04/03/2011

.: QUADRINHOS .: The Umbrella Academy

A imprensa responsável pela cobertura do ambiente cultural (e eu posso ser incluído aí, claro) tem uma mania hiperbólica e insuportável de querer eleger the next big thing. Não são raras as bandas que a imprensa musical coloca no papel de "novo Nirvana", "novo Metallica" ou até "os novos Beatles". Não são raros os filmes que determinados críticos de cinema chamam de "o novo Ciaddão Kane". E os nobres colegas que cobrem quadrinhos parecem estar sempre buscando um "novo Watchmen" para chamar de seu.

Quando a banda norte-americana My Chemical Romance ampliou os limites de seu rock de inspiração emo e lançou a ópera rock "The Black Parade", foi como se os críticos de música se convulsionassem em um orgasmo múltiplo coletivo. Um saco. Porque o disco até que é bom, preciso confessar. Mas está longe de ser excepcional, monumental, incrível, o ápice da criatividade roqueira dos últimos anos. Nada de tantos adjetivos. Da mesma forma, o gibi de super-heróis "The Umbrella Academy", não por acaso escrito por Gerard Way, líder e vocalista do My Chemical Romance, chegou a ser alçado pelos críticos especializados em HQs ao status de "redefinição do gênero de super-heróis". Até o Grant Morrison entrou nessa. Menos, minha gente, menos.

Não que a história da família de bebês superdotados transformada em grupo de vigilantes mascarados seja ruim. É uma trama divertida, tem bom timing, tem personagens interessantes, um senso de humor na medida certa. Mas está anos-luz distante de poder ser comparada à obra de Alan Moore. E não porque eu seja um fã xiita que não aceita o advento de novidades, muito pelo contrário. Seria lindo ver o surgimento de um autor que virasse todo o gênero do avesso como fez o barbudão inglês, que fizesse Moore comer poeira. Mas Way precisa comer muito feijão com arroz para chegar lá. E, de novo, não é culpa dele, o cara não se vendeu assim, não quis de maneira alguma cultivar esta imagem - mas os amiguinhos jornalistas não demoraram a tacar-lhe esta pecha. E isso é perigoso demais para o futuro do coitado, vai que ele acredita. Vai virar a Mallu Magalhães dos comics.

A dinâmica entre os heróis é bem clichê, do líder relutante e atormentado ao rebelde sem causa que rompe com o grupo e se redime no final, passando até pelo vilão rejeitado pela equipe que se revolta contra ela. Por mais que a perfumaria seja diferente, se trata de puro reflexo/colagem de coisas que já lemos em títulos como "X-Men", "Liga da Justiça", "Vingadores" e afins, trazendo até um tantinho de "Os Incríveis" no seu DNA. As referências do escritor são bacanas, ele carrega nas tintas retrô sem ser pedante. Mas a trama se desenvolve de maneira óbvia, quase genérica, repetindo padrões aos quais todo leitor trintão como eu já está acostumado há pelo menos uma década. Não sou contra um bom arroz com feijão. Mas o tempero tem que ser diferente. E aqui, o caldo do feijão é ralo demais.

Em tempo: sem ufanismo babaca, mas a arte do brasileiro Gabriel Bá está matadora. O cara faz ecos de Mike Mignola e nos oferece cenas de ação vibrantes e soluções gráficas que, estas sim, estão longe das pastelarias ultra-musculosas de desenhistas como Jim Lee e Joe Madureira. Talvez o futuro de "The Umbrella Academy" fosse mais promissor se Way se deixasse influenciar pela pegada de Bá, afinal de contas.

The Umbrella Academy: Suíte do Apocalipse
Roteiro: Gerard Way
Desenhos: Gabriel Bá
Formato: 16,5 × 24 cm
Páginas: 188 páginas
Editora: Devir
Preço sugerido: R$ 34

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