22/12/2010

.: QUADRINHOS .: X-Men: Garotas em Fuga

O seguidor habitual do Observatório Nerd já deve ter lido por aqui que não existem mulheres desenhadas de forma mais sensual no mundo dos gibis do que aquelas surgidas da pena do mestre italiano Milo Manara. Assim sendo, colocá-lo como o artista de um projeto especial estrelado por heroínas da Marvel, uma área completamente fora da zona de conforto para um artista europeu, parecia uma idéia genial. Mas que acabou pecando em dois pontos fundamentais. O primeiro deles, sob meu ponto de vista, foi justamente a escolha das protagonistas retratadas por Manara.

Não importa que, desde os anos 90, as x-mulheres sejam as personagens femininas mais sexualizadas da Casa das Idéias. Estamos falando de uma sexualidade forçada, exagerada, meio babaca até, com ecos claros da Image e sua explosão de adrenalina desnecessária (sim, Jim Lee, estou falando com você). Faria muito sentido, dada a pegada mais provocante de Manara, que a editora tivesse optado por uma anti-heróina como Elektra, por exemplo, que teve momentos de tirar o fôlego ao longo de sua trajetória, momentos claramente focados no público mais adulto. Trabalhando com a ninja assassina, dificilmente teríamos que ver Manara pisando o pé no freio com as moçoilas - porque, afinal, com ou sem Manara desenhando, estas x-heroínas são meninas de família, são lutadoras do bem, são paladinas da justiça, blá-blá-blá. Tem um quêzinho de politicamente correto permeando toda a obra, que simplesmente não combina com o estilo narrativo ao qual estamos acostumados quando Manara está envolvido.

A segunda escorregada foi exatamente na seleção do roteirista. Tá bom, Chris Claremont é praticamente sinônimo do mundo dos X-Men dentro da Marvel. Mas, mesmo que ele seja responsável por momentos lendários como "A Saga da Fênix Negra" e "Dias de um Futuro Esquecido", é difícil dizer que ele é um gênio na arte das HQs. Sinto muito, Claremont, mas é a verdade. E nos dias de hoje, então, sua produção caiu visivelmente de rendimento e qualidade. Ok, Claremont foi bastante feliz ao evitar muitas passagens com superpoderes e uniformes colantes, que não são realmente a praia de Manara. Mas a história é tão bobinha, tão superficial, tão fraquinha e rasa, que por pouco não prejudica a atuação do artista italiano. Tem uma relação tão idiota com uma vilã de Madripoor, um plano maquiavélico estúpido para causar uma guerra entre Índia e China usando os poderes telepáticos da Rainha Branca e da Garota Marvel...e bem no meio das férias das meninas mutantes. Simplesmente descenessário, em uma história claramente desvinculada da cronologia comum, ter que se ater ao velho esquemão de histórias de super-heróis. Claremont poderia ter dado a si mesmo mais liberdade, ter se rompido as amarras do esquemão Marvel/DC. Faltou mais ousadia, mais criatividade, fugir do óbvio, do padrão.

Tudo bem, é impossível negar que Manara fez com que o resultado final ficasse belíssimo - a sua versão para a Tempestade, por exemplo, é tão incrível e de uma sensualidade tão poderosa que faz jus totalmente ao título de deusa. O mesmo vale para a sua Psylocke, praticamente uma egressa de um filme de James Bond (conforme descrição dos próprios autores, aliás). Mas ainda acho que se tivessem deixado o próprio Manara cuidar dos roteiros, a coisa fosse ficar mais divertida. Ou, no mínimo, mais picante. Porque, com Manara no controle da situação, não iria demorar até que a Vampira, assim que se descobrisse sem poderes, acabasse se atracando com a Kitty Pryde. Só pela diversão. Afinal, elas estavam bêbadas e a muitos quilômetros de distância dos x-rapazes. Ninguém ia ficar sabendo. Aliás, com tantas telepatas envolvidas, talvez nem elas mesmas se lembrassem do episódio. Pô, Claremont. Perdeu a chance, hein?

X-MEN: GAROTAS EM FUGA
Roteiro: Chris Claremont
Arte: Milo Manara
Páginas: 68
Preço: R$ 14,90

Nenhum comentário: