20/02/2010

.: QUADRINHOS .: Assunto de Família

Quando conversava com o amigo Emílio "Elfo" Baraçal a respeito de uma possível parceria em roteiros de quadrinhos nacionais, muito antes do projeto Zap HQ sonhar em existir, cheguei à conclusão que gosto mesmo de escrever aquele tipo de assunto que, afinal, mais gosto de ler. Ou seja, não ia conseguir ajudar muito no que ele queria fazer.

Sou leitor ávido de super-heróis, tudo bem. Mas aquele do qual mais gosto, o Homem-Aranha, é emblemático do tipo de história que me cativa de fato: tramas sobre pessoas comuns, sobre o Peter Parker por baixo da máscara, sobre o dia a dia que não é nada heróico. E não há dúvida de que, para falar sobre tudo que se esconde no universo aparentemente tedioso dos seres humanos normais em sua ambientação urbana e cotidiana, Will Eisner é o mestre. Um dos poucos gibis desta época pós-Spirit que ainda não tinham sido publicados por aqui, "Assunto de Família", agora está disponível nas bancas e lojas especializadas brasileiras. E é preciso dizer que a marca do escritor e desenhista está visivelmente exposta nesta história. É Eisner em seu melhor.

O traço do finado Eisner, com aquela divina utilização de luz e sombra e expressões faciais que dizem absolutamente tudo, continua afiado nesta páginas. Mas está tratado de maneira simples, sutil, sem grandes e impressionantes enquadramentos. Não é a arte em sépia que chama a atenção em "Assunto de Família", e sim o roteiro. Já diz a introdução da obra: "Famílias são fisicamente indistinguíveis umas das outras. Elas não usam insígnias. Elas são, afinal de contas, unidades tribais cujos membros estão lá graças a um evento biológico. E elas são unidas por um núcleo magnético que, às vezes, não parece ser nem amor e nem lealdade". Num período de 24 horas, o autor expõe as feridas abertas de uma família que se reúne para comemorar o aniversário do pai idoso, preso a uma cadeira de rodas sem poder se mover ou falar. Ficam claros as mesquinharias, a ganância, os pequenos segredinhos, as fragilidades. Os flashbacks, integrados à trama como borrões no decorrer da página, não deixam que se sinta pena de ninguéme ajudam a aliviar a sensação de que a história está correndo mais do que deveria. Mas, mais chocante do que os podres de cada membro deste núcleo familiar, é o final que Eisner preparou, deixando o leitor de queixo caído. Eu, pelo menos, fiquei.

O material de divulgação de "Assunto de Família" diz que esta é "uma família que poderia viver na casa ao lado - ou, até mesmo, ser a sua própria família". Ao final do gibi, você passa a ter absoluta certeza disso. E é melhor estar preparado. Porque o baque desta descoberta é grande. Aproveitando o momento CTRL + C, CTRL + V, vale ressaltar a frase de Alan Moore, destaque na quarta capa do livro: "Não existe ninguém igual a Will Eisner. Nunca existiu, e eu, em meus dias mais pessimistas, duvido muito que venha a existir". Concordo. Mesmo em seus momentos menos inspirados, o careca já era impressionante, acima da média. Em momentos de pura iluminação como este, quando atua em sua área de maior força, dizer que ele esbanja talento é pouco. Eisner simplesmente transcende o conceito do que é ser gênio. Mais uma vez, os fãs das boas histórias em quadrinhos sentem saudades.

ASSUNTO DE FAMÍLIA
Argumento e Desenho: Will Eisner
Ano: 1998
Editora: Devir
Número de páginas: 80
Preço: R$ 23

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