02/05/2011

.: QUADRINHOS .: Bando de Dois

Há algum tempo, havia quem reclamasse que, a exemplo do cinema nacional, as nossas HQs costumavam seguir um tipo obrigatório de narrativa: aquelas que não eram de humor e/ou de fundo filosófico-cabeça seriam cópias descaradas dos gibis de super-heróis norte-americanos ou então de terror ou então de sexo ou então sobre a história do país ou ainda versões Nona Arte dos chamados favela movies. E parava por aí. Estes mesmos críticos, no entanto, tiveram que engolir nos últimos anos o estereótipo típico que tinham construído do que seria um gibi brasileiro ao se depararem com o trabalho de feras como os gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá, Rafael Coutinho (herdeiro do mestre Laerte), Rafael Grampá e um certo Danilo Beyruth. Este último, um talentoso artista paulistano, deslanchou na carreira com “Necronauta”, incursão pelo gênero super-herói que estava muito longe de ser óbvia e genérica. Mas o sujeito mostrou mesmo a que veio com uma pequena obra-prima chamada “Bando de Dois” – e que, merecidamente, andou papando todo e qualquer prêmio que via pelo caminho.


O que diabos é “Bando de Dois”, afinal? É, essencialmente, uma história de cangaceiros. Mas não pense você que estamos falando de uma daquelas histórias de Lampião, altamente regionalizadas e que atrairiam apenas uma parcela dos brasileiros e causariam, no máximo, curiosidade nos gringos. Sem nunca deixar de respeitar a nossa herança cultural, Beyruth fez uma obra riquíssima em detalhes (tanto na trama quanto na arte, basta reparar nos cenários e nas vestimentas dos personagens), mas usando e abusando da linguagem cinematográfica. E quando falo em cinema, não quero dizer apenas nos enquadramentos ou ângulos de câmera, que ele usa muitíssimo bem. Quero dizer também no timing e no andamento da história. A história de cangaceiros de Beyruth é praticamente um western brasileiro, de tão forte e sedutora, de tão poderosos e carismáticos que são seus anti-heróis. Diria mais: “Bando de Dois” é tipicamente Sergio Leone, aquele bangue-bangue do tipo spaghetti, repleto de cinismo, violência e certa dose de humor negro.

“Bando de Dois”, como o título entrega, gira em torno dos dois últimos sobreviventes de um bando que antes era formado por 20 cangaceiros – mas que, encurralado pelas autoridades, acaba dizimado. A dupla parte em busca das cabeças decepadas de seus companheiros, que serão expostas em praça pública. O primeiro deles, babando de vingança, anda tendo sonhos apavorantes com os companheiros mortos, sempre exigindo o sangue dos oficiais. Já o segundo também quer as cabeças dos colegas, só que por um motivo bem diferente. No meio do caminho dos dois, um pequeno vilarejo esquecido no meio do nada e reunido em torno de uma igreja, dentro da qual seus moradores terão que rezar muito se quiserem continuar vivos. E está mais do que bom. Contar mais seria realmente estragar a experiência.

Além de costurar cenas de ação sólidas e cheias de adrenalina, outra marca da arte de Beyruth é a intensidade de suas expressões faciais. Tudo é tão real, verdadeiro e vivo que, sim, você realmente acredita que estes personagens estão gargalhando, espumando de ódio ou sentindo dor. Pena que a história é curta. Porque, na boa, eu leria pelo menos mais uns quatro ou cinco volumes de “Bando de Dois” numa boa.

Danilo Beyruth. Tá aí um nome para ficar de olho.

BANDO DE DOIS
Roteiro e arte: Danilo Beyruth
Editora: Zarabatana Books
Formato: 21 x 28 cm
Nº de páginas: 96 páginas
Preço: R$ 36,00

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