13/07/2011

.: 5 PERGUNTAS PARA... Ricardo Seelig (Editor do Collector's Room)

1) Os recentes avanços digitais definitivamente mudaram o mundo da música, para o bem ou para o mal, seja entre os artistas, seja nas salas dos executivos engravatados, seja na forma de consumir a música como produto. Estas mudanças também trouxeram algum tipo de mudança para a atividade de crítico musical?
Hoje, o acesso à informação é muito mais fácil. Até pouco tempo atrás, um lançamento chegava bem antes na mão de um crítico do que do público em geral. Hoje, discos vazam toda semana, mas a opinião diferenciada de um bom crítico musical continua sendo importante. A diferença principal que eu vejo é que essa nova realidade permite uma troca de informações muito interessante com os ouvintes, que ao lerem uma crítica podem ouvir o álbum no mesmo momento e compartilhar as suas impressões com o autor do texto. Escrever sobre música é uma atividade muito prazerosa, mas ao mesmo tempo vem com uma responsabilidade imensa. Um crítico tem que conquistar a sua reputação junto ao ouvinte, que vai percebendo que tal jornalista tem opiniões parecidas com as suas e, assim, vai aprendendo a confiar mais em determinados críticos do que em outros. Em termos práticos, a principal mudança é que antes as gravadoras enviavam os álbuns ou os promos em formato físico para as resenhas, e hoje muitas delas apenas disponibilizam arquivos digitais para audições, o que, ao meu ver, torna a avaliação do material incompleta não só pela qualidade sonora inferior, mas também porque um álbum não se resume somente à música que ele contém, mas também a todo o conceito gráfico por ele proposto.

2) Num mundo no qual qualquer um pode postar sua opinião em qualquer canto da web de qualquer canto do mundo, você acha que se "desvalorizou" ou "descredibilizou" de alguma forma o trabalho dos críticos mais profissionais, digamos assim?Acho que não, Thiago. Essa nova realidade democratizou mais a coisa, tornando possível a qualquer um dar a sua opinião sobre qualquer assunto, mas é preciso separar o joio do trigo. No geral, a opinião do fã vem carregada de uma paixão e uma parcialidade imensas, o que torna a sua avaliação bastante questionável. Já com um crítico musical – pelo menos com os que levam essa atividade a sério – isso não acontece. E mais: não é porque a internet tornou possível qualquer um publicar um texto que a atividade do crítico musical caiu em descrédito. Um crítico diferenciado, além do conhecimento musical privilegiado, tem um estilo próprio em seu texto, uma forma ímpar de analisar uma obra, uma bagagem por trás de cada resenha. Não dá para comparar, por exemplo, a opinião e o texto de um fã ou internauta qualquer com o que escrevem caras como Ricardo Batalha, Bento Araújo, Sérgio Martins, Regis Tadeu, Fábio Massari e Kid Vinil, por exemplo. O conhecimento e a experiência fazem uma grande diferença no resultado final, e continuarão sempre fazendo.

3) Ser crítico e ao mesmo tempo um fã tão apaixonado por música é, de alguma forma, um contrasenso? Você consegue equilibrar estes dois lados e, se for o caso, ser duro com o lançamento de uma banda favorita caso seja necessário?
Acredito que esse é um processo pelo qual toda pessoa que resolve escrever sobre música passa. A maturidade e a experiência fazem com que a gente aprenda a separar as coisas. É claro que isso se dá com alguns erros e pisadas de bola pelo caminho (no meu caso, procurem uma resenha do álbum "Dance of Death" do Iron Maiden no Whiplash e percebam isso), mas esse processo faz parte do aprendizado de cada um. Falando exclusivamente da minha experiência pessoal, sou um grande fã do Iron Maiden, e, tendo isso em mente, sempre procuro me policiar quando escrevo sobre a banda. Não quero que meus textos sobre o Maiden sigam o caminho daqueles publicados sobre a banda na Rock Brigade, por exemplo, onde, por mais questionáveis que fossem os trabalhos lançados pelo grupo, eles sempre era elogiados. É um processo demorado e difícil, mas necessário para quem se propõe a escrever sobre música.

4) Na sua opinião, quais são as três principais virtudes que um bom crítico musical precisa ter - e qual é aquele pecado mortal que ele jamais poderia cometer?
Eu gosto de críticas que fazem pensar, que apresentam um raciocínio a respeito da obra analisada para o leitor. Acho resenhas que se limitam apenas a listar as faixas de um álbum muito limitadas. Gosto de reviews que analisam a obra como um todo, de forma completa. Para mim, as principais virtudes de um bom crítico são a capacidade de análise de um obra, ter um texto com identidade própria e não ter medo de falar a verdade sobre a obra analisada, seja um elogio ou uma crítica mais pesada. E o pecado mortal é produzir textos com o rabo preso, não falar mal de tal disco porque tem uma relação pessoal com a banda ou com a gravadora. Eu acho que, no geral, principalmente na crítica especializada em heavy metal aqui no Brasil, falta um posicionamento mais claro por parte da maioria dos resenhistas, que parecem ter medo de falar o que pensam sobre determinados álbuns e artistas. É preciso ter posições mais claras e sair de cima do muro. Não dá pra ter medo de falar mal de um álbum do Iron Maiden, por exemplo, se a sua opinião sobre o disco for essa. Quando uma crítica é bem escrita e tem bons argumentos, eu posso até não concordar com a opinião do autor, mas vou respeitá-la. Agora, quando ela é vazia e elogia por elogiar ou malha apenas por malhar, sem maiores justificativas, ela não serve para nada e é apenas um amontoado de palavras sem sentido.

5) Você já passou pela situação de ter o próprio artista do disco resenhado vindo comentar - bem ou mal, quem sabe - sobre a sua resenha?
Não. Acho que o fato de eu não morar em São Paulo – resido em Florianópólis -, onde as coisas acontecem e onde a maioria das bandas está, me dá uma certa autonomia. Não tenho relação pessoal com nenhuma banda ou veículo, e isso faz com que eu não tenha o rabo preso. Nenhuma banda veio tirar satisfação comigo sobre uma resenha até hoje, mas aí se aplica o seguinte pensamento: “você é um bom crítico até falar mal de algo que eu gosto”. O que já aconteceu, acontece e sempre acontecerá são os fãs tomando as dores de determinado grupo e partindo pra cima em fóruns e redes sociais, alguns inclusive enviando e-mails me ameaçando de agressão. Isso ocorreu recentemente devido a uma crítica que fiz para o novo álbum do Arch Enemy, e já ocorreu antes com resenhas de discos para bandas como Primal Fear e o próprio Iron Maiden. Mas, sinceramente, são reações a que nós, que escrevemos sobre música, estamos sujeitos. Outro ponto que acontece frequentemente comigo é que, por eu ouvir diversos estilos musicais e deixar isso claro, uma parcela considerável de leitores acha que eu não posso avaliar um álbum de heavy metal por ter escrito textos já sobre jazz, blues, MPB e afins. Mas, nesses casos, gosto de provocar o leitor e levar até ele textos que eu sei que causarão estranheza, como foi o caso recente de um review que escrevi para o último álbum da Lady Gaga. Enfim, concluindo, quem escreve sobre música está sujeito a reações adversas sobre o seu trabalho, e se elas vierem argumentadas e com um pingo de bom senso e educação serão levadas em conta, mas quando descambam para a agressão pura e simples acabam sendo ignoradas e viram piada.

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