a pena, apesar de alguns pequenos tropeços. É necessário dizer, no entanto, que Kring acertou bem a mão em dois aspectos pivotais – e que podem fazer o negócio ganhar novo fôlego daqui pra frente caso ele saiba como conduzir as rédeas. O primeiro acerto é com relação ao Sylar. O grande vilão transforma-se em uma ameaça muito maior e mais cheia de dimensões do que foi na primeira temporada. Enquanto, no começo, Sylar era apenas um sujeito egocêntrico em busca de poder e que poderia destruir o mundo, aqui ele torna o vilão que pode dominar o mundo – o que, em se tratando de super-heróis, é sempre muito mais legal. Confuso e procurando por seu verdadeiro eu, ele vai ganhando contornos mais definidos, chegando a um clímax que eu, pelo menos, não podia esperar, daquele tipo que me deixou empolgado para ver o que acontece a seguir. Sempre acabo torcendo pelos vilões em algum momento. Mas só nesta terceira temporada é que me tornei fã do Sylar, desejando bem no fundo que ele conseguisse vencer (leia-se "trucidar") os malas do clã Petrelli.

O outro acerto é aproximar “Heroes” da figura do nerd, o que parece um contrasenso que até agora não tenha acontecido. Hiro e o amigo Ando passam a disparar muito mais referências pop do que até então, falando o tempo todo de quadrinhos (com destaque para um delicioso papo sobre Superman e Batman, já nos episódios finais) e “Jornada nas Estrelas”. Os atores Seth Green e Breckin Meyer dão as caras como uma dupla de fanboys que, em plena loja de gibis, ajudam a resolver um problemaço usando a santa sabedoria das HQs. E o primeiro amorzinho teen da vida de Claire acaba sendo, vejam só, o balconista de uma loja de gibis. Seria este um efeito “The Big Bang Theory” sobre “Heroes”? Se for, que seja muito bem-vindo – porque, vamos combinar: uma série sobre super-heróis que não privilegia o seu principal público consumidor só poderia estar fazendo algo de muito errado, não?

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