11/03/2011

.: TELEVISÃO .: O que Charlie Sheen poderia aprender com Charlie Harper

Quando Charlie Sheen começou a viver, na bem-sucedida série “Two and a Half Men”, o músico bon-vivant Charlie Harper, não foram poucos os segmentos da indústria que disseram claramente: aquela era uma versão romanceada do próprio Sheen. Hoje, depois de todas as manchetes sensacionalistas das quais o sujeito tem sido protagonista, envolvendo brigas, palavrões, prostitutas, bebidas e drogas, o que a gente consegue entender claramente é que Charlie Harper é uma versão bem mais light do próprio Charlie Sheen, numa boa.

Charlie Harper enche a lata, bebe até cair. Mas sabe fazê-lo com classe, sem perder o requinte e o bom humor. Charlie Sheen se tornou um daqueles beberrões chatos, briguentos, que falam alto e arrumam confusão com todo mundo no boteco – ou, no caso, no set de filmagem.

Charlie Harper é o típico malandro, trabalha quando quer e para quem está afim. Mas sabe bem que o segredo de se manter na indústria do entretenimento é não morder justamente a mão daqueles que lhe estenderam quando mais precisou. Ou Sheen realmente acha que “Two and a Half Men” era apenas ele? E que ele ainda podia ser considerado qualquer coisa em Hollywood antes de Chuck Lorre, o mesmo Chuck Lorre que ele tanto critica e para o qual cria tantos apelidos nazistas, tê-lo tirado das trevas do abismo e dado a ele um papel sob medida, um presente para que Sheen então fizesse seu retorno triunfal?

Charlie Harper é um conquistador nato, sai com dezenas de mulheres diferentes. Mas sabe como tratar muito bem cada uma delas, inclusive aquelas que paga. Faz as mulheres se apaixonarem por este canalha sedutor, faz até as mais puritanas pedirem bis. Charlie Sheen é um escroto que batia nas muitas mulheres que passaram em sua vida, que se apóia em atrizes pornô que estão nessa apenas para aparecer, sem qualquer compromisso com o homem, mas sim com a estrela e seu imenso potencial polêmico.

Sinto, mas receio ter que discordar do guitarrista Slash na frase que eu mesmo coloquei por aqui, alguns posts abaixo. Charlie não é um personagem rock ‘n roll – pelo menos, não do rock ‘n roll que eu gosto de ouvir. Já passamos desta fase dos rockstars dos anos 70, que cheiravam carreiras imensas, que quebravam os quartos de hotéis, que jogavam televisões pela janela. Chega deste papo de “meus heróis morreram de overdose”. Ser rock ‘n roll é ter atitude, é ter opiniões fortes, é não precisar se dobrar a ninguém. Ser podreira não é ser rock ‘n roll. Charlie Sheen não é rock ‘n roll. Lemmy Kilminster é rock ‘n roll. Lemmy fala o que quer, sobre quem quer e para quem quer. Mas o faz com bom humor, sabendo rir de si mesmo. Lemmy sabe beber, sabe tomar seus porres, sabe fumar seus cigarros. E, ainda assim, o faz sem precisar ir parar na capa dos tablóides em fotos descabeladas e com olhar perdido. Lemmy é rock ‘n roll. Charlie Sheen é um idiota.

Quando um artista cai de tal maneira de cabeça nas polêmicas e barracos, não sobra nada divertido. Um astro bagaceira assim, como uma Amy Winehouse que mal consegue se manter de pé no palco e que entra e sai repetidamente de clínicas de reabilitação, não é bacana, não é descolado, não é hype, não é cool. É talento demais desperdiçado, amassado, cuspido e atirado no lixo. É apenas e tão somente triste, muito triste. Eu diria mais: diria que é deprimente. Charlie Sheen está jogando sua vida fora ao criar um novo personagem para si mesmo, um Charlie Sheen que ele quer convencer ao mundo que é estiloso, numa eterna postura de “foda-se”. E o pior é que tem gente que acredita. Se você é um destes, um dos mais de 2,5 milhões de seguidores que surgiram instantaneamente no Twitter do cara, um dos muitos que o fazem acreditar de fato que está na moda, na crista da onda, parabéns. A culpa, meu caro, também é sua. Você alimenta este mito estúpido.

Charlie Harper é um personagem que entrou para a história da TV. Charlie Sheen é só uma daquelas estrelas decadentes que a gente vê no TMZ. E esquece no dia seguinte.

4 comentários:

MBari disse...

Muito bom, isso mesmo, parabéns Cardim.

MBari disse...

Muito bom, isso mesmo, parabens Cardim.

Sandro Ribeiro disse...

'Nuff said.

Ana Cláudia Tolezano disse...

Ótimo post!!! Traduz o que eu sempre pensei desse desespero dele por atenção! Aliás, gosto muito desse blog, acompanho sempre que posso! Conheci por meio da minha irmã, Daniela Madureira, que já trabalhou com você =) Eu tô no último ano de Jornalismo, e ler textos legais como os seus sempre me servem de inspiração! Parabéns pelo blog!