12/03/2010

.: QUADRINHOS .: Glauco

Não posso ser hipócrita: do famoso grupo de cartunistas apelidado de Los Três Amigos, o Glauco era aquele do qual eu menos gostava. Não era o traço tosco e chapado, sua marca registrada, que me incomodava, longe disso, mas sim aquela obviedade do humor tipicamente Geraldão que me cansava. Ou, pelo menos, me cansou logo. Sempre fui apaixonado pelos Skrotinhos e pelo Bob Cuspe do Angeli. Mas já falei por aqui que, passados alguns anos, passei a gostar muito mais do Laerte - desde o Overman até o Homem-Catraca, até chegar nesta filosófica fase que dividiu os fãs do trabalho do cara. Enfim. O assunto não é este.

Agora, sabe o que é engraçado?

Esta notícia da morte do Glauco, chocante, surreal, me bateu forte. Porque eu já tinha ouvido tanta gente do meio falando sobre o quanto ele era simpático, bem-humorado, da paz. Recebia todo mundo com um sorriso. Amigos meus que o conheceram e trabalharam com ele, sempre se derretendo em elogios. Mas, mais do que isso, a notícia me bateu forte porque ele foi uma influência fortíssima na minha adolescência. Por mais que eu sempre tenha gostado mais do Angeli e do Laerte. Não é estranho pensar assim? Mas é verdade.

Meus amigos mais próximos sabem bem que, quando estou inspirado, aquelas piadas sexuais típicas de conversas de rapazes que saio disparando remetem diretamente ao politicamente incorreto nu e cru do Geraldão, da Dona Marta. Tá bom, nunca tentei encoxar minha mãe no tanque, Deus me livre, bate na madeira. Mas creio que os colegas d'A ARCA podem atestar o quão escroto eu consigo ser. E devo dizer que isso é influência direta do Geraldão. O Adão disse nesta sexta (12), sobre o Glauco: "Uma das características mais engraçadas dele é você via que ele tinha uma coisa de criança, um jeito de ser de criança, de moleque, era muito engraçado, o rei de falar merda". Pois é. No fim das contas, quando os nerds se juntam para falar bobagens, as piadas mais escrotas ficam sob minha responsabilidade, Geraldão-style. Sou o cara que fala as merdas, que se há de fazer?

Lembro também que, quando eu ainda insistia em ser desenhista de gibis, adivinha de quem era o traço que eu copiava quando resolvia fazer humor? Bingo. Fazendo coisas de super-heróis, eu emulava o Erik Larsen enquanto todos os meus amigos queriam ser o Jim Lee ou aquele mala do Madureira. Tentava trabalhar alguma coisa cômica e, depois de fazer algumas tentativas de ser um pouco de Angeli, um tanto de Laerte, caía invariavelmente naqueles traços simples, sem grande necessidade de requinte, que o Glauco fazia em minutos. Até hoje, nem preciso pensar muito para desenhar o Geraldão de uma vez só, pá-pum. Já saiu até num bloquinho de anotações durante uma reunião.

Porra. No fim das contas, eu também tenho meu lado tosco. Também tenho meu lado escroto. Também tenho meu lado Geraldão. Acho que você também tem, menino ou menina. Porque, para ser Angeli, para ser Laerte, você também tem que ser um pouco Glauco.

Glauco Villas Boas, 53 anos.
Nascido em Jandaia do Sul, interior do Paraná.
Criador de personagens como Geraldão, Dona Marta, Zé do Apocalipse, Doy Jorge, Cacique Jaraguá, Nojinsk, Ficadinha, Netão e Edmar Bregman.
Descanse em paz.

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