26/05/2010

.: TELEVISÃO .: O episódio final de Lost

Previously on Lost: você vai ler dezenas de SPOILERS no post abaixo. Não custa avisar. Assim sendo, você tem até o final da contagem regressiva para fugir daqui e evitar ler detalhes caso não tem conseguido ver ainda o dito cujo episódio. Se não o fez, saiba que está bem atrasado. Enfim...

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O amigo Thiago Borbolla, mais conhecido como Borbs, editor-chefe do Judão e VJ da MTV (que chique, benhê!), escreveu dia destes no Twitter uma frase perfeita a respeito da última temporada de “Lost”. Ou melhor, mais especificamente uma frase sobre o comportamento dos espectadores de “Lost” a respeito da última temporada. Segundo ele, as pessoas passaram a se preocupar mais com a solução dos mistérios do que efetivamente com o simples ato de curtir a série. Se você é deste tipo, deve ter batido com a cabeça na parede diversas vezes depois de assistir ao episódio final do seriado, o último da derradeira sexta temporada, exibido nesta terá-feira (25) pelo canal AXN.

Eu, no entanto, pertenço ao outro grupo. Ao grupo dos espectadores que simplesmente adoraram o caminho para o qual os roteiristas levaram a trama da série nas últimas duas temporadas. Ao grupo de fãs que queria mesmo era ver o desfecho reservado para os personagens, que são o grande tesouro de “Lost”. Mistérios? Numa boa? Já tinha escrito isso por aqui, mas vale o reforço: no último episódio, eu queria era me emocionar e me surpreender. Não fazia questão de saber de quem era aquela estátua gigante, de onde veio Jacob e o que diabos é aquela fonte de energia luminosa no centro da ilha. Isso eu deixo para discutir nos meus encontros com os amigos nerds. Assistindo ao último episódio, eu me emocionei e me surpreendi. E foi memorável. E absolutamente perfeito. O que mais eu queria?

Tá bom, você pode até achar absolutamente óbvio (como o próprio Homem de Preto diz, inclusive, em tom sarcástico) que Jack se oferecesse para assumir o posto de Jacob e, no final das contas, se sacrificasse em nome do bem maior. Mas, diabos, era para isso que ele vinha se preparando e se encaminhando desde a primeira temporada! O paladino de armadura brilhante que, no meio da jornada, chegou até a perder as esperanças e ficar próximo da loucura. Era justamente o que eu queria ver! Por sinal, Damon Lindelof, Carlton Cuse e cia. acertaram na mosca ao fazer deste último capítulo um baú de referências diretas às cenas da primeira temporada, amarrando a série muito mais conceitualmente do que desta maneira direta que alguns fãs fundamentalistas (leia-se “pentelhos”) vinham cobrando. Do primeiro frame do caixão do pai de Jack entrando no avião até o momento em que ele fecha os olhos e cai morto, exatamente o movimento contrário da primeira cena da série. Tudo fechadinho.

Emocionante o momento em que o cachorro Vincent se deita ao lado de Jack enquanto ele dá seu último suspiro. Emocionante o momento em que Jack transforma Hurley em guardião da ilha, pouco antes de entrar na caverna de luz. Emocionante a expressão no rosto de Ben (ah, o sempre ótimo Michael Emerson...) quando Hurley pede que ele o ajude na missão de proteger a ilha. E emocionantes cada um dos reencontros dos casais da série na realidade paralela, retomando suas lembranças dos momentos na ilha.

Ah, é, aqui vale um parênteses: nos fóruns, espaços de comentários e Twitters da internet afora, tem muita gente fazendo comentários imbecis sobre o final, em especial sobre a explicação do que seria a realidade paralela. Parece que estavam dormindo na hora e deixaram a explicação passar. Deixa o titio aqui explicar para evitar que a bobagem se espalhe. Não, os personagens não estavam mortos deste o começo da série e a ilha não era o purgatório. Tudo que aconteceu na ilha (e fora dela, como se viu nas últimas temporadas) aconteceu de fato. Ponto. Locke morreu, Sayid morreu, Sun e Jin morreram, Jack morreu, Sawyer e Kate foram embora no avião da Ajira com o Lapidus, Hurley e Ben ficaram para trás protegendo a ilha, junto com o Desmond. Ponto. O que aconteceu depois disso, a série não mostra. A realidade paralela é uma criação coletiva dos espíritos de todos que morreram, seja na ilha ou seja fora dela, seja de morte matada ou morte morrida, muitos anos depois, na qual eles se encontrariam e superariam juntos as experiências e partiriam para a próxima etapa. Assim mesmo, com cunho totalmente esotérico-religioso. Ficou claro agora?

Restaram segredos a ser revelados? Claro que restaram. Um montão deles. Eu saberia enumerar vários. E daí? Lindelof e Cuse entenderam muito bem o que fizeram ao longo destes seis anos. Entenderam que criaram uma mitologia moderna que, guardadas as devidas proporções, tem o seu quê de “Star Trek” ou “Star Wars”. Acompanharam todas as discussões e teorias que povoaram a internet. Que graça teria dizer que esta ou aquela teoria é a correta? Deixem a discussão continuar rolando, afinal. Porque este é um processo que sempre manteve a série viva fora da TV e mesmo agora, com o seu encerramento definitivo, deve alimentar o culto em torno da marca. Tudo que se diz fora da TV é parte integrante e indissociável de “Lost”. E isso não é bom? Para os produtores e para nós, inclusive. Esta é a graça da nerdice, de passar horas discutindo a pseudociência e a filosofia de boteco das séries de TV, dos filmes, dos quadrinhos de super-heróis.

E tem mais, amiguinhos: não pensem que Lindelof e Cuse são uma duplinha inocente. Ambos são seguidores fiéis de um certo George Lucas, aquele mesmo que deixou uma porrada de pontas soltas na cronologia de suas sagradas trilogias espaciais. E o que o Sr.Lucas fez com parte destas pontas soltas? Criou um gigantesco universo expandido. Você não consegue imaginar a mesma coisa acontecendo com “Lost” nos próximos anos? Só o período de tempo no qual Hurley e Ben passaram como defensores da ilha, aquele período deixado em aberto no último segmento do episódio, já rende material suficiente para livros, gibis, games e, não se espantem, até mesmo uma nova série daqui alguns anos. Eu acho bem provável que isso aconteça. E quando Ben e Hurley conversam sobre como levar Desmond para casa? Isso não gera possibilidades e mais possibilidades para o futuro?

No saldo final, o grande legado que “Lost” deixa, o legado que transformou a série em um fenômeno cultural moderno, não são os seus segredos. Ou tampouco a nova forma de se consumir mídia que deixou as tevês de cabelos em pé. O principal legado de “Lost” é o profundo e inteligente desenvolvimento da história e da personalidade de seus personagens. Só mesmo uma equipe de roteiristas que conhece a fundo seus personagens poderia pensar num detalhe sutil como o fato de Ben, nem herói e nem vilão, na realidade paralela, se recusar a entrar na igreja com o restante do grupo. “Eu ainda tenho algumas coisas a resolver”, diz ele. Claro que sim. Ele reencontrou a filha, está ali a sua chance de redenção!

E só mesmo uma equipe de roteiristas que conhece a fundo seus personagens poderia nos mostrar que Jack pode ter sido um dos principais protagonistas, o bonzinho, o “herói”. Mas ele nunca seria o sucessor de Jacob. É claro que Hurley, o simpático gordinho que, conforme Ben explica, se dedicou ao longo de seis temporadas a cuidar bem das pessoas que ama, seria a escolha mais acertada. Isso é o tipo de coisa que só um estudo profundo dos personagens revela.

Sim, “Lost” tem diversos episódios com roteiros inesquecíveis. Mas eles não seriam assim tão inesquecíveis se os personagens não fossem tão bem desenvolvidos e trabalhados ao longo destes anos. Se suas histórias, sejam eles protagonistas ou coadjuvantes, não fossem esmiuçadas e detalhadas a ponto de nos importarmos de fato com eles – seja amando ou odiando, tanto faz. Um exemplo recente: depois do fantástico episódio no qual conhecemos detalhes da história de Richard, ele passou a fazer muito mais sentido na trama do que antes.

Você pode achar que perdeu seis anos de sua vida. Não é o meu caso. Pra mim, foram seis anos de tirar o fôlego. Com altos e baixos, é claro, afinal ninguém é perfeito. Mas que vão entrar para a história. E que foram finalizados com todo o talento que os espectadores mereciam.

Acho que, no fundo, você deve ser um homem de ciência – enquanto eu sou um homem de fé.

4 comentários:

Thomas Cavendish disse...

Perfeito Thiago.

O que eu percebi, é que muitas pessoas que tinham parado de assistir a série há muito tempo, voltaram a ver apenas o último episódio. E na maioria das vezes são essas pessoas que entenderam que eles "estão mortos desde o início". Porque essas pessoas acharam que os flash-sideways eram um flashback comum, como no início da série. Então interpretaram que todos estavam mortos...

abs.

Rodrigo (Machine) disse...

Pois é, Tio Cid. Muita gente não entendeu o final, e muita gente ficou só esperando explicações mirabolantes sobre a ilha.
A parte da ilha é básico, o bem contra o mal.
O que tornou a coisa interessantes foram as pessoas que estavam lá, que mesmo depois de mortos ficaram "perdidos" e só encontraram o caminho quando se juntaram.

Aliás... a série se chama "Lost", não há nenhuma referência a ilha no título :D

Gostei do texto. Fui!!!

Carlos Eduardo disse...

Muito legal seu texto, cara. Parabéns! ^^

Silas Chosen disse...

Exatamente, cada palavra. Aliás, olha a explicação pro final que o Michael Emmerson deu:

http://www.aintitcool.com/node/45259