09/08/2011

.: CINEMA .: Os Smurfs

Juro que, quando a minha filha anunciou que queria ver o filme d’Os Smurfs, senti um calafrio na espinha. Assistir ao trailer e saber que estamos falando de um filme dirigido por Raja Gosnell (responsável pelo desastre da natureza conhecido como “Vovó...Zona”) já me era o bastante. Já tinha até a abertura do texto montada na minha cabeça: “senhores ateus, sinto muito, mas vocês estavam errados. O inferno existe. E ele é azul”. Mas ao final da projeção, vi que meus planos diabólicos de decretar já em agosto que este é o pior filme do ano foram por água abaixo. Não que “Os Smurfs” seja um filme bom. Longe disso, aliás. Mas digamos que ele é melhor do que eu imaginei a princípio. Não é um pesadelo, é apenas um sonho ruim. E isso já é, vamos e venhamos, um elogio tremendo. Raja Gosnell saiu no lucro.

A história é rasa – os Smurfs vêm parar no nosso mundo por um daqueles motivos que nem vale a pena elucidar; seu pior inimigo vem logo atrás; eles acabam caindo na casa de um casal simpático e amoroso, mas cujo marido precisa encontrar o equilíbrio entre trabalho e família; e o Smurf que salva o dia é justamente aquele no qual ninguém acreditava lá no começo da trama. E você nem precisaria saber de mais nada, porque os 15 primeiros minutos já permitem adivinhar, num passe de mágica, onde vamos chegar. Apesar de ruim, “Os Smurfs” escapou de ser “ruim pacas” por conseguir arrancar algumas poucas risadas – e grande parte delas vêm de ninguém menos do que Cruel, o gato do Gargamel. O bichano, naquele esquema clichê total, é como o China para o Hong Kong Phooey: é ele quem percebe o quanto seu mestre é imbecil e que tenta, de algum forma, mostrar a luz ao atrapalhado feiticeiro de meia-pataca. É um expediente-padrão, não tem nada de novo. Mas as poucas risadas que o felino me arrancou estão entre os poucos momentos do filme que não o colocaram ladeira abaixo.

Por falar no Gargamel, ele está entre os grandes erros do filme, reservando dezenas de momentos “vergonha alheia” a um ator tão bom quanto Hank Azaria, que é dublador dos “Simpsons”, que roubava a cena em “Mad About You”, enfim. Que personagem constrangedor, repleto de piadas toscas e chulas. Tsc, tsc. Outro digno de nossa pena é Neil Patrick Harris, que faz o tipinho “publicitário estressado dedicado ao trabalho e que não sabe se vai ser um bom pai para o filho que vai nascer”. É um personagem tão, mas tão óbvio e babaca, que dá vontade de dar uns bons tapas no sujeito e dizer: “Caraca, você é um dos atores mais cool de Hollywood atualmente, você canta, dança e representa, você faz ‘How I Met Your Mother’. Quantas contas você precisava pagar para topar fazer este filme?”.

Tudo isso, no entanto, até daria para tentar (eu disse “tentar”) relevar se os roteiristas não resolvessem usar uma quantidade tão absurda e obscena de piadas com a palavra “smurf” (que os baixinhos azuis usam para tudo, desde para dizer “eu te amo” até para dizer “você é um ser humano desprezível”) ou com o fato de que os bichinhos são...bem...da cor azul (Blue Man Group, Blu-Ray, Bluetooth, e por aí vai). Acaba virando uma muleta que se prolonga mais do que, sei lá, as piadas do “Pânico” (que, conforme eu já disse aqui algumas vezes, sofre de uma gravíssima crise de timing, sem saber direito qual é o momento certo de encerrar a piada). Sério. É demais para cabeça de qualquer um. Chega uma hora que simplesmente cansa, dá vontade de gritar! Mesmo. Calma, calma, calma. Pense nas piadas com o gato, pense nas piadas com o gato.

“Os Smurfs”. Um filme salvo por um gato. Ou quase salvo. O que vocês acham disso? Um gato salvou “Os Smurfs” de ser pior do que “O Besouro Verde”. Não é demais? O mundo vai mesmo acabar.

OS SMURFS (The Smurfs, 2011)
Diretor: Raja Gosnell
Elenco: Hank Azaria, Neil Patrick Harris, Jayma Mays, Sofía Vergara, Tim Gunn . Com as vozes originais de Jonathan Winters, Alan Cumming, Katy Perry, Fred Armisen, George Lopez, Anton Yelchin e Kenan Thompson, entre outros.

2 comentários:

Blogueira Fajuta disse...

Curti a crítica. Eu criei uma expectativa boa e me decepcionei um pouquinho. Concordo com alguns pontos: exageros, personagem babaca e outros... Esperava mais. Um abraço.

Igor José P.G.G. da Silva disse...

"Um gato salvou “Os Smurfs” de ser pior do que “O Besouro Verde”."

Isso porque você não viu ainda "Piratas do Caribe 4" ou "O Turista". Estes, nenhum gato salva.