17/09/2010

.: MÚSICA .: Família Restart

Caso você esteja devidamente antenado ao cenário pop brasileiro e saiba somar 2 + 2, era óbvio para você que os meninos coloridos da banda Restart iam sair como os grandes vitoriosos da cerimônia 2010 do VMB (Video Music Brasil), o grande evento promovido pela MTV Brasil na noite desta quinta-feira (16). Afinal, estamos falando de uma das formações musicais que mais vende discos atualmente no país, que mais lota shows, que mais mobiliza fãs, que causa uma verdadeira histeria coletiva entre adolescentes de Norte a Sul. Tudo isso eu creio que você já saiba – por mais que o seu único contato com o quarteto seja o episódio do #putafaltadesacanagem no Twitter . Assim sendo, como ainda esperar uma vitória surpresa em uma premiação cujos vencedores são escolhidos pelo público, por votação popular via internet e demais meios digitais...que é justamente onde o fiel séquito do Restart é mais atuante?

Vou me focar especificamente neste último item: em nenhum momento, a MTV deixou transparecer, na divulgação prévia ou ao longo da transmissão do evento, que se tratava de uma premiação dos melhores do ano selecionados por um júri especializado formado por músicos, jornalistas, produtores e blá-blá-blá? Não. Durante mais de um mês, a emissora fez questão de conclamar seu público a votar. E votar muito, conforme eles mesmos faziam questão de ressaltar. O Restart tem uma legião de dedicadas fãs que também são ferozes internautas, certo? O que rolou, portanto? As fãs passaram noites e noites votando alucinadamente em seus queridinhos. Bingo. Eles ganharam em todas as categorias que concorreram. Já aconteceu com o NX Zero em anos anteriores, ora bolas. Nada mais legítimo, portanto. Eles ganharam dentro de todas as regras da premiação. Justo, muito justo, justíssimo.

Assim sendo, juro que fico tentando entender todo o ódio anti-Restart e anti-VMB que se espalha desde o final da cerimônia em plataformas como o Twitter, o Facebook, nos fóruns, nos comentários de alguns dos maiores sites especializados de música. Aliás, a onda de ódio começou cedo, já que alguns dos convidados da festa da MTV chegaram a vaiar Pe Lanza e seus comparsas multicolor quando eles subiram ao palco para receber as suas estatuetas de cachorro dourado. Estatuetas estas, é necessário relembrar didaticamente, obtidas de maneira 100% legítima. Sim, queridos coleguinhas, dizer que a premiação foi “comprada” não faz qualquer sentido. Porque a quantidade de meninas histéricas gritando por eles em todo lugar justifica toda e qualquer vitória em premiações que peçam votação popular. Matemática simples, 2 + 2. Estão me acompanhando?

Quando temos uma premiação para eleger os melhores do mundo do cinema e que abre suas portas para a votação popular, quem acaba ganhando sempre? Das duas, uma: ou são os bruxinhos de “Harry Potter” ou os vampiros e lobisomens teen de “Crepúsculo”. É um saco? É. Mas também é totalmente natural. Uma espécie de evolução natural das coisas.

Esclarecendo: não sou pago pela MTV para servir de advogado de defesa. Também não recebo um centavo da assessoria do Restart ou de sua gravadora. Aliás, minha intenção aqui nem é fazer qualquer julgamento de valor com relação à qualidade das músicas do grupo. Se você diz que não gosta do som dos moleques, está plenamente no seu direito, liberdade de expressão. Quem acompanha este blog, já deve ter lido comentários sarcásticos escritos por mim mesmo a respeito do Restart. Não é o tipo de som que eu curto, não é o tipo de rock que me agrada (“happy rock”, pra mim, é Helloween das antigas ou Edguy. Ou quem sabe Dream Evil – uma banda muito boa que descobri e sobre a qual ainda preciso comentar aqui), não é o tipo de videoclipe que me faria pedir ao dedo nervoso da minha esposa que parasse a migração alucinante de canal para canal no controle remoto. Sou essencialmente um cara do hard rock laquê farofa e do heavy metal “mamãe-quero-ser-um-cavaleiro-medieval”, Restart e seus congêneres coloridos ou P&B (NX Zero, Fresno, Strike, Cine...) me dão nos nervos, preciso admitir. Tenho o direito de dizer o que penso da música deles, assim como os fãs deles têm total direito de sacanear o tipo de música que eu gosto. Normal. Aliás, colegas headbangers, precisamos lembrar sempre que o heavy metal nunca esteve entre os gêneros favoritos, nunca foi unanimidade, sempre foi uma música marginal e underground por natureza. E mesmo assim, mesmo sendo taxados de satanistas, bêbados, alienados, maloqueiros, brigões, continuamos ouvindo. Logo, não importa quanto a gente sacaneie o Restart, suas fãs vão continuar apaixonadas por eles.

Mesmo não gostando do som do Restart, acho muito injusto demonizar os moleques por uma vitória como esta do VMB. Por uma questão de gosto pessoal, a gente pode até questionar o resultado – mas apenas do ponto de vista conceitual. Posso dizer que não concordo que eles sejam o artista brasileiro do ano no mundo da música, que acho que bandas como Matanza e Velhas Virgens fazem um rock ‘n roll com muito mais pegada. Posso sim – porque é o que eu acho mesmo, aliás. O que eu não posso é dizer que foi uma armação, uma tramóia, as gravadoras estão pagando para os moleques vencerem. Como já escreveu o nobre André Forastieri, meus ídolos usam maquiagem – vide o Kiss, o King Diamond ou ainda as bandas glam metal dos anos 80 como o Mötley Crüe, o Poison e o Skid Row. Ficava difícil descobrir quem colocava mais rímel nos olhos. Se você acha os cabelos do Restart ridículos, o que dizer das cabeleiras do caras do Twisted Sister? As apertadérrimas calças coloridas de Mister Lanza são bizarras? Vamos dar uma olhada no visual do Axl Rose no ápice dos Guns ‘n Roses. Querem que eu continue?

Gozado como funciona a nossa relação com nossos ídolos. A gente gosta de uma banda, daquele tipo que só uma meia dúzia de gatos pingados ouve. E ficamos putos da vida quando vemos na mídia o sucesso de uma bandinha qualquer que sempre consideramos pior do que aquela que amamos. “Como esta porcaria toca na rádio e a minha banda predileta não? A minha banda favorita é muito melhor, faz muito mais som”. Aí, quando nossos ídolos rompem a barreira do submundo musical e se tornam bandas que todo mundo ouve, a gente resolve que não gosta mais deles porque eles se tornaram “comerciais” demais, acabaram “se vendendo ao sistema”. Vai entender.

PS: Tenho a impressão de que a platéia de moderninhos reunidos no Credicard Hall começaram a vaiar o Restart porque perceberam, afinal de contas, que a apresentação dos gringos do OK Go não teria a mínima graça sem a participação de suas esteiras rolantes. Pura frustração indie.

3 comentários:

Ana Lins disse...

Detonou, Thi. Concordo com cada linha!
Abraço.

Blog da Dragol Argentina! disse...

É bem isso mesmo, tomara que em breve os votos venham para mim.Rs!

Camila Nobre disse...

Boa, Thi! A solução é ter paciência pra trocar mais vezes de canal/rádio e, sinceramente, a MTV poderia repensar no formato do VMB. De repente premiar por voto do público e outro prêmio por um júri técnico.