19/08/2011

.: CINEMA .: Capitão América

Um dos meus filmes de aventura favoritos, uma das minhas mais deliciosas lembranças do tipo “Sessão da Tarde”, é mesmo “The Rocketeer” – produção que, cá entre nós, me frustra bastante nunca ter conseguido encontrar em DVD. O caso é que o diretor é ninguém menos do que o mesmo Joe Johnston responsável pela recente adaptação cinematográfica de “Capitão América”, o vingador bandeiroso da Marvel Comics. E isso significa alguma coisa. E coisa boa, aliás. Significa que, assim como em “The Rocketeer”, Johnston nos entrega uma aventura leve, descontraída, com a dose certa de adrenalina e bom humor, sempre com um charmoso ar retrô. O filme é exatamente aquilo que prometem os trailers e, como retorno do personagem às telonas, funciona imensamente melhor do que a vergonhosa produção de 1990, com um tosquíssimo Caveira Vermelha de origem italiana. Vamos manter este “Capitão América – O Primeiro Vingador” como a apresentação oficial do Sentinela da Liberdade no universo da Sétima Arte, melhor assim. “Capitão América” é um filme pipoca de excelente qualidade, com temperos de “Indiana Jones”, que diverte igualmente iniciados no mundo dos gibis e o público leigo, além de servir como um magnífico preâmbulo para o vindouro filme dos Vingadores (Você sabe, aliás, que não deve sair antes do final dos créditos em hipótese alguma, ok? Fui claro?).

A origem do herói funciona muito bem, apesar de uma mudança aqui e outra ali – como o fato de que, nos gibis, seu eterno parceiro Bucky Barnes (Sebastian Stan) era um moleque e os dois só se conheceram de fato no front de batalha, portanto nunca foram amigos de infância ou algo assim. A decisão tomada para o filme é excelente, transformando Barnes num homem adulto ao invés de uma espécie de réplica azul e vermelha do Robin. Por sinal, o destino reservado para Barnes já permitiria uma incursão pela excelente fase do Soldado Invernal, escrita por Ed Brubaker – e se eu disser qualquer coisa além disso, estou entregando um spoiler imenso. Por falar em Stan, ele é apenas mais um nome de um elenco de apoio muito bem selecionado, começando por Stanley Tucci como o Dr. Abraham Erskine (criador da fórmula do Soro do Supersoldado) e finalizando com o sempre eficiente Tommy Lee Jones na pele (e na farda) do Coronel Chester Phillips, comandante de Steve Rogers. Isso, é claro, sem deixar de mencionar o divertidíssimo Dominic Cooper, que faz Howard Stark (pai de Tony Stark, o Homem de Ferro) de maneira que ecoa diretamente na interpretação de Robert Downey Jr. – que será amigo de Rogers no futuro, como você bem deve saber.

Falando no protagonista, pasmem, senhoras e senhores, mas Chris Evans funciona de verdade no papel do Capitão. Eu admito que tive meu pé atrás assim que o ator foi anunciado, mas fui engolindo minhas farpas de fã xiita a cada vídeo que ia vendo o camarada envergando o uniforme multicolorido e repleto de estrelas e o escudo – que, claro, rende excelentes cenas de ação sempre que Evans o lança. O ator oferece toda a leveza necessária a um garotão de bom coração que quer lutar por seu país mas é franzino demais para isso, chegando ao ponto de aceitar ser parte de um plano experimental para a criação de um exército de soldados superdesenvolvidos. E o pior é que ele convence mesmo, transmitindo o kit de honra, coragem e ética intocáveis do Capitão. Talvez precisasse parecer um pouco mais velho na fase final do filme? Sim. Mas isso é um detalhe que passa.

Preciso dizer, no entanto, que um dos grandes trunfos de “Capitão América – O Primeiro Vingador” é o vilão, o Caveira Vermelha que Hugo “Agente Smith” Weaving incorpora de maneira soberba. Aliás, por falar no Caveira, ele é, pelo menos até o momento, o supervilão mais história em quadrinhos desta nova safra de filmes da Marvel. Nem Obadiah Stane e nem o Chicote Negro chegam a ser grandes ameaças à presença de Tony nos dois “Homem de Ferro”. Em “O Incrível Hulk”, o Abominável é só um cara grande e forte em busca de pancadaria. E no filme do “Thor”, Loki está mais para um anti-herói de coração partido – não que isso seja ruim, mas o conceito é diametralmente diferente. O Caveira Vermelha de Weaving é tipicamente egresso do mundo dos gibis: um malvadão egocêntrico, quase caricato, que quer dominar o mundo à força e comanda uma trupe militarizada (no caso, a Hidra, organização que os fãs de gibis da Casa das Idéias conhecem muito bem) e tem seu próprio cientista maluco de estimação (Arnim Zola, interpretado por Toby Jones). Arrisco dizer que Weaving praticamente rouba a cena quando irrompe suas frases feitas sobre colocar o mundo a seus pés. Frustrante mesmo é só o fato de que ele ainda não sabe muito bem o que fazer com um Cubo Cósmico em mãos... =)

Uma coisa que eu jamais poderia deixar de comentar é aquela turminha que detona o filme sem nem tê-lo visto, alegando se tratar de “propaganda americana gratuita”. Para esta gente, tenho reservada uma palavrinha em inglês mesmo: bullshit. Se fosse um cara vestindo uma bandeira do Brasil, tudo bem. Mas como é a bandeira dos Estados Unidos, não pode. Blá-blá-blá. Assim como o gibi, “Capitão América” é sobre o homem por baixo do uniforme, um soldado transformado num símbolo, não interessando que diabo de símbolo é este. Calhou de estarmos falando de um soldado americano lutando durante a Segunda Guerra Mundial. Mas não é uma história sobre os Estados Unidos ou sobre como eles são um país melhor do que todos os outros. É uma história sobre um soldado armado com um escudo – e todo o significado que isso tem (afinal é um soldado cuja principal arma é um instrumento de defesa). “Capitão América – O Primeiro Vingador” é uma opção de diversão de primeiríssima linha. Não deixe estes clichês babacas de pseudo-revolucionários que trouxeram consigo um comunismo empoeirado diretamente de suas origens universitárias estragarem sua curtição. Você merece.


CAPITÃO AMÉRICA (Captain America: The First Avenger, 2011)
Diretor: Joe Johnston
Elenco: Chris Evans, Hayley Atwell, Sebastian Stan, Tommy Lee Jones, Hugo Weaving, Dominic Cooper, Stanley Tucci, Toby Jones, Neal McDonough

3 comentários:

Igor José P.G.G. da Silva disse...

Achei o vilão do Weaving uma das piores coisas do filme. Sério.

Sobre o longa, é bacaninha, mas acaba só servindo de prévia para Os Vingadores.

Tiago disse...

"Não deixe estes clichês babacas de pseudo-revolucionários que trouxeram consigo um comunismo empoeirado diretamente de suas origens universitárias estragarem sua curtição" Perfeito! haha

Achei o filme muito bacana, também estava com o pé, melhor dizendo, com os dois pés atrás do fato do Evans ser o Capitão, mas me surpreendi positivamente!

Só discordo de que o Caveira foi um vilão melhor que o Loki, achei o caveira meio subaproveitado no filme.

Só teria um jeito desse filme ser melhor: se fosse um filme de 2ª Guerra (aqueles raios lasers, mesmo dentro do contexto do filme, me irritaram um pouco!)

accf disse...

O filme é mesmo muito, muito bom. Valeu a pena ir ao cinema. Sua crítica muito boa também.