14/10/2011

.: MÚSICA .: Carta aberta para Edu Falaschi

Fala, Edu, beleza?

Cara, sem frescura e sem rodeios, preciso admitir que tinha a maior birra de você. Com honestidade. Não me entenda mal, não tem nada de musical nisso. Sou fã do Angra, tanto dos primórdios quanto da sua fase à frente dos vocais – “Temple of Shadows” é um dos meus discos de cabeceira, e não tem nada a ver com o fato de eu estar nominalmente citado entre os agradecimentos da banda no encarte do álbum. “Late Redemption” é uma das minhas músicas preferidas de todos os tempos. Como bom fã de metal melódico/power metal, gosto de você cantando desde a era do Symbols, veja só. Portanto, minha birra com você não tinha nada de musical. Minha birra era de cunho totalmente pessoal, mesmo, admito.

Explico: tudo começou com um certo show de comemoração de aniversário do Angra no Via Funchal, há alguns anos, nem sei bem precisar quando. Não estive lá pessoalmente, mas o amigo delfonauta Bruno Sanchez acompanhou de perto e fez uma crítica pouco elogiosa àquela apresentação e à sua performance. Tenho certeza de que você se lembra. Até porque você ficou verdadeiramente puto da vida e acabou soltando os cachorros em um destes fóruns internéticos, enchendo de fúria os fãs mais xiitas do Angra – que não demoraram a atacar o Bruno com todos os palavrões que conheciam, se escondendo por trás da beleza que é o anonimato da web. Na ocasião, peguei a maior birra de você porque achei a sua atitude pra lá de infantil. Entendi (e ainda entendo) que você não tenha gostado do que leu. Nada mais natural. Mas também é natural entender (ou tentar...) que é parte do ofício de ser artista aprender a lidar com as críticas.

Eu tinha uma coluna sobre heavy metal na área de música do finada portal AOL Brasil. Escrevi um texto criticando a sua postura e defendendo o Bruno – que, por sinal, eu nem conhecia na época. E percebi rapidamente, pela reação dos internautas que acompanhavam e comentavam naquele espaço, que ele não era o único que tinha uma opinião bem crítica sobre como andava cansada a sua voz naquele final de turnê. E estava mesmo. Era nítido, a cada show, que você tinha chegado ao seu limite, que precisava de um descanso, que estava indo além do que conseguia suportar.

Fato: acho uma tremenda injustiça que qualquer um force você a interpretar as canções do Angra da fase André Matos exatamente da mesma forma que ele fazia. Vocês são dois cantores bem diferentes, com vozes distintas e que colocam diferentes sensações em suas interpretações. Você tinha que cantar faixas como “Carry On”, “Carolina IV”, “Lisbon” e “Nothing to Say” do seu jeito particular. Quem te ouviu cantando no Symbols ou à frente de sua nova banda paralela, o Almah, sabe do que eu estou falando. Mesmo algumas canções recentes do Angra, já com você como vocalista, forçavam demais a sua voz, até um limite de agudos que não lhe favoreciam em nada. Traçando um paralelo, é a mesma coisa que acontece com Andi Deris no Helloween, com esta coisa de exigirem que o camarada seja um novo Michael Kiske ao invés de ser apenas Andi Deris – que não é melhor nem pior, mas apenas diferente.

Quando vi você no primeiro show da turnê ao lado do Sepultura, aqui em São Paulo, depois de uma longa pausa nas atividades do Angra, pude vê-lo muito mais confortável e natural, interpretando do seu jeito, sem precisar forçar a barra. Aquele era Edu Falachi sendo Edu Falaschi. Achei que aquele era o mundo ideal. Mas aí veio o novo disco “Aqua” (bem interessante, por sinal), vieram as seqüências de apresentações e sua voz foi novamente dando sinais de que estava se esvaindo, fora de uma zona de conforto. O ápice, e claro, foi a recente – e polêmica – passagem pelo palco Sunset do Rock in Rio.

Os problemas técnicos existiram, ninguém pode negar isso, quer tenha estado pessoalmente na Cidade do Rock, quer tenha conferido tudo de casa (como aconteceu comigo, aliás). E problemas técnicos, obviamente, atrapalham o andamento geral das coisas, tiram a necessária concentração de quem está no meio da apresentação. Mas também não dá para negar a fragilidade da sua participação, fraca e pouco inspirada. Você mesmo admitiu isso, aliás, bem diferente do seu amigo de duas bandas, o baixista Felipe Andreoli, aquele que não é do “CQC”. Ele teve uma reação explosiva, em especial no que diz respeito ao texto escrito no “Collector’s Room” por outro amigo deste que vos escreve, o mais do que talentoso Ricardo Seelig. Foi só o Seelig insinuar que sabia algo sobre o possível fim do Angra depois do Rock In Rio para que o Andreoli explodisse em uma desnecessária maré de palavrões desmedidos. Ainda bem que você não entrou nesta furada. E a minha primeira surpresa, depois daquela situação envolvendo o texto do Bruno Sanchez, aconteceu justamente aqui.

(Fazendo um pequeno interlúdio, preciso confessar uma coisa. Embora eu não tenha escrito por aqui ou em nenhum outro lugar, eu já tinha ouvido, de fontes BEM seguras, que a banda estava perto do fim e que planejava encerrar atividades depois do Rock in Rio, exatamente como o Seelig afirmou. A minha fonte me garantiu que a situação entre os integrantes estava insuportável. E, novamente, preciso assegurar que é uma fonte bem próxima de vocês e de mim, além de bem confiável. Mas eu sou jornalista. E jornalistas não revelam suas fontes)

Eis que, então, pouco depois, veio o comunicado oficial de punho próprio sobre o seu afastamento das atividades musicais por um período não-determinado, para poder cuidar de sua voz. E tenho mesmo que dizer o quanto ler as suas palavras me deixou perplexo. Perplexo porque foram raras as vezes em que vi alguém do meio artístico se abrir de maneira tão crua e honesta, com tamanha coragem, sem medo de expor suas falhas ou fragilidades. Não tenho nada mais a dizer além de “parabéns”. Você tomou uma decisão que, apesar de ter parecido a mais fácil, foi na verdade a mais dolorosa e a mais profissional. E não ache que todo mundo vai compreendê-lo ou tampouco apoiá-lo. Talvez alguns de seus fãs se afastem, se dizendo “traídos”. Mas você acertou. No alvo. Porque não tenho dúvidas de que você vai voltar, quando estiver pronto, muito mais forte, ainda mais amadurecido. E eu espero, de coração aberto, que você volte e repense bem se quer mesmo continuar como frontman do Angra – pelo menos, nas condições em que isso vinha funcionando até agora. Você merece bem mais. Pelo menos é o que acredito que merece aquele Edu Falaschi do Symbols.

A minha birra, você quer saber? Vamos deixar este assunto pra lá. Vou lá ouvir o disco novo do Almah e depois a gente conversa.

Grande abraço,

Thiago Cardim, editor do Observatório Nerd

6 comentários:

Anônimo disse...

Gostei do texto, mas preciso observar:

Honestidade profissional a gente planta e colhe por toda a vida e toda a carreira. A questão é admitir que existem pedras e ser homem para enfrentar as pedradas.

Fazer de um comunicado de assessoria de imprensa algo "honesto" e digno de orgulho é a coisa mais imbecil que alguém pode dizer, já que existem contradições de postura a longo prazo.

Nada como uma assessoria de imprensa hein?!

Thiago "El Cid" Cardim disse...

Caro Anônimo, eu concordo com uma coisa e discordo de outra.

Concordo que é preciso ser homem para encarar as pedradas - e, no caso do texto do Bruno, isso não aconteceu cm o Edu. Ele foi altamente infantil. Mas o comportamento dele foi radicalmente diferente nesta questão do Rock in Rio. Ele se focou nas questões profissionais, nos problemas técnicos, e admitiu suas falhas - diferente de seu companheiro de bandas.

Contradições de postura ao longo do caminho? De fato. Não nego, e o texto deixa isso claríssimo. Mas isso é algo estritamente humano, pelo qual passamos também eu e você. Somos um bando de metamorfoses ambulantes, já dizia um certo roqueiro baiano.

O texto foi distribuído por uma assessoria de imprensa. Nada mais absolutamente normal, este é um mundo que conheço muito bem. Mas a decisão tomada pelo Edu foi bastante profissional. E, na minha opinião, profissionalmente bastante acertada.

Vir à público, via assessoria de imprensa ou não, e admitir seus erros, suas falhas, expondo suas fragilidades, é uma decisão bastante corajosa. Isso é algo que muitos artistas e mesmo empresas/pessoas jurídicas não têm coragem de fazer. Repito: a assessoria de imprensa foi apenas uma ferramenta, de muitas que um mix de comunicação permite. Usar uma assessoria de imprensa não é um pecado.

Mas a decisão tomada por ele, quer tenha sido aconselhado pela tal assessoria ou não, e a forma como foi apresentada aos fãs, sem frescuras ou rodeios, me soou bastante positiva, humana, honesta. Usar uma assessoria de imprensa para anunciar algo não ser desonesto. É ser profissional. E esta era uma postura que vinha faltando ao Angra como um todo.

Mantenho meus parabéns.

Anônimo disse...

Thiago,
Não tenho nada contra o trabalho de Assessoria de Imprensa, ao contrário. Conheço bem esse mundo, trabalho com isso, e também sei como as coisas funcionam.

O que a gente debate aqui é a diferença de postura nos diversos canais de comunicação. Sinceramente, acompanho a carreira do Edu há um bom tempo, inclusive participei ativamente no Forum do Angra nos tempos áureos.

Eu só acredito que a postura de coitado fudido que não sabe quem é funciona muito bem quando já se tentou de todas as formas remediar, ocultar e camuflar uma situação negada há tempos. Uma postura honesta, é uma postura honesta do começo ao fim com o público.

Sinceramente, o cara não saiu do lugar de onde está, apenas admitiu que não está apto e nunca esteve para cantar no Angra.

E já postei em outros lugares... me espanta muito os outros músicos, com a formação e a experiência que têm, apoiarem esse tipo de postura e atitude onde qualquer ser que escuta ao vivo sabe que os shows são horríveis. É contorcionismo, é cantar de cabeça baixa, é muita pose, é gritar rock in rio imitando o Bruce no RIR3, e fazer um exercício inviável para ser algo que não se é.


No fim das contas, desejo tudo de melhor que possa acontecer com o Edu. E com o Angra também, se de alguma forma prosseguir.

Mas eu discordo totalmente da sua colocação como postura "honesta" o que aconteceu, e como as coisas avançaram até que chegasse ao ápice de uma situação fora de controle... e então ser honesto e transparente.

Pra mim atitude Rock é dar a cara a tapa. O que falta muito nesse meio do Heavy Metal onde uma porção de gente cagada se acha superior e faz fiasco em rede nacional achando que merece mais espaço. Até o show da Katy Perry foi mais digno.

Thiago "El Cid" Cardim disse...

"Sinceramente, o cara não saiu do lugar de onde está, apenas admitiu que não está apto e nunca esteve para cantar no Angra"

- Isso, para mim, é uma postura honesta, analisando isoladamente de todo o resto. É admitir estar errado depois de uma imensa sucessão de cagadas. Em nenhum momento eu disse que ele é perfeito e que vai mudar completamente daqui para frente.

"Mas eu discordo totalmente da sua colocação como postura 'honesta' o que aconteceu, e como as coisas avançaram até que chegasse ao ápice de uma situação fora de controle... e então ser honesto e transparente."

- Perceba o que eu disse: em nenhum momento eu afirmei que a forma como as coisas vinham sendo conduzidas até o momento foi honesta. Eu disse que esta atitude final foi honesta e transparente. E para mim, foi mesmo. Existiam muitos desfechos possíveis, incluindo o silêncio e a negação que vinham sendo adotados anteriormente. Mas preferiu-se uma outra abordagem. E é esta abordagem que estou avaliando.

"Pra mim atitude Rock é dar a cara a tapa. O que falta muito nesse meio do Heavy Metal onde uma porção de gente cagada se acha superior e faz fiasco em rede nacional achando que merece mais espaço. Até o show da Katy Perry foi mais digno"

- Concordo 100% com as duas colocações. E devo dizer que, como alguém que gosta de boa música pop, gosto bastante do que a Katy Perry se propõe a fazer. =)

Bruno Sanchez disse...

Opa, belo texto, Thiagão! ;-)

Muito bacana a coragem do Falaschi em se expor desta maneira. Uma atitude bastante digna! Confesso que acreditei que ele seria o primeiro a "xingar muito no Twitter" o Seelig. Mais ou menos como fez comigo há 5 anos, mesmo.

Mas também acho que ele poderia ter se pronunciado ANTES do show e tornar aquele evento algo especial, como o Bruce fez no Iron Maiden no concerto de 1993, que acabou virando o último de sua primeira passagem pela banda (e depois o VHS Raising Hell). Desviaria o foco das limitações que o Edu vivia no dia com sua voz e tornaria aquele momento especial.

Até mesmo porque pela declaração do Edu Falaschi, ele JÁ SAIU da banda. Acho difícil que eles concordem em mudar a afinação original das músicas para se adequar a voz do rapaz como o Helloween faz com o Deris, por exemplo.

Sou fã do Falaschi do Symbols e do Mitrium e espero que ele recupere a velha boa forma. Talento, esse cara tem de sobra...

E responde meu e-mail, pô! ;-)

Abs,

Bruno

Nas Ruas de Santos disse...

Posso não entender de música o suficiente para comentar aqui, mas como fã do Angra e dos textos de Thiago Cardim, dou os parabéns para o Edu pela postura digna de um cantor com um talento extraordinário e para você Thiago, pelo profissionalismo e transparência. Nunca vamos agradar a todos. Beijos