25/05/2010

.: CINEMA .: DVD .: A difícil arte de amadurecer...

Kevin Smith é daqueles cineastas que acabaram sendo estigmatizados com um estereótipo e simplesmente não conseguem se livrar dele. Tudo bem, Smith é nerd até a última gota, cineasta que realizou o sonho de ser escritor de quadrinhos e que coloca referências aos seus personagens e filmes favoritos em cada frame de suas produções. É dele “Barrados no Shopping”, um dos filmes mais nerds das últimas décadas, mostrando uma roupagem ainda mais pop e contemporânea daqueles fracassados de “A Vingança dos Nerds”.

Mas preciso dizer: a principal força de uma obra como “Procura-se Amy” não está no fato de que os personagens de Ben Affleck e Jason Lee são escritores de gibis ou mesmo nas clássicas piadas sexuais de Jay & Silent Bob. A força de “Procura-se Amy”, um dos filmes mais delicados e representativos de sua filmografia, está na sutileza com que trata os relacionamentos e as pirações de homens e mulheres que não conseguem lidar com os próprios sentimentos sem superar o que aconteceu no passado das pessoas que amam. E daí que “Menina dos Olhos” é um clichê açucarado? Grande coisa. O jeitinho com o qual é tratado o amor deste pai por sua filha tem um quê de autobiográfico que me faz chorar até hoje, não nego.

Assim sendo, nada mais do que acertada a escolha de Smith em retomar os mesmos personagens de “O Balconista”, seu filme de estréia, na recente continuação “O Balconista 2”, que finalmente consegui assistir dia destes. Dante Hicks e Randal Graves continuam sendo amigos depois de 10 anos. Antes eles enchiam o saco dos clientes do Quick Stop enquanto discutiam teorias absurdas sobre quem teria construído a Estrela da Morte em “Star Wars” e jogavam hóquei no telhado da loja. Mas o Quick Stop pegou fogo. E agora ambos, próximos dos 30 anos, continuam sendo balconistas, mas agora de uma lanchonete fast food.
É claro que o nerd em mim quase caiu da cadeira de tanto rir ao ver Randal discutindo com um cliente qual das trilogias era melhor: “Star Wars” ou “Senhor dos Anéis”. É óbvio que as piadas de Jay continuam beirando o escroto e continuam sendo impagáveis. Mas o segredo de “O Balconista 2” não está aí. Está é na ótima representação de dois trintões viciados em cultura pop que se vêem obrigados a encarar, de uma vez por todas, o inevitável amadurecimento. E a discussão de como isso deve acontecer. Para eu ser considerado adulto, eu preciso ser como todo mundo, constituir família, assumir um emprego daqueles que se costuma chamar de “gente grande”? Ou posso ser simplesmente eu mesmo? A resposta pode parecer óbvia e imediata. Mas definitivamente não é assim tão simples..

No fim das contas, em “O Balconista 2”, Randal e Dante são um pouco Kevin Smith. Mas também são um pouco cada um de nós, camaradas que cruzaram a fronteira dos trinta anos e continuam gostando de gibis, desenhos animados, cinema pop. Isso é coisa de moleque? Ou é possível ser adulto e continuar travando acaloradas discussões com os amigos sobre qual equipe é melhor, os Vingadores ou a Liga da Justiça? É possível conciliar o dia a dia das contas a pagar com as nossas deliciosas bobagens adolescentes de música, games e aventuras de super-heróis? Você responde. O fato é que o filme é bem melhor do que eu esperava que fosse.

Outro filme representativamente nerd que vi esta semana trata mais ou menos do mesmo tema: “Ghost World”. Trata-se da adaptação cinematográfica de uma HQ independente de Daniel Clowes. Na trama, a dupla Enid (Thora Birch) e Rebecca (Scarlett Johansson) acaba de se formar na escola. É o fim do martírio. Mas embora pareça que estas duas outsiders com uma preferência particular pelo humor negro vão continuar sendo amigas para sempre, cada vez mais seus caminhos divergem. Rebecca arruma um emprego e começa a pensar em morar sozinha. Mas Enid resiste a tudo isso.
Com seu visual mezzo punk mezzo arte pop, ela deixa estas preocupações de lado e prefere se focar em sua observação cínica do mundo, devidamente registrada em um caderno de desenhos. Não quer nem pensar em faculdade, acha todos os empregos entediantes e pouco desafiadores. Mas ao mesmo tempo começa a se sentir descolada do mundo, cada vez mais distante das “pessoas normais” – incluindo aí sua família e sua outrora melhor amiga. No fim das contas, é aquele velho tema do adolescente que se recusa a crescer. Se Enid fosse para Nova Jersey, muito possivelmente passaria a freqüentar a mesma rodinha de amigos do View Askew Universe de Kevin Smith, comprando maconha de Silent Bob e comendo sanduíche na loja de Randal e Dante.

Crescer é sempre uma jornada complicada. Mas começo a perceber, mediante a observação de pessoas ao meu redor, que para os nerds o processo é particularmente doloroso.

O Balconista 2 (Clerks II, 2006)
Diretor: Kevin Smith
Elenco: Brian O'Halloran, Jeff Anderson, Jason Mewes, Rosario Dawson, Jennifer Schwalbach Smith, Jason Lee, Ben Affleck

Ghost World (Idem, 2001)
Diretor: Terry Zwigoff
Elenco: Thora Birch, Scarlett Johansson, Steve Buscemi, Brad Renfro

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