01/10/2010

.: CINEMA .: Kick Ass: O Filme

Obs: Este texto contém spoilers potenciais, tanto para quem não viu o filme quanto para quem não leu a HQ original. Considere-se devidamente avisado.


...

Não adianta. O tempo passa, o tempo voa e o Public Enemy continua tendo razão. Don't believe the hype. Esta frase é a descrição perfeita para o que senti quando terminei de ver "Kick Ass", a adaptação cinematográfica da obra em quadrinhos de Mark Millar e John Romita Jr. Todo mundo falou, todo mundo elogiou, todo mundo surtou, todo mundo pirou o cabeção, teve gente até dizendo que era o melhor filme do ano. E, no final das contas, o que eu vi foi uma película óbvia, um filme básico de super-heróis, que infelizmente só pode ser categorizado sob a bandeira "o livro é muito melhor do que o filme". E quando eu digo muito, é muito mesmo.
Não me entendam mal. Continuo achando o Matthew Vaughn um excelente diretor. E "Kick Ass" está longe de ser um filme ruim. É divertido até, tem bom ritmo, é bem editado, os atores são ótimos - em especial a jovem Chlöe Grace Moretz, que impressiona como a pequena psicopata Hit-Girl. Bacana. Mas poderia ser muito melhor, mais memorável, impressionante. As escolhas dos roteiristas no momento de transpor a história das páginas para a telona foram bastante equivocadas. O resultado final ficou muito aquém do original, ficou com aquele jeitinho besta de politicamente correto, "precisamos dar uma limpada para o jovem público hollywoodiano". Tudo bem, o gibi "Kick Ass" não é uma obra-prima das HQs. Mas funciona muito bem justamente porque, como bem sabemos, Mark Millar é tudo, menos óbvio. Saídas fáceis não costumam constar em seu repertório. E as conclusões de suas tramas surpreendem mesmo.

E olha que, conforme amigos e visitantes costumeiros podem atestar, sou dos maiores defensores da liberdade de adaptação dos quadrinhos para as películas. São mídias diferentes, o diretor está construindo sua própria obra, não precisa ser reverente ao original de maneira pedante. Mas eu defendo que as mudanças sejam inteligentes, criativas, a favor de uma história que flua melhor. Não é o caso aqui. Da metade para o final, o roteiro de "Kick Ass" transforma Dave Lizewski em um verdadeiro herói. O natural born loser fica para trás, Dave fica mais confiante, tem arroubos de paladino e ainda salva todo mundo no final - usando um jato nas costas, uma metralhadora automática e uma bazuca. Pra completar, ele ainda pega a mocinha e vive feliz pra sempre!

Ora, vamos ser sinceros: conectar Katie, o amor platônico de Dave, com o traficante que ele enfrenta assim que conhece a Hit Girl e o Big Daddy, foi uma ótima saída narrativa. Mas transformar a patricinha miserável e escrota em uma garotinha apaixonada e que atua como voluntária em um centro para jovens da periferia foi de uma babaquice gritante. Ver Dave Lizewski como Kick Ass é legal porque ele é um cara como nós, um sujeito comum, que só se lasca na vida, que só se dá mal até o final e mesmo assim insiste em vestir aquela malha ridícula e tentar combater o crime. Transformá-lo em um herói do tipo Era de Ouro, daquele que levanta a cabeça e dá a volta por cima, com direito à clássica cena do telhado durante o pôr do sol, não dá.

No gibi, vê-lo abrir-se com Katie depois de tanto tempo fingindo ser seu melhor amigo gay, é memorável. Quem pensava que ela se atiraria em seus braços quando ele declarasse seu amor, tomou um susto quando a menina mandou o namorado atual dar-lhe uma surra. Viu? Esta é a graça de "Kick Ass". E não Dave revelando a identidade secreta pra ela e os dois caindo na cama depois, loucos de amor. Vá.

Outra saída estúpida: fazer com que o Big Daddy seja realmente uma versão do Justiceiro - "os mafiosos mataram minha família e vou me vingar, matando todos que estiverem no meu caminho até o chefão". Até acrescentaram um parceiro policial bonzinho para servir de contraponto. Nada de vingança sanguinária. Muito mais legal seria vê-lo retratado, como nas HQs, como um camarada que inventou esta história toda de vendetta só para servir de ambientação para o seu próprio fetiche adolescente de fã de quadrinhos. Um fã que, agora adulto, treina a filha para combater o crime da mesma forma que seus ídolos multicoloridos de papel. Muito mais perturbado. Muito mais inesperado. Muito mais criativo.

Também foi descenessário dar uma explosão de consciência para o Red Mist - que chega a pedir desculpas para o Kick Ass pela sessão de tortura que seu pai preparou para o herói de roupa de mergulho, que quer defendê-lo, que alega para o papai-bandidão que aquele é seu amigo. Muito mais legal seria vê-lo como o nerd mimado e cheio da grana que primeiro vira herói e depois se descobre mais feliz como uma espécie de vilão sacana, um traidor, o antagonista da continuação, inclusive.

"Kick Ass", o gibi, é legal justamente porque ninguém se salva. Todos os personagens, sem excessão, são escrotos, de um jeito ou de outro. Todos têm seus defeitos, incluindo o próprio protagonista. Dave não é, e nem nunca se tornou, um paladino da justiça. Ele era só um moleque da geração Facebook, viciado em "World of Warcraft", pendurado nos vídeos do YouTube, fã de gibis. Um moleque medroso, assustado, que vestiu uma fantasia e quis combater o crime. E não necessariamente porque queria salvar vidas, porque é altruísta, um cavaleiro em armadura brilhante, mas sim porque os heróis dos gibis são muito mais legais do que as celebridades. "Você não precisa de um trauma para usar máscara", diz Dave. "Só da mistura perfeita de solidão e desespero".

Entendeu a diferença?

Kick Ass (2010)
Diretor: Matthew Vaughn
Elenco: Aaron Johnson, Christopher Mintz-Plasse, Mark Strong, Chloe Moretz, Xander Berkeley

Um comentário:

Joanna L. disse...

Confesso que quando assisti também me veio um "é só isso? é disso que todo mundo tava falando?". Mas ainda assim gostei muito e tá no meu top 5 do ano. Talvez seja porque ainda não terminei a HQ. Deu vontade de terminar agora que te ouvi falando... Mas o fato é que a Chloe carrega o filme nas costas. Pequena grande atriz.

Espero Red Mist como vilão na continuação. VIlão de verdade, de preferência.