18/01/2011

.: QUADRINHOS .: A Praga do Clone

Nota: este texto contém SPOILERS. Não adianta reclamar depois, viu?

Na década de 90, a Marvel estava disposta a mudar definitivamente (tanto quanto esta palavra realmente tiver significado no universo das HQs de super-heróis) o status quo do Homem-Aranha, seu principal personagem. Retomando um conceito apresentando na década de 70, eles trouxeram de volta o cientista louco Chacal e o seu pesadelo genético, o tal clone do Homem-Aranha – que chegou a adotar identidade (Ben Reilly, misturando nome do tio de Peter com o sobrenome de solteira de sua tia) e codinome heróico (Aranha Escarlate) próprios. Na verdade, para ser bem sincero e verdadeiro, Ben não foi a única réplica genética de Peter Parker a dar as caras na época, durante a chamada “Saga do Clone”, um dos capítulos mais famigerados e controversos da trajetória do Escalador de Paredes. Os clones pulavam de todos os cantos, tinha mais clones do Aranha nas tramas do que personagens secundários. A maioria esmagadora dos fãs e críticos especializados (eu incluído em ambas as categorias, só para constar) não se cansa de criticar este período e descrevê-lo como um verdadeiro pesadelo narrativo. No entanto, não pense você que não existem vozes que se levantem para defender o conceito original da saga. Entre os fãs, são poucos. Mas entre os criadores, a principal voz ao longo dos anos tem sido a de Tom DeFalco, veterano escritor de HQs.

Segundo ele, originalmente, a idéia original não era ter se transformado naquele imenso emaranhado de novos personagens, novos vilões, versões novas para vilões antigos, mortes e ressurreições, confusas viradas de trama que eram modificadas no momento seguinte. Nada de Scriers, Judas Traveller, Aranhacida (AFE!) ou demais sujeitos que, até hoje, nem os fãs e nem a própria Marvel entenderam muito bem como funcionam e quem eram de fato. Melhor esquecê-los. DeFalco defende que, se fosse escrita do jeito certo, se tivesse a duração que deveria, se tivesse passado incólume por tantas e tas intervenções editorais que a prolongaram e encheram de costuras, a Saga do Clone teria funcionado. DeFalco defendeu tanto isso que até ganhou uma segunda chance de provar que estava certo. E foi convidado pela Marvel para escrever a Saga do Clone como ela deveria ter sido escrita, uma espécie de revisão, uma versão do diretor. O resultado foi a mini em seis partes “Spider-Man: Clone Saga”, que a Panini Comics publicou aqui no Brasil este mês, na íntegra, dentro da revista “Teia do Aranha”.

Tom DeFalco é um nome muito importante, muito respeitado, que ajudou a fazer a história do Homem-Aranha. Ótimo, lindo, maravilhoso. Beijo pra ele. Mas, Sr.DeFalco, quer queira o senhor ou não, a sua versão para a Saga do Clone também é uma bosta.

Escrita em parceria com Howard Mackie, a tal Saga do Clone versão 2.0 é realmente mais enxuta. Mas não deixa de ser confusa. E sem graça. Tudo acontece rápido demais. Parker re-encontra Ben Reilly e não demora duas páginas para que já o considere seu irmão, seu melhor amigo de shopping. O Chacal, coitado, mal dura cinco quadrinhos e já é chutado pra fora. Pinta lá um clone da Gwen Stacy e - pimba! - vai embora no momento seguinte.

A pura existência de um personagem como o Kaine já é ridícula – e quando usada desta maneira tão pueril, como "o fortão malvadão que se redime no final", chega a dar um choque no meu cérebro. A dupla de roteiristas mantém ainda a papagaida de “na verdade, Reilly é o verdadeiro e Parker é o clone”, apenas para desmentir-se logo na frente de uma maneira que é pura vergonha alheia, do tipo “ah, é, e por falar neste segredo, era tudo mentira. Voltamos à programação normal de porradaria”. E o final...não, eles não trazem o Norman Osborn de volta. Há. Eles trazem o Harry Osborn de volta. Ou seja, quem controlava tudo das sombras não era o pai, mas sim o filho. Ah, tá. Grande diferença. Mas não acaba aí. Surge ainda um clone do Norman. E que fica bonzinho. E que ajuda a dupla de irmãos-Aranha a vencer o terrível vilão que, por acaso, é seu filho...ou algo assim.

Tom DeFalco, meu velho. Se você acha que esta é a Saga do Clone como deveria ter sido publicada, preciso então dizer-lhe que nunca tive tanta certeza na vida quando amaldiçôo, todas as noites em minhas preces, a trupe de idiotas responsável por este...este...este...troço. Seja na versão estendida com cinco horas de duração ou na versão editada especial do diretor, que serve como bônus do DVD. Dá no mesmo. Acaba sendo tudo um lixo no fim das contas.

TEIA DO ARANHA # 4 (Compila a minissérie “Spider-Man: Clone Saga” 1-6)
Roteiros: Tom DeFalco e Howard Mackie
Arte: Todd Nauck
Páginas: 148
Preço: R$ 14,90
Editora: Panini Comics

Nenhum comentário: