03/01/2012

.: MÚSICA .: Rodolfo e os Raimundos, os Raimundos e o Rodolfo

Me lembro de quando entrevistei o Rodolfo Abrantes, ex-vocalista dos Raimundos. Foi pouco depois de sua saída da banda, recém-convertido à religião evangélica, quando ele dava os primeiros passos com o (agora extinto) grupo batizado de Rodox. Já faz dez anos que isso aconteceu. Uma década, pense só, parece que foi ontem. E o discurso do cara permanece o mesmo - assim como permanece o mesmo o papo furado de uma parcela de fãs frustrados que se inflamam toda vez que o vêem exaltando em público o seu amor por Jesus, praticamente exigindo que ele retome o seu posto comandando os microfones da antiga trupe, ao lado de Digão e Canisso. Nas últimas semanas, bastou o Multishow mostrar o episódio do programa "Rock Estrada" estrelado pelo músico para as redes sociais se encherem de gente ditando o que Rodolfo tem ou não que fazer da sua vida daqui pra frente.



Olha só: não sou evangélico. Aliás, eu diria que estou mais próximo do ateísmo do que de qualquer religião, para ser BEM sincero. Por enquanto, digo que acredito no poder dos espíritos da natureza, uma coisa meio celta, meio druida, sabe? Bom, enfim, isso não vem ao caso. O fato é que, quando estava com os Raimundos, o Rodolfo vivia mergulhado em altíssimas quantidades de bebidas e drogas, para todos os gostos e bolsos, desenfreado e sem perspectivas, seguindo um estilo de vida que, a não ser que você seja Ozzy Osbourne ou Keith Richards, vai acabar mal, muito mal. Até que ele se cansou. Viu que aquilo não era para ele. E encontrou Jesus. De seu jeito muito particular. Concorde eu (ou você) com isso ou não.

Não interessa para ele o que diabos você acha da religião evangélica, se você considera os pastores picaretas e manipuladores, se acha que os textos que ele segue são cheios de furos e contradições, se você é partidário de que Jesus nunca existiu. Esqueça. Esta é a realidade dele agora. E o camarada está feliz. De fato. Sem se importar com o que foi ou com o que poderia ter sido.

Há quem fique indignado com o fato de que ele parece não entender que, se voltar para os Raimundos, "a mídia vai se colocar aos pés da banda, vai ser um retorno mais do que aguardado, eles vão tocar para milhares de pessoas, fazer turnês intermináveis, ganhar um caminhão de dinheiro, vender centenas de milhares de discos, dar toneladas de entrevistas, comer todas as mulheres do mundo". Em resumo: ele vai voltar a ser um rock star. Yeah! O fato, meu caro, é que Rodolfo Abrantes não quer mais isso. Ele não quer mais ser um rock star. Ele quer ser apenas o Rodolfo Abrantes. Se ele está na TV, é a chance de mostrar um pouco mais do que ele considera uma missão de evangelização. E, para ele, isso é suficiente. Mais do que CDs, DVDs ao vivo, festivais nacionais ou internacionais.

Ele está bem consigo mesmo. Ele mudou. Encontrou a paz. A paz dele, apenas e tão somente dele. Isso ficou evidente quando o entrevistei e continue claro como água agora, uma década depois. Ele mudou. Encontrou o seu caminho para ser feliz. Se eu adoraria que ele tivesse continuado com os Raimundos? Claro que sim. Amaria. Sempre fui fã da sonoridade da banda e da postura dele como frontman - que, infelizmente, o Digão não consegue reproduzir porque simplesmente não é a sua praia. Mas não sou eu quem toma as decisões pelo Rodolfo. E nem você. Ele encontrou sua forma de ser feliz. E esta é uma forma que não passa necessariamente porque ter que fazer VOCÊ feliz, querido fã pentelho. Conforme-se com isso.

O Rodolfo seguiu em frente. Os Raimundos seguiram em frente. Por que raios só você não consegue? Get a life.

Um comentário:

Anônimo disse...

Pô gostei das suas observaçoes... sou seu fã e do Raimundos tb e acho que é isso aí o Rodolfo optou por um caminho aparentemente melhor, um propósito mais louvável talvez... e sua guitarra continua com aquele velho e bom som... novos caminhos todo mundo experimenta, você mesmo, e se dar bem é relativo. abçs... saudad da a arca!