05/08/2011

.: QUADRINHOS .: Homem-Aranha, uma questão de pele

Quando Brian Michael Bendis revelou que ia matar o Homem-Aranha do Universo Ultimate, ninguém botou muita fé. Mas o cara foi lá e cumpriu a promessa. E ainda colocou um outro sujeito no lugar, um certo Miles Morales, um moleque de 13 anos, negro e de origem latina. E deixou o mundo de queixo caído, colocando a notícia na imprensa de todos os cantos, incluindo aqueles não lá muito acostumados ao universo dos gibis (estava até no "Jornal do SBT", imagina só o Hermano Henning anunciando esta manchete?).

Aliás, para esta imprensa que não é exatamente especializada nas complicadas cronologias paralelas dos gibis ianques de super-heróis, vale uma explicação: este não é o Homem-Aranha do universo Marvel, digamos, normal. Lá, Peter Parker continua vivinho da silva, com seus 20 e poucos anos (eu arriscaria até quase 30), não é mais um estudante do colegial, vive se virando para tirar uns trocados em plena recessão econômica americana, enfim. O Peter Parker que morreu – aliás, não vou publicar as circunstâncias de sua morte por aqui porque não li nenhum spoiler, então tire o pônei maldito da chuva – é o estudante fedelho de 17 anos retratado no chamado universo ultimate, uma releitura que a Marvel Comics fez de seus principais personagens no início dos anos 2000. Estamos falando, então, de uma espécie de realidade alternativa. Vamos evitar o alarde desnecessário, OK? Apaguem as luzes vermelhas e mandem o Datena pra casa.

O que eu achei desta manobra toda, que mais perece uma daquelas jogadas de marketing que o ex-editor-chefe e atual diretor criativo da editora, Joe Quesada, tanto adora? Digamos que tenha sentimentos variados.

Digam o que quiserem, mas Brian Michael Bendis continua sendo o roteirista do Homem-Aranha Ultimate desde o primeiro número da revista (o que significa, portanto, cerca de uma década à frente do mesmo título) por uma razão: ele é muito bom no que faz. Não foram raras as ocasiões em que me peguei dizendo: “numa boa? Anulem a cronologia atual do Aranha e a substituam pela ultimate, que está muito melhor”. E sempre foi mesmo. Aliás, o trabalho de Bendis com esta versão renovada do Escalador de Paredes foi o único que não se contaminou pela vertiginosa queda de qualidade que atingiu as revistas ultimate nos últimos anos, transformadas em caricaturas de tudo aquilo que se propuseram a ser (sim, Jeph Loeb, estou falando com você).

Bendis não. O seu Homem-Aranha Ultimate era moderno, mas ao mesmo tempo firmemente fincado nas raízes do que realmente fazia o personagem funcionar. Há muito tempo não aparecia alguém que entendia que as histórias do Aranha só tinham graça quando Peter Parker era o personagem principal, e não seu alter-ego lançador de teias. As inquietações, as descobertas, o sofrimento de um menino comum estavam em primeiro plano, enquanto as lutas contra vilões vestidos de polvos, lagartos e abutres ficavam em segundo plano. E este é justamente o ponto no qual esta decisão me dói. Não porque escolheram um moleque negro para substituir Parker – poderia ter sido um menino chinês, japonês, indiano, russo, skrull ou kree. Tanto faz. O que me dói é saber que não vou mais ler Bendis escrevendo o Homem-Aranha tradicional – ou pelo menos um título-solo do Aranha tradicional, já que ele arrisca suas linhas com o Cabeça de Teia na versão dos Vingadores da cronologia regular. Porque Bendis escrevia Peter Parker bem pra caramba. E eu adorava ler o Peter Parker de Brian Michael Bendis.

Por outro lado, no entanto, fico aqui pensando: mas não era justamente para isso que o universo ultimate existe, no fim das contas? Para ousar, para oferecer versões radicalmente diferentes dos grandes bastiões da Casa das Idéias, para fazer do Caveira Vermelha o filho do Capitão América? Para, ora só, fazer um Nick Fury negro e que é a cara do Samuel L. Jackson? Para matar o Wolverine e colocar um filho dele no lugar? Para fazer o Coisa matar o Dr.Destino? Para fazer o Magneto pirar e arrasar metade do planeta com um tsunami causado pela inversão dos pólos magnéticos?

Então. Qual é o grande babado? Peter Parker morreu – no que o camarada Emílio “Elfo” Baraçal descreveu como uma história emocionante, diga-se – e agora foi substituído por um menino negro. E...?

Já tem gente arriscando que Peter Parker vai ressuscitar. Duvido. Isso é expediente padrão na cronologia normal da Marvel. No Universo Ultimate, grande parte dos mortos continua devidamente enterrada, não importando o seu pedigree.

Tudo que sei é que confio no Bendis. Vou sentir saudades do Peter Parker escrito por ele. Mas quero conhecer mais sobre Miles Morales. Ainda mais porque sei que ele estará devidamente cercado de pessoas como a Tia May, Gwen Stacy e a Mulher-Aranha (que, no mundo ultimate, não é Jessica Drew, mas sim um clone feminino gerado a partir das celular de Peter Parker. Não pergunte. Só saiba que funciona.).

Sabe-se que Morales terá um uniforme ligeiramente diferente, uma nova origem para os poderes e até algumas habilidades diferentes. Mas o conceito de “com grandes poderes, vêm grandes responsabilidades” ainda continua sendo mote central. Certas coisas não dá mesmo para mudar.

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