05/07/2011

.: CINEMA .: Carros 2

Assim que a Pixar anunciou que seu próximo filme seria a continuação de “Carros”, juro que senti um frio na espinha. Sempre achei “Carros”, de longe, a produção mais fraca da filmografia da empresa de John Lasseter e sua trupe – mais frágil e sem vida, por exemplo, do que “Vida de Inseto”, que também não é lá grande coisa. Não que a história de Relâmpago McQueen seja ruim. Mas é apenas...sei lá, nhé. Divertidinho e só. Do tipo que a gente esquece assim que sai do cinema e vai comer um x-burguer (o meu de soja, faz favor). E nos últimos anos, desde “Ratatouille”, a Pixar vinha numa curva crescente de qualidade que chegava a impressionar. Bastava ver “Wall-E” (que é capaz de uma seqüência inteiramente sem falas que chega a durar mais de meia-hora), “Up – Altas Aventuras” (e sua introdução de fazer qualquer marmanjo chorar) ou mesmo “Toy Story 3” (e seu encerramento de fazer qualquer marmanjo se debulhar em lágrimas).

Recentemente, a última coisa que a Pixar vinha produzindo eram filmes “divertidinhos”. Mas minha esperança residia justamente em “Toy Story 3”. Os dois primeiros são bacanas, marcaram época, têm personagens carismáticos e únicos. Mas o salto de inteligência e de dramaticidade obtido no terceiro é perceptível. Será que o mesmo aconteceria com aquela turminha de aventureiros motorizados? Não, meu caro. Não aconteceu.

No fim das contas, é óbvio que o motivo da escolha de “Carros 2” é puramente mercadológico. Afinal, dentre as muitas produções da Pixar, qual delas você acredita que tenha mais potencial para gerar produtos licenciados? Ou alguém duvida do quão fácil seja produzir uma manada de carrinhos divertidos, colocar o logo de “Carros” e vender alucinadamente para uma horda de meninos? Tudo bem, eu entendo, estamos falando de Hollywood, todo mundo quer ganhar dinheiro, não condeno nada disso. Você nunca ia me ouvir dizer algo como “a Pixar se vendeu”. Mas assim que adentrei o cinema ao lado da minha filhota, uma parte de mim ainda esperava ver em “Carros 2” um pouco daquela Pixar que me fez chorar em “Toy Story 3”, que soube contar uma história tocante para adultos ao mesmo tempo em que ela era divertida para as crianças. Não deu.

A animação de qualidade está lá, e não dá para esperar menos da Pixar, vamos e venhamos. As seqüências de corrida são impressionantes, para fazer os tarados por automobilismo pirarem de vez. É claro que as toneladas de referências à cultura pop também estão lá, em especial aquelas saídas direto dos filmes de James Bond. E aquele bom e velho humor Pixar, sim, este está no DNA da companhia, é impossível apagar. Mas nada disso é o bastante para fazer com que o público adulto se envolva de fato com a película. Por mais dolorido que seja dizer, a Pixar fez de “Carros 2” um daqueles filmes para disputar a audiência infantil nas férias. E apenas e tão somente isso. Esta é uma decisão que não deveria me abalar, estamos falando da Disney, é um produto blockbuster for kids. Mas depois de “Up” e “Toy Story 3”, perdão, a minha barra de expectativas estava bem lá no alto.

Tá bom, então, você pode me dizer: “pelo menos o filme é uma boa diversão de final de semana para a molecada”. E eu sou novamente obrigado a discordar. Pois nem isso “Carros 2” consegue ser. E falo por experiência: não apenas a minha filha, mas um monte de pequenos em toda a sala de cinema pareciam pouco à vontade depois da primeira meia-hora de exibição. Pouquíssimas eram as ocasiões em que se ouviam as risadinhas dos pequeninos, termômetro claro do quanto o filme está indo bem. E olha que eles ainda acertaram ao colocar como grande protagonista não o veloz Relâmpago McQueen, mas sim o doce e atrapalhado guincho enferrujado Mate. Mas a história, focada em uma rocambolesca trama de espionagem, está mais para uma mistura de James Bond com Johnny English (com Mate inadvertidamente transformado em um agente secreto), deixando parte dos baixinhos um tanto confusos com os rumos do filme. Para onde eles estão indo? França, Itália, Inglaterra? O timing acelerado também não ajuda. E colocar no meio do roteiro uma discussão sobre combustíveis ecológicos versus a indústria do petróleo e ainda querer que a molecadinha entenda porque diabos todos riem dos carros considerados de modelos antigos e problemáticos é pedir muito.

Para completar, o final é desajeitado demais, uma conclusão sem ritmo que parece seguir a fórmula “Ih! A projeção está chegando ao fim! Precisamos acabar o filme o quanto antes! Corre com tudo aí, seu roteirista!”. Eles tentam resolver tudo em cinco minutos, de maneira pouco inteligente e coerente.

Se não é uma experiência memorável para os adultos e tampouco uma diversão simpática para as crianças, o que “Carros 2” é então? Ainda não consigo dizer. Você consegue?

O que dá pra afirmar, pelo menos por enquanto, é que o Oscar de animação do ano que vem definitivamente não está mais garantido nas mãos da Pixar, como em anos anteriores. E que venha “Valente”. De preferência, o quanto antes.

PS: A respeito da dublagem brasileira, vejam só. Entendo a escolha de Luciano Do Valle e José Trajano como os narradores/comentaristas da competição mundial da qual McQueen participa. Funciona. Mas chamar a Cláudia Leitte para dublar Carla Veloso, aquele carrinho-menina brasileiro? Sendo que a sujeita tem UMA fala no filme? Apenas e tão somente UMA fala? Forçou a barra. Dona Cláudia deve ter gravado sua participação em meia-hora e voltou feliz da vida pra casa, contando as verdinhas. Faça-me o favor...

CARROS 2 (Cars 2)
Direção: John Lasseter e Brad Lewis
Dublagem original: Larry the Cable Guy, Owen Wilson, Michael Caine, Emily Mortimer, Eddie Izzard, John Turturro, Brent Musburger, Joe Mantegna, Tony Shalhoub, Jason Isaacs, Bruce Campbell, Vanessa Redgrave, Cheech Marin

Um comentário:

Anônimo disse...

Concordo em tudo que vc disse, parabéns pela crítica, abraços.