11/04/2011

.: CINEMA .: Rio


De todas estas mega-franquias infantis surgidas nos cinemas nestes últimos anos, talvez a que menos me chame atenção seja mesmo "A Era do Gelo". Tenho inclusive a impressão de já ter dito isso quando escrevi sobre "A Era do Gelo 3", não me lembro, posso estar ficando velho e enfadonho. Enfim.

O fato é que isso dá uma medida de quanto eu estava empolgado por "Rio", animação inédita dirigida por Carlos Saldanha, brasileiro como eu e você, o mesmo nome responsável pelo sucesso de Scrat e seus companheiros pré-históricos. Quando comecei a ver os primeiros vídeos, no entanto, preciso dizer que fiquei de fato encantado. Os personagens me pareciam bastante simpáticos, divertidos, carismáticos, com vida própria, sinal de que a coisa estava caminhando bem. Neste final de semana, depois de um verdadeiro bombardeio midiático sobre o filme, depois de tantas manchetes sobre a presença dos dubladores originais em terras brasileiras, enfim levei minha filha (que estava mais do que ansiosa pelo filme, é bom que se diga), para assistir ao dito cujo.

Olha...o filme é realmente uma graça. Os personagens são cativantes, envolventes, bem-desenvolvidos. O que não faltam são boas piadas, gags musicais garantidas especialmente pelo delicioso elenco de coadjuvantes. Dublados originalmente por Will.I.Am e Jamie Foxx, o pássaro de cabeça vermelha Pedro e o canário Nico são um caso à parte, a dupla que fica o tempo todo tentando reunir os pombinhos (ou, no caso, araras) principais tenta arrumar uma trilha sonora ideal para qualquer ocasião.

Não que a história seja um primor de criatividade. Estamos falando de mais um daqueles filmes que qualquer um com metade do cérebro consegue prever do início ao fim. Uma arara-azul macho que foi criada como bicho de estimação nos EUA, cheia de mimos e sem nunca aprender a voar. Mas ela é o último macho da espécie. Um pesquisador brasileiro encontra a última fêmea da espécie. E resolve trazer o bicho e sua dona, uma tímida dona de livraria, para o Brasil, para fazer com que os dois acasalem (as araras, não a dona e o cientista). A ação se passa toda no meio do Carnaval. E uma trupe de traficantes de aves exóticas está de olho no casal, transformando uma catatua psicótica em vilão. Os clichês estão lá, a todo vapor, você sabe exatamente e sem medo de errar quando vão acontecer as viradas na trama. Preencha as lacunas, você nem precisa chegar ao final deste post para imaginar como a história termina.

Mas isso não estraga a experiência, sério mesmo.

O que me fez sair do cinema com uma pontinha de desapontamento foi o retrato feito do Brasil. Não o retrato visual, entenda-se bem. A equipe de animadores de Saldanha fez um trabalho glorioso, primoroso, chega a encher os olhos ver o quão é bonita aquela Cidade Maravilhosa, tanto nas tomadas áreas grandiosas quanto nos takes mais específicos, tudo é uma reprodução fiel e detalhada, quem se interessa pelo lado técnico da coisa vai mesmo ficar de queixo caído.

Não foi isso que me incomodou. Mas sim o fato de que Saldanha, brasileiro como eu e você, perdeu a chance de fugir do estereótipo babaca e óbvio que grande parte dos gringos faz de nós. "Rio" mostra os brasileiros como sendo apenas e tão somente futebol, samba, curtição, malandragem. E favela. E só isso. Tá bom, este aqui é só um filme infantil, não é um manifesto político (embora sirva como propaganda ideal para a Copa do Mundo e as Olimpíadas em nossas terras). Mas Saldanha, insisto, é brasileiro. Viu durante muitos anos como o cinema produzido em Hollywood insistia em nos retratar. E agora que está lá, na meca dos orçamentos multimilionários, bingo: aponta para o Brasil e nos mostra como um multicolorido país de mulatas sambando. Saldanha virou gringo.

Era apenas um divertido e despretensioso filme infantil. Mas dava sim para tentar, pelo menos tentar, apresentar um Brasil menos padrão. Esta era a sua chance, Saldanha. E você perdeu. Se quiser fazer uma continuação, vê se não erra na próxima.

RIO (Idem, 2011)
Direção: Carlos Saldanha
Com as vozes originais de: Jesse Eisenberg, Anne Hathaway, Will.I.Am, Jamie Foox, Jane Lynch, Rodrigo Santoro, Wanda Sykes

2 comentários:

Velton Clarindo ✍ disse...

Quando vi o trailer do longa fiquei decepcionado. Saldanha acentuou o esteriótipo brasileiro, que a tempos tentamos derrubar. Uma pena.

Helton disse...

Dizer isso justamente de um brasileiro é decepcionante.