19/07/2010

.: QUADRINHOS .: Kick-Ass

Quem acompanha o meu trabalho (!) há algum tempo, com certeza já deve ter lido uma frase semelhante nos textos que escrevo por aí (ou por aqui) - mas, neste caso, mil perdões, não posso evitar ser repetitivo. Vamos a ela: críticos costumam ser, em sua grande maioria, criaturas bem preguiçosas. Críticos de cinema, de música, de literatura, tanto faz. Sei que posso estar dando um tiro no pé ao retornar a esta afirmação - afinal, vejam só, também sou um crítico ao meu próprio modo - mas não dá para escapar. É muito mais fácil apostar nos estereótipos prontos ou nas comparações fáceis do que tentar usar os neurônios para enxergar um pouco além das obviedades. E nos dias de hoje, em que todo mundo resolveu virar crítico no seu blog ou no Twitter, aí a coisa descambou de vez.

O crítico (!!) desatento que lê "Kick-Ass: Quebrando Tudo", a obra de Mark Millar que acaba de ter sua adaptação cinematográfica lançada nos cinemas, tem a tendência a focar-se no aspecto mais visível: a violência. A patrulha do politicamente correto vai enlouquecer com a pancadaria que permeia a história, com a quantidade de sangue jorrando, com a atitude homicida e mal-educada de uma meninininha que deveria estar brincando com bonecas mas que corta pescoços de mafiosos sem qualquer problema de consciência. Do outro lado, e tão ruim quanto, o que vai ter de gente dizendo que "Kick-Ass" é muito legal, que é "irado" ou "da hora" ou "duca" apenas e tão somente pela pancadaria, pelas mortes explícitas e sem censura, não está no gibi (com o perdão do trocadilho ridículo). Eu desconsideraria ambos, numa boa.

Ainda não assisti ao filme. Mas assim que acabei de ler o encadernado que a Panini Comics acaba de colocar no mercado com a história completa, o que me saltou aos olhos não foram as cenas de violência. Por incrível que pareça, já que o mestre Romita caprichou nelas. Sim, "Kick-Ass" é uma história extremamente violenta. Mas a violência é apenas e tão somente um complemento, uma alegoria gráfica para uma trama muito divertida e bem-conduzida, com diálogos ágeis e inteligentes e com dezenas de ótimas referências - seja aos clássicos dos gibis de super-heróis, um gênero cujos limites Millar sempre tenta desafiar, seja à geração digital do YouTube e das mídias sociais. Aí está o segredo de "Kick-Ass". E não no sangue.

Estamos falando da história de um moleque, fanático por gibis de justiceiros mascarados (tant quanto eu e você, só para constar), um nerd cuja vida pessoal não vai nada bem, seja em casa ou na escola. Até que ele resolve comprar uma roupa de mergulho pelo e-bay e fazer a sua parte. Sim. Ele compra um uniforme, com máscara e tudo, e resolve combater o crime por conta própria. Os percalços são muitos, já que ele é um simples garoto sem qualquer treinamento avançado de combate, o que lhe garante uma enorme cota de hematomas e sangramentos. Mas sua atitude, mezzo burra mezzo corajosa, chama a atenção da população, levando imediatamente seus vídeos para o YouTube, transformando-o em astro pop do MySpace e atraindo a atenção de imitadores e também da bandidagem.

Quem conhece Mark Millar de título como "Os Supremos" sabe que, quando ele se esforça, constrói personagens carismáticos e dispara diálogos inesquecíveis. É o caso de "Kick-Ass". Não, Millar não reinventou o gênero dos heróis, não fez uma obra que entrou para a história da nona Arte. Sem exageros. Mas ele soube contar uma história sobre mascarados sem cair no óbvio - como alguns críticos costumam fazer, aliás. Os mais exagerados chegaram a comparar "Kick-Ass" com "Watchmen". Bobagem. "Watchmen" é uma abordagem mais político-social, cerebral. "Kick-Ass" é pura diversão descompromissada. Como o próprio Millar já descreveu, seria mais ou menos o que aconteceria se Peter Parker tivesse nascido na beirada do século XX e nunca tivesse se deparado com uma aranha radioativa. Que Bendis não nos ouça, mas acho que é bem por aí.

Editora: Panini Comics
Número de páginas: 208
Autores: Mark Millar (roteiro), John Romita Jr. (desenhos), Tom Palmer (arte-final) e Dean White (cores)
Preço: R$ 60,00

2 comentários:

Do Vale disse...

O politicamente correto é foda... É só lembrar daquela passagem do Robbie Williams no ano passado ou dos tweets de Warren Ellis durante a Copa.
Tarantino metralha Hitler na cara e todo mundo ri! Mark Millar põe uma menina de 10 anos fatiando gangsters e o povo chia! Onde já se viu?! =D
Abraço!

Mitocôndrio disse...

Quando não faz merda, o Millar arrebenta.