21/01/2011

.: QUADRINHOS .: Muchacha

Folhetim gráfico. Não existe expressão mais adequada para definir “Muchacha”, encadernado que reúne as tiras de mesmo nome publicadas no jornal Folha de S.Paulo – e o autor é ninguém menos do que Laerte, aquele que considero um dos quadrinistas brasileiros mais brilhantes da nossa produção contemporânea de HQs.

Assim como fez no recente “Laertevisão”, o escritor e desenhista aproveita a oportunidade para viajar às suas mais tenras memórias de moleque, desta vez visitando os bastidores de um típico seriado televisivo de aventura da década de 50. As coisas começam com o bravo Capitão Tigre, um daqueles heróis mascarados do tipo capa e espada que embalaram as tardes da criançada, bem naquele naipe Errol Flynn. Quando o principal patrocinador sai do programa, a produção é obrigada a se submeter às idéias dos novos homens fortes do dinheiro – e uma delas é transformar a série em uma ficção científica espacial. O ator Lairo, que vive o protagonista, não lida muito bem com a situação e acaba pirando. E aí, meu caro, a piração deste Laerte em nova fase toma conta.

Porque aqueles que acreditavam que “Muchacha” apresentaria um Laerte mais linear, costurando tramas de uma forma mais tradicional, enganaram-se redondamente. “Muchacha” pode realmente não ser tão experimental quanto o rumo que tomaram seus trabalhos diários na Folha depois da morte do filho Diogo, assumindo uma faceta mais filosófica e menos “humor tapa na cara” e desagradando uma enorme parcela de fãs. Mas “Muchacha” está longe de ser uma história padrão com começo, meio e fim. “Muchacha” está longe de ser óbvio, de ser genérico, de transitar por risadas fáceis.

Como em todo bom folhetim, Laerte preenche a história do Capitão Tigre e sua trupe de deliciosos coadjuvantes (viva o Djalma!) com a dose certa de traições, vinganças, paixões e viradas rocambolescas na história, revelando aos poucos o processo de criação da diva cubana chamada Muchacha. Mas isso só serve como pretexto para que o autor inclua na jogada um quinhão de embates capitalismo x socialismo da época da Guerra Fria, discussões sobre liberdade sexual, cutucadas na imprensa sensacionalista e por aí vai. Enquanto a trama do Capitão Tigre se desenrola, somos aos poucos apresentados a um papagaio em desenho animado que tomou conta do horário antes ocupado por nosso herói na TV. E eis que então o papagaio desbocado, violento e politicamente incorreto, desenhado com aquele traço tipicamente Disney, passa a ter sua história entremeada coma do próprio Tigre, numa metalinguagem alucinante e genial.

Em alguns momentos, a história parece se distanciar tanto do que se apresentou ali, originalmente, nas primeiras páginas, que “Muchacha” parece nem fazer muito sentido. Mas faz. E muito. Uma mistura entre ficção e realidade que brinca com a linguagem, desafiando a inteligência do leitor com estilo e elegância. Vai, Laertón!

MUCHACHA
Roteiro e arte: Laerte Coutinho
Preço: R$ 29,90
Páginas: 96
Editora: Quadrinhos na Cia./ Companhia das Letras

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