16/06/2010

.: TELEVISÃO .: Ah, o humor do bem...

Na boa? Talvez eu seja um dos poucos jornalistas que conheço que não têm bronca do Marcos Mion. Aliás, eu sempre gostei bastante do cara, tô sendo 100% sincero. E não tô falando só das muitas passagens dele pela MTV, desde "Os Piores Clipes do Mundo" e demais tosqueiras. Tô falando também da dobradinha "Descontrole" e "Sobcontrole", na Band - numa boa, talvez um dos poucos momentos na vida em que achei graça no Repórter Vesgo, quando ele usava aquela fantasia bizarra de Corvo. O humor do Mion sempre foi infame, sempre foi cretino, sempre foi quase infantilóide e com infalíveis temperinhos nerds aqui e ali. Sempre foi parecido com o meu próprio senso de humor, em resumo. Ele é marrento? É. Mas tudo bem. Nunca me incomodou. Eu lido bem com egocêntricos, até por ser um deles.


Isso, é claro, até ele aportar na Record com superpoderes e com a clara missão de ter que trazer o público jovem para a emissora do Bispo, na cola da Vênus Platinada. Isso até ele nos brindar com uma colagem sem graça do "Pânico" e do "CQC", que atende pelo nome de "Legendários".

Dizer que até os grafismos e os truques de edição remetem aos engravatados liderados por Marcelo Tas seria chover no molhado. Assim como é óbvio demais dizer o quão vergonhoso é ver o mestre João Gordo e o grupo anteriormente conhecido como Hermes & Renato tentando se enquadrar em um formato que simplesmente não os comporta. Tudo isso já foi dito diversas vezes pelos colegas críticos de TV, que também já trataram de detonar suficientemente a emulação de "repórter inexperiente" feita pela personagem Teena, assim como o assistencialismo babaca do tal Super Tição (Bicho, aquilo é ruim. Mas ruim de doer na alma). Nem preciso entrar neste mérito, portanto. Nem dizer que o "Zorra Total" consegue me arrancar mais risadas do que Mion e seus Legendários (sim, estou falando sério). E olha que eu sou um cara que ainda perde tempo vendo o programa da Luciana Gimenez, então imagine o quão fácil é me entreter.

O que me tira do sério, no entanto, é o discursinho mequetrefe adotado pelo apresentador e diretor Mion. Outrora responsável pelo caótico e politicamente incorreto "Descarga", agora ele me vem com este papo furado de que quer fazer "humor do bem". Ah, faça-me o favor.

Já falei por aqui o que acho desta praga do politicamente correto que anda assolando os nossos meios de comunicação. Mas acho que o caso do humor é bastante sintomático. Porque, veja só, quer fazer humor do bem, que o faça. Assim como o grupo Restart quer fazer o tal do "happy rock", um rock adolescente sorridente, asseado e bonitinho, ok, que o faça. Sei que tem gente que gosta de ambos, tá bom, fica aí com o seu que eu fico aqui com o meu. Mas não me venha tentar fazer engolir esta história de que este é o jeito certo de fazer humor ou o jeito certo de fazer rock. Porque rock, pra mim, pode ser alegrinho, simpático, colorido. Mas também pode ser sujo, mal-encarado, sombrio, violento. Assim como o humor pode ser inocente, puro, para a família. E também pode ser escroto, fuleiro, do tipo que não perdoa ninguém. Tem espaço pra todo mundo. Não existe este negócio de certo ou errado. O máximo que pode acontecer é eu não achar graça. Mas aí eu mudo de canal e tá tudo certo.

Minha opinião? Humor não precisa ser certinho e tampouco respeitoso, amigável, comprometido com o bem-estar da família brasileira e com um mundo melhor. Uma boa piada não tem qualquer compromisso com a simpatia, como diz minha boa amiga baiana, Dona Martinelli. Piadas não precisam levar credos, raças ou classes sociais em consideração. Piadas podem, sim, ser cruéis. Porque as piadas, diacho, precisam ser apenas engraçadas. O que acontece é que, de uma hora para a outra, a gente não pode mais fazer piada sobre nada porque sempre tem alguém que fica ofendidinho. Por algum motivo, as pessoas estão perdendo a capacidade de rir de si mesmas. Rir dos outros, tudo bem. Mas não me venha falar da minha religião, do meu povo, da minha família que eu fico puto, chuto a mesa, ameaço de processo. Sacanear a família do outro, tá legal. Mas deixe a minha em paz.

É neste cenário que entra o tal do "humor do bem". Que é asséptico, que não ofende, que é bom para o papai, para a mamãe e para o filhinho. Que é bom até para as plantinhas. Mas que não surpreende. Que não chacoalha. Que não tira as pessoas de seu lugar de conforto. Que não faz as pessoas reverem os lugares-comuns que elas mesmas se fazem engolir todos os dias. Porque tudo que é óbvio acaba passando despercebido. A ficha acaba caindo mesmo quando você é forçado a enxergar as coisas por um outro prisma, que nem sempre é o mais confortável, que nem sempre é aquele que você vê todos os dias. Quando alguém joga aquilo bem na sua cara, sem precisar te chamar de "benzinho" - seja de maneira direta e reta ou com aquela elegância non-sense inglesa. Que o digam aqueles bons moços do Monty Python.

Leia-se bem: este não é um manifesto em defesa do "CQC" ou do "Pânico". Acho, inclusive, que ambos andaram tendo quedas consideráveis de qualidade nos últimos meses, entrando numa espiral repetitiva e cansativa. Mas em determinados quadros, por mais que sejam poucos, ainda é possível ver claramente que o foco é "encontrei uma piada engraçada pra cacete" e não "encontrei uma piada engraçada pra cacete e que não vai ferir as suscetibilidades de ninguém". A diferença é brutal. A piada é boa? Vamos fazê-la! Captou a mensagem, nobre guru? Isso até a "Escolinha do Professor Raimundo" entendia.

"Legendários" só me surpreendeu por duas coisas: 1) pela facilidade com a qual Marcos Mion, o mesmo Marcos Mion que mudou a cara da MTV com sua porra-louquice, se transformou e se reinventou para este modelo de humor que chega a ser sonolento; e 2) por alguém ter dado de fato um emprego para a Jaque Khury, a ex-BBB mais sem sal e sem açúcar da história dos reality shows.

Saudades da "TV Pirata".

2 comentários:

Luiza Ribeiro disse...

E sabe o que pior sobre esse "humor do bem"? Acho q o Pânico também tá enveredando um pouco para isso. Assistencialismo, sabe?

Saudade dos Trapalhões...

Vitor disse...

Vamos fazer de conta que o bispo não tem nada a ver com isso...