30/05/2011

.: CINEMA .: Thor

Antes de ir aos cinemas ver a incursão da Marvel com o seu poderoso Deus do Trovão, admito que cometi um pecado: li uma porrada de críticas, tanto brasileiras quanto gringas, em blogs de fãs, em informativos especializados, em sites de amigos, em revistas mensais e semanais com pouco ou quase nenhum conhecimento do mundo dos gibis. Isso é um pecado pra mim, preciso admitir, porque isso é o tipo de coisa que faço muito raramente – quando se trata, é claro, de um filme que quero muito ver.

E “Thor” era um destes lançamentos que eu esperava desde o momento em que foi anunciado. Afinal, estamos falando de um dos personagens da Marvel que eu mais gosto, vindo logo depois do Homem-Aranha e do Surfista Prateado. E também sou um apaixonado por mitologia nórdica, então juntou a fome com a vontade de comer. Mas li esta batelada de críticas porque estava curioso, confesso. Vi uma quantidade de comentários negativos que se equivalia à quantidade de avaliações positivas. Depois de assistir ao filme – do qual gostei bastante, apenas para começar a conversa – retornei a alguns destes comentários negativos. E me surpreendi. Não que o filme seja perfeito e esteja imune a críticas. Aliás, nenhum filme está imune às críticas, qualquer um tem o direito de achar o que bem entender, de gostar ou desgostar. Mas achei alguns argumentos tão...tão...sinto muito, mas tão idiotas. Desta forma, vou usando um expediente nada inédito para ir contando um pouco do que achei do filme, usando como parâmetros alguns dos comentários que andei lendo por aí.

“Este não é o Thor que eu conheço”. Não, não é mesmo. Ainda mais se você é do tipo fã de HQs tradicionalista, que queria ver a visão pura e santificada de Stan Lee/Jack Kirby e Walt Simonson nas telonas. Com toda a razão, o diretor Kenneth Branagh preferiu contar uma história de origem inspirada na original, que é uma jornada clássica do herói, mas dando ao personagem principal um tratamento que lembra a sua versão Ultimate, exatamente como aconteceu com a transposição do Homem de Ferro para as telonas. Este Thor é bastante arrogante, tem um bem-vindo toque de humor e é, conforme as moças podem atestar, bastante sensual em seu jeito selvagem de ser. Tudo proposital. E funciona que é uma beleza. Adoro ler e reler a recente versão do J. Michael Straczynski para o filho de Odin. Mas Branagh fez bem ao incorporar apenas e tão somente a relação direta entre os deuses asgardianos caindo na Terra com uma pequena cidadezinha norte-americana com ares interioranos. O Thor de Straczynski e de Simonson é tão superior, tão acima do bem e do mal, tão poderoso e supremo, que simplesmente não funcionaria. Já este híbrido com o Thor Ultimate é mais cheio de defeitos, mais verdadeiro, mais humano, eu diria. E isso justifica o seu exílio em nosso planeta, cortesia de Odin. Também funcionam bem as cenas nas quais as pessoas desconfiam deste papo de guerreiro vindo de Asgard, exatamente como acontecia no primeiro arco de “Os Supremos”. O estreante Chris Hemsworth desempenha muito bem, com a dose certa de carisma e sem comprometer. E se a sua preocupação é com o fato de que ele passa a maior parte do filme sem o elmo de asas, na boa, você tem problemas.

“Esta Asgard não tem nada de fantasia medieval!”. Ah, entendi. Você queria ver uma Asgard do tipo “O Senhor dos Anéis”, só porque o Tolkien se inspirou nas lendas nórdicas e em histórias como “O Anel dos Nibelungos”? Discordo totalmente. No próprio filme, Thor explica para a Dra.Jane Foster (Natalie Portman) que sua terra é um misto de magia e ciência – e isso fica claro no cenário majestoso, lindo e dourado da cidade. Estamos falando de uma raça de seres superiores de outra dimensão e que acabaram sendo adotados como deuses pelos povos escandinavos. E por favor: nem me venha dizer que você queria que a ponte do arco-íris fosse, como nos gibis, um arco-íris literal. A migração acionada pela espada de Heimdall misturada ao equipamento com um quê de teletransportador interdimensional (o tipo de equipamento, aliás, que apenas um nerd saberia nomear) acerta na mosca. Não tinha qualquer necessidade de ser algo diferente. Além disso, isso permite uma virada final até certo ponto surpreendente e emocionante. Não vou entrar no mérito, porque isso remonta ao fim do filme. Mas só mesmo Thor seria capaz de uma decisão como aquela.


“Onde estão as batalhas épicas que eu esperava?”. E você estava esperando batalhas épicas exatamente por que motivo, cara pálida? Ah, é, a mesma história de “O Senhor dos Anéis” do parágrafo passado. Esta é uma história de origem, sobre um Deus que comete uma cagada se achando melhor do que seu pai e pronto para assumir o trono. É uma história de redenção, de um sujeito que finalmente se faz digno de erguer o mítico Mjolnir. Mas há de se convir: quando os Gigantes do Gelo invadem misteriosamente o cofre de relíquias de Odin e Thor pira, considerando aquilo uma declaração de guerra, a luta que se segue é espetacular. Ladeado pelos Três Guerreiros (Hogun, Fandral e um Volstagg bem mais magro do que deveria, mas tudo bem), ele invade Jotunheim e desafia o líder dos Gigantes e uma aliança de paz até então duradoura com Asgard. E o Deus do Trovão gira seu martelo, joga o dito cujo pra lá e pra cá, sai voando pra todos os lados, invoca o poder dos trovões e até derruba um monstro pelo menos 100 vezes maior do que ele. Tão mágico quanto o momento em que ele retoma o Mjolnir na Terra (outro spoiler que não entrego de jeito nenhum) e encara frente a frente o monstro mecânico conhecido como Destruidor, criado por seu pai para proteger seus artefatos místicos e que vai parar em Midgard e passa a ameaçar os mortais por um motivo muito especial. Thor invoca um tornado e chuta a bunda da aberração metálica.

E quanto ao aguardado duelo final entre Thor e seu irmão adotivo Loki, sem palavras. Mas menos pela pancadaria e mais pela interpretação de Tom Hiddleston, que simplesmente rouba a cena – e todo o filme, devo dizer. A partir do momento em que ele descobre sua real origem e torna-se de um deus brincalhão em um verdadeiro vilão, Tom dá um show. Do momento em que questiona Odin (Anthony Hopkins, muito bom como de costume) até o enfrentamento final com o irmão mais loiro e fortão, passando pela memorável cena na qual visita Thor engaiolado e, depois, tenta erguer o Mjolnir, sem sucesso. Ator soberbo. O filme d’Os Vingadores terá, de fato, um vilão de responsa.

“Cadê a identidade secreta do Thor? Ele tinha que se transformar no Dr.Donald Blake”. Não, não tinha. Isso faria sentido na década de 60. Mas a punição de Odin para seu filhote cheio de si foi mais do que colocá-lo no corpo de um homem manco. Foi mandá-lo sem poderes para uma dimensão simplória e colocar um encantamento em seu armamento de batalha, seu parceiro inseparável, impedindo-o de erguer a arma enquanto não fosse digno. Quando ele tenta, em vão, debaixo de uma chuva torrencial, e grita de ódio, depois ajoelhando-se em decepção, é um momento épico mesmo. Aqui, Donald Blake seria apenas uma confusão adicional. E a forma encontrada pelos roteiristas para colocar o bom doutor na parada foi bastante criativa, eu diria. Mas você deve ser daqueles que, por algum motivo, se incomodaram com o fato de um ator oriental interpretar Hogun e de um ator negro viver Heimdall. Então não vou discutir com você, seu mala.

“Este Thor nem é tão forte, ele apanha demais para um Deus do Trovão!”. Você parece realmente não ter entendido que, quando foi mandado para a Terra por Odin, Thor perdeu a maior parte de seus poderes divinos e, portanto, poderia contar apenas com sua altura e constituição física – além, é claro, do treinamento em combate – para defender-se. É assim que o sujeito invade a instalação secreta da SHIELD formada ao redor do artefato que caiu dos céus e dá um pau nos agentes mais bem-treinados da organização, sendo fitado de longe pela flecha de Jeremy Renner, no papel do Gavião Arqueiro, com um jeitão mais Ultimate do que qualquer outra coisa. Foram poucos minutos de Renner em tela. Mas já ficou um gostinho do que ele pode desempenhar no filme da equipe de super-heróis no ano que vem.

“E este romancezinho do camarada com a Natalie Portman. Coisa mais chumbrega”. Não achei. Pra mim, pode ter sido uma paixão quase relâmpago. Mas funcionou. E o final só ajuda a dar corpo e forma a este sentimento. O que não funciona de fato, e acho que é o principal defeito da película, é aquele menina pentelha que atende por estagiária da Dra.Foster. Tentaram transformar a sujeita em alívio cômico, em um elo de ligação com a juventude, sei lá, conectando piadinhas com o Facebook e o iPod. Mas não. Kat Dennings pode ser uma gracinha. Só que tudo que senti foi vontade de esmagar eu mesmo a cabeça dela com o Mjolnir.

“O filme do Homem de Ferro é melhor!”. Eu me sinto ligeiramente inclinado a concordar – pelo menos, no que diz respeito ao primeiro filme. Mas ainda acho uma comparação injusta, já que são personagens muito diferentes e abordagens bastante díspares. Além de ter gostado de “Thor”, ainda fiquei, como bom nerd, alucinado pelas muitas referências. Está lá a aparição de Stan Lee, estão lá às menções veladas ao próprio Homem de Ferro e ao Hulk, está lá o enorme outdoor com a inscrição “Journey Into Mystery” (revista na qual Thor fez sua primeira aparição, em 1962, na edição de número 83). Ah, é: nem sei se preciso dizer, mas não se atreva a sair do cinema até que os créditos terminem. A cena reservada para o final é gloriosa. E Samuel L.Jackson (vulgo Nick Fury) está nela, assim como Loki. E um elemento que faz ligação direta com o filme do “Capitão América” e com o filme dos “Vingadores”. E você reparou que até o J. Michael Straczynski faz uma aparição especial? Pois deveria manter o radar nerd mais atento, meu caro.

THOR (Idem)
Diretor: Kenneth Branagh
Roteiro: Ashley Miller, Zack Stentz e Don Payne
Elenco: Chris Hemsworth, Natalie Portman, Tom Hiddleston, Anthony Hopkins, Stellan Skarsgård, Kat Dennings, Clark Gregg, Idris Elba, Colm Feore, Ray Stevenson, Tadanobu Asano, Josh Dallas e Jaimie Alexander

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