19/05/2010

.: MONDO NERD .: Cultura Pop para Adultos?

Sabe, tem uma hora na vida em que a gente tem que crescer. Heavy metal é música que a gente ouve quando é adolescente, né? Cabeludo e com a cara cheia de espinhas. Quem realmente curte rock ‘n roll acaba migrando inevitavelmente para um rock mais alternativo, mais experimental. Uma coisa mais indie, sabe? Chega de guitarras aceleradas e cabeludos batendo cabeça ao som do cântico de batalha dos vikings. Se você não passou por esta migração, desculpe: é sinal de que você não cresceu.

Sabe, tem uma hora na vida em que a gente tem que crescer. Gibis de super-heróis são coisas que a gente lê quando é adolescente, né? Com uma camiseta do Batman e a cara cheia de espinhas. Quem realmente curte histórias em quadrinhos acaba migrando inevitavelmente para histórias mais alternativas, mais experimentais. Uma coisa mais européia, sabe? Chega de defensores da justiça fortões em malhas multicoloridas e apertadinhas. Se você não passou por esta migração, desculpe: é sinal de que você não cresceu.

Sabe, tem uma hora na vida em que a gente tem que crescer. Filmes pipoca são coisas que você assiste quando é adolescente, né? Com um baldão cheio de pipoca e a cara cheia de espinhas. Quem realmente curte cinema migrando inevitavelmente para filmes mais alternativos, mais experimentais. Uma coisa mais cabeça, sabe? Chega de efeitos especiais, explosões, tiroteios sem sentido nenhum. Se você não passou por esta migração, desculpe: é sinal de que você não cresceu.

Na boa? Mas que baita história pra boi dormir.

O imortal colunista d’A ARCA, Tutu Figurinhas, já tinha escrito sobre como a própria imprensa tenta nos convencer a respeito de uma tal “imparcialidade” da cobertura cultural que, no frigir dos ovos, é puro papo furado. Pois é. O mesmo vale para este discurso de que, se você agora é adulto e quer ter ouvidos apurados, não pode mais ouvir Iron Maiden e tem que começar a ouvir Radiohead. De que se você quer se desenvolver como leitor, precisa parar de ler X-Men e se dedicar ao Moebius. De que se quer realmente chamado de cinéfilo, é melhor esquecer Spielberg e entrar de cabeça do Godard e no Truffaut. Conversa mole.

Uma das matérias das quais me orgulhei de ter escrito para o Whiplash, que pelo menos teoricamente é um site quase que 100% freqüentado por headbangers, foi justamente “Quem ouve heavy metal ouve apenas heavy metal?” (leia aqui). O texto é, na verdade, uma compilação de mini-entrevistas que fiz com alguns dos maiores nomes do metal brasileiro (e até alguns gringos) na qual basicamente questionei que outro tipo de música, fora deste contexto pesado, os caras mais gostavam. E as respostas são simplesmente surpreendentes para quem insiste em cultivar o estereótipo babaca do cabeludo desmiolado. Quem ouve metal também ouve blues, jazz, samba, MPB, rap, reggae, world music, música eletrônica e até música pop, olha só.


Da mesma forma, o inverso é verdadeiro. O que impede um cara que escuta indie rock de se pegar escutando Metallica, Megadeth, Sepultura, AC/DC ou Motörhead? São músicas diferentes para momentos diferentes. Uma coisa não precisa necessariamente anular a outra.

Jamais deixe algum pentelho metido a intelectual te convencer que ler Vertigo quer dizer que você precisa abandonar o Homem-Aranha.

Jamais deixe algum pentelho metido a intelectual te convencer que assistir “Soul Kitchen” quer dizer que você precisa abandonar o “Homem de Ferro 2”.

Jamais deixe algum pentelho metido a intelectual te convencer que ouvir White Stripes quer dizer que você precisa abandonar o Helloween.

Eu continuo ouvindo heavy metal. E isso nunca me impediu de ouvir The Killers, Muse, Bat for Lashes, Amy Winehouse ou, sei lá, Lady Gaga.

Eu continuo lendo gibis de super-heróis. E isso nunca me impediu de ler Scott Pilgrim, Fracasso de Público, Retalhos, Macanudo ou, sei lá, Yeshuah.

Eu continuo vendo filmes blockbuster. E isso nunca me impediu de ver Almodóvar, Woody Allen, Juan José Campanella ou, sei lá, Beto Brant.

E, vejam só: eu sou adulto. Do tipo que paga as próprias contas sem a ajuda de papai e mamãe há mais de 10 anos.

Cultura nunca foi e nem precisa ser excludente. A diferença é que quem anda fazendo esta exclusão são rigorosamente os mesmos caras que passaram a vida reclamando do suposto preconceito que tinham alguns guetos como os “metaleiros” e os “marvetes e DCnautas”. O mundo dá voltas mesmo, não é?

Um comentário:

Manindoubt disse...

Oie...olá! Bom dia! Boa matéria! Me ajudou a refletir sobre o assunto. Sempre questionei também sobre isso: de me tornar adulto e o que deveria passar a fazer de agora em diante, ao entrar nesta nova fase de vida em q começam as responsabilidades maiores-mór(emprego,filhos,etc...). Até mesmo por influyência de amigos, que por exemplo, eram otakus e passaram a não gostar/ver mais animes. Das coisas do meu passado, eu mantenho quase todas e acrescentei alguns hobbies a mais para eu ficar mais por dentro do mundo adulto(graças também à alguns conselhos de amigos meus inteligentes), como por exemplo: raves, hard rock, world music(Enya para crescimento espiritual,etc....). Confesso que tudo q gostei do meu passado eu continuo gostando, e não é só eu e faço assim, muitas pessoas também agem assim, pois são hobbies e fazem parte da personalidade da pessoa,então às vezes é difícil abandonar hobbies antigos. Graças À esta sua matéria e a de outros vários sites da internet com o mesmo tipo de matéria, me sinto mais seguro em saber q eu continuo agindo da maneira certa, e q se vc gosta de algo, não deve deixar de gostar só porque um amigo seu agiu assim; Isso iria contra os seus gostos e vc estaria se auto-destruindo, pois a vida foi feita para ser aproveitada como sem vivêssemos o último dia de nossas vidas. Até porque têm muitos adultos por aí com mais de 40 anos que ainda assistem animes. Fico por aqui, aguardo resposta se puder, tiau.