14/02/2011

.: QUADRINHOS .: Mesmo Delivery

Erro meu, erro total meu. Mas ainda não tinha tido a oportunidade de ler "Mesmo Delivery", obra mais do que definitiva do brasileiro Rafael Grampá. Quase três anos depois do lançamento, em uma destas Fest Comix da vida, tratei de adquirir um exemplar para a minha coleção pessoal dentro de uma polpuda lista de compras. E, rapaz, digo apenas que não poderia ter valido mais a pena.

Quem acompanha este blog deve ter lido o que escrevi sobre "Red", a HQ de Warren Ellis que foi adaptada para o cinema, em um filme com Bruce Willis e Helen Mirren. O que eu disse naquele post foi que o escritor não conseguiu aproveitar as poucas páginas que tinha disponíveis para desenvolver os personagens da maneira que poderia. Em um conto curto, o autor acabou limitado pelo formato e rendeu-se a um formato raso e sem criatividade.

O que acontece com Grampá em "Mesmo Delivery" é literalmente o oposto. O brasileiro se entrega de maneira furiosa às poucas páginas que tem em mãos para criar, desenvolvendo uma trama ágil, rápida, inteligente e ainda assim repleta de sub-tramas que a imaginação do leitor vai preenchendo sem dificuldades, sempre com um delicioso gosto de quero mais. Os coadjuvantes não estão simplesmente passando por ali, eles existem por uma razão e estão vivos, com personalidade própria, com uma história paralela particular. Uma espécie de road movie pelas empoeiradas e esquecidas estradas norte-americanas, "Mesmo Delivery" é forte, intenso, violento, sangrento. E, ao contrário de "Red", tem motivos para ser assim. Bebendo na fonte de nomes como Tarantino e cineastas de faroeste como Sérgio Leone, Grampá transforma a violência em arte.

Com uma arte que é puramente visceral, o artista faz experimentações alucinantes enquanto mergulha nas seqüências cinematográficas. Sua arte altamente detalhista tem um quê de quadrinhos indie, misturada a uma falta de pretensão típica de quem desenha na revista MAD, sabe? E isso é ótimo! Pode-se descrever a história assim: dois camaradas com cara de poucos amigos levam uma carga misteriosa dentro de um caminhão. Estacionam em um restaurante de beira de estrada. Se envolvem em uma confusão com os baderneiros locais, que também têm cara de poucos amigos. E enquanto um deles deve se arrepender de ter entrado nesta roubada, o outro vai revelar no fio da navalha que o inferno está logo ali. Saiba apenas isso e já está mais do que bom.

Ler "Mesmo Delivery" me fez pensar que Grampá deveria fazer adaptações de canções do Matanza. Ou vice-versa. Ler "Mesmo Delivery" me fez pensar em uma adaptação para um curta-metragem - com trilha-sonora do Matanza, sei lá. Ler "Mesmo Delivery" me fez pensar em uma nova série para a HBO. Se um gibi de meras 48 páginas causa tantas reações assim, é sinal de que o autor acertou em cheio. Recomendação máxima deste blogueiro que vos escreve.

MESMO DELIVERY (Idem)
Roteiro e Arte: Rafael Grampá
Editora: Desiderata
Formato: 17 X 26 cm
Páginas: 48

Preço: R$ 39,90

Um comentário:

fofolete disse...

Rapaz, anos depois, eis que dou uma busca do meu nome no santo google e caio no seu blog citando uma frase minha ("sou da época que se alguém falasse em X-Men, a maioria achava que se tratava de um sanduíche de algum bar gay"). Tinha esquecido do seu blog, na verdade de TODOS os blogs, até pouco tempo atrás. E já que tombei aqui, li o post do Delivery, puta troço bom mesmo, viu. Abração!