17/02/2012

.: 5 PERGUNTAS PARA... Emilio Baraçal (Zap! HQ)

1) Essa é para responder direto e na lata: no Brasil, você acha que é possível viver apenas e tão somente de quadrinhos (leia-se: pagar as contas do mês, rs) sem se transformar num segundo Mauricio de Sousa?
Bom, o Maurício não construiu seu império do nada. Levou um tempo, como tudo na vida. Ele começou em uma época que não tinha concorrência, é verdade, mas também não tinha internet e outros fatores que ajudam na divulgação, os meios de comunicação eram mais limitados, etc. Até o momento - embora eu acredite o contrário - somos de forma confirmada os únicos seres no universo. Então não temos um ponto de partida além de nós mesmos sobre a vida extraterrestre. E o caso do Maurício é assim: só ele conseguiu. É um caso único como até o momento somos únicos no universo. Só há um caso a analisar e um que começou pouco mais de cinquenta anos atrás. As condições eram outras. É tudo diferente. Onde quero chegar nisso? Há casos e casos. Ele fez o caminho dele para dar certo. Qual seria o meu? O seu? Ou o de quem mais quer seguir na vida de quadrinista? Outra coisa: o que é dar certo? Parece um papo zen-metafísico, mas apenas você pode dizer o quanto foi bem-sucedido. Só você sente, baseado no que busca, se conseguiu ou não o que queria.

Então acho possível sim aparecer outro Maurício de Sousa, alguém que consiga capitalizar uma criação. Até me surpreende que, com a internet e toda essa facilidade de comunicação e divulgação não tenha ainda aparecido alguém que desse certo como ele, o que é bem triste, ainda mais que o Maurício não é mais jovem. Uma hora, infelizmente ele irá embora. É um pensamento que nem ouso imaginar.

Fora isso, a única maneira de pagar as contas do mês fazendo quadrinhos, acredito eu, é (por enquanto) trabalhando para o mercado estrangeiro, principalmente o estadunidense. Os dois caminhos são árduos e tem seus diferentes desafios e problemas a enfrentar. Cabe a cada aspirante a quadrinista decidir enfrentá-los ou não.

2) Falando especificamente sobre o projeto Zap! HQ: quais são de fato os seus planos com esta iniciativa? Onde você ambiciona chegar?
Te falo, mas terei que matar você depois, pode ser?

Falando sério, penso tanto no lado criativo quanto no lado comercial. Se você tem bons personagens, boas histórias, as pessoas começam a falar, recomendam. E vai chamando a atenção cada vez mais. Seguindo esse caminho, a lógica é que o trabalho vai ficando cada vez mais conhecido a ponto de chamar a atenção de empresas interessadas em colocar os personagens em seus produtos. Lancheiras com Anarquia, cadernos com Cosmos e por aí vai. Para chegar a um ponto assim, a qualidade em todos os aspectos precisa ser ímpar e isso é que estou trabalhando - junto a todos os meus companheiros no Zap! HQ - para chegar.

Não é nada diferente do Maurício de Sousa, mas com super-heróis.

Criativamente, quero deixar um universo funcional, em que eu possa me divertir criando boas histórias e divertir os outros com elas. E esse universo se consolidando, outras pessoas poderão fazer o mesmo. Cresceríamos como nunca antes. Creio que nada é melhor para um quadrinista do que o sorriso do leitor ao fechar a HQ.

Fora que desde pequeno nunca quis ser médico, advogado, bombeiro, essas coisas. Queria trabalhar criando quadrinhos. É natural que comece pelo desenho, é o que chama mais atenção à primeira vista, é mais fácil de achar cursos e o mercado absorve mais facilmente, então é normal querer buscar a coisa de "ser desenhista de quadrinhos a todo custo". Mas conforme aprendia a desenhar, percebia que gostava de todos os processos de criação, da arte-final ao processo de impressão. E descobri que roteiro é o que mais gostava dentre os elementos da equação e chegou um momento que foquei nesse aprendizado. Então, pessoalmente, desde que eu crie quadrinhos, estou satisfeito. Dando certo um universo assim, melhor ainda.

Agora, comercialmente falando, claro que quero pagar minhas contas, cuidar da vida da minha mulher e da minha filha. Tenho estudado princípios de negociação, marketing, entre outras coisas. Me doutrinei a ficar ligado no que pessoas da área dizem, falam conversam, escrevem. Procuro absorver o máximo que posso e principalmente colocar essas coisas em prática através do Zap! HQ. Se vou conseguir? Não sei, mas o que sei é que não vou desistir.

Pra resumir, quero sim atingir os três lados: criativo, familiar e financeiro. Não faz sentido querer atingir um lado apenas em um projeto como esse.
 
3) Grande parte dos seus títulos planejados para o Zap! HQ envolvem tramas de super-heróis ambientadas no Brasil. Você acha que o leitor médio de HQs no Brasil aceitaria este conceito numa boa? Você não acha que todo o conceito envolvendo HQs de super-heróis tem um molho americano demais, não importando onde você ambiente a história?
Para isso, terei que te contar como o Zap! HQ surgiu e depois expandir um pouco.

Só revelei o Zap! HQ ao mundo em 2008, quando criei um blog para começar a juntar interessados em embarcar na empreitada. Porém, o Zap! HQ existia apenas comigo desde 2002, quando comecei um trabalho de pesquisa enorme juntando artigos, matérias, depoimentos... fora perguntas feitas a editores, leitores, quadrinistas e todo mundo envolvido nesse mundo. Perguntei também coisas a pessoas que nada tem a ver com quadrinhos ou que eram leitores assíduos. Falei com historiadores, sociólogos, jornalistas, militares, psicólogos, entre outros, para traçar um "ontem, hoje e amanhã" do Brasil. Falei com muita gente, sempre que podia, tinha a chance. Queria entender porque ninguém consegue, porque não dá certo. Não há mal que sempre dure e bem que nunca acabe, como diz o ditado. Não acredito que a situação possa ser essa, como algo irreversível e imutável. Alguém, em algum momento, conseguirá.

Peguei todo esse material que pesquisei durante cinco anos, li e reli até não poder mais. Cruzei informações, fiz rascunhos. Filtrando tudo, cheguei a vários argumentos, pincelando aqueles que apareciam com maior regularidade, denotando um padrão, mostrando as características do "verdadeiro Brasil" de modo a achar tanto correlações quanto idéias que não batiam. Queria chegar nas razões de porque super-heróis brasileiros não dão certo. Queria a visão que o brasileiro - leitor ou não - tem do país. Queria as razões criativas, comerciais, administrativas, culturais. Todas elas. Na sequência, fiz um apanhado das estratégias editoriais de várias HQs nacionais, indo desde Turma da Mônica, Terra 1, Holy Avenger, entre tantas outras, independente do resultado editorial/financeiro que tiveram. O foco era achar pontos em que houve sucesso e pontos em que houve fracasso.

E com essas razões, queria achar nas mesmas pesquisas os argumentos que quebrassem essas razões. Queria chegar a uma antítese. Tudo isso foi feito com uma coisa em mente: achar a maneira de fazer quadrinhos funcionarem tanto criativamente falando, quando financeiramente falando.

E com as características dessa antítese, passei muito tempo usando-a para chegar a um ótimo plano editorial. E após muito, muito tempo, planejamento e correções, havia chegado a um consenso em que acredito piamente.

Editorialmente falando, esse selo deve permitir que seus roteiristas possam contar qualquer tipo de história com os personagens criados, dando liberdade criativa dentro desse universo fechado. Foi então que cheguei ao número quatro. Um vigilante urbano (para histórias policiais e de mistério), um super-herói clássico (para ficção científica), um grupo de heróis (lidando com as questões maiores) e um personagem místico (para lidar com ameaças sobrenaturais). Com esses quatro, é possível contar histórias de qualquer gênero: aventura, ação, comédia, terror, suspense, etc. Esse foi o embrião do esquema criativo.

Como não dá para fazer tudo sozinho e muito menos entendo das outras áreas como profissionais gabaritados, precisaria de gente para fazer esses papéis. E essas pessoas não teriam entrado se não acreditassem em todo o esquema que construí com esse trabalho todo. Então corri atrás também de programadores, designer, coordenador de marketing, tudo isso. Para o Zap! HQ estar coberto por todos os lados.

Claro que com tudo isso falei somente do meu lado. Há o lado do leitor também. Esquema básico de emissor/receptor/meio/mensagem. Acredito que a descrença do leitor brasileiro não sumirá de uma hora para outra. Isso é algo que leva tempo. Durante minhas pesquisas, perguntei a Marcelo Cassaro (roteirista) qual foi o maior acerto editorial na – talvez – mais longeva HQ nacional (tirando Turma da Mônica): Holy Avenger. “Creio que foi o fato da revista chegar às bancas todo mês não importando o que acontecesse” – respondeu ele.

O que essa resposta pode mostrar? Quem conhece a história dos quadrinhos no Brasil sabe que muitas iniciativas já afundaram pelos mais diversos motivos. Porém, um deles é o desejo do retorno rápido. Dificilmente uma HQ nacional passa do segundo, terceiro número. O principal e óbvio motivo é o de baixas vendas. Dessa forma, rapidamente tiram a revista de circulação. Esse ato – aliado à normal falta de qualidade da maioria dos materiais publicados – faz com que o leitor brasileiro não tenha confiança alguma quando algum projeto tupiniquim é lançado, tendo a postura de “entortar o nariz”.

Confiança. É disso que falou Cassaro em sua resposta.

O quadrinhista, a editora, todos os envolvidos devem primeiro conquistar a confiança do leitor. A partir do momento que Holy Avenger estava todos os meses nas bancas, inconscientemente o leitor tinha confiança no material. Não deu outra: sucesso editorial. Ponto pro Cassaro e pra toda equipe de Holy Avenger. Muitos aspirantes a quadrinistas reclamam que no começo – e/ou durante um certo tempo – não há retorno financeiro. Se você é, infelizmente, um ninguém, retorno financeiro é talvez a última das preocupações. E falo isso baseado em uma entrevista dos gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá em uma das edições da Wizard Brasil (antes de virar Wizmania, não lembro exatamente em que edição foi). Lá disseram que durante um bom tempo eles não tiveram retorno nenhum além da divulgação do trabalho deles, de eles se tornarem quadrinistas conhecidos aqui. Nesse tempo, trabalharam com ilustrações publicitárias e editoriais para se manterem. Mas foi o fato de sempre terem material novo que criou esse nome e, dentro de certo tempo, terem poder de publicar nos EUA e, enfim, começar a ganhar algum dinheiro. Muitos aspirantes querem o dinheiro da noite para o dia. Não é assim que funciona. Todos pagam contas. Eu, você, os gêmeos, Cassaro, seu pai, o frentista do posto, o balconista da vídeo-locadora e todo o resto do mundo. A diferença entre você e alguém como os gêmeos e Cassaro é só uma: persistência. Aí, depois, vem a recompensa.

Agora, se o molho é "americano demais"? Vamos ver... há alguns problemas, lógico. O primeiro é o preconceito absurdo que o gênero sofre no Brasil. O fato de não ter sido feito de forma competente antes não impede que uma maneira seja encontrada. Há impedimentos técnicos, como falta de tradição na escrita de super-heróis ou pouca visão de mercado entre os profissionais? Há e são muitos os itens a serem melhorados, trabalhados, mas se ficarmos parados, nunca desenvolveremos nossa maneira de fazer isso. É meio forçado querer chegar do nada em algo que tenha absurda qualidade da noite para o dia. Primeiro tem que aprender a andar antes de correr. Há quantas décadas os americanos capitalizam as HQ desse gênero? Somos fetos ainda.

O segundo é justamente a parte da credibilidade. O leitor tem que botar o olho na história e crer que um super-herói poderia existir em nossa sociedade da mesma forma que o leitor americano crê ao acompanhar as histórias de Superman, Homem-Aranha e cia por mais que tudo aquilo seja muita viagem.

Primeiro é preciso entender a sociedade brasileira, seu povo, de onde viemos, como nos desenvolvemos e pra onde vamos. É preciso estudar muita história, sociologia, antropologia e outros assuntos pertinentes para melhor imaginar como a figura de um super-herói de desenvolveria aqui. Enfim, muita pesquisa, como já disse. Sobre o Brasil, nenhum material da minha pesquisa, desde que comecei, vem dos quadrinhos.

Depois disso, é preciso um acurado trabalho visual para que a sociedade brasileira seja retratada de forma mais fiel possível sem cair nos estereótipos manjados, com o malandro carioca, por exemplo. No final das contas, trata-se de uma adaptação das características do gênero super-herói para as características de nosso povo e sociedade. Eliminar o que não funciona, trabalhar o que funciona com características próprias.

Um argumento muito forte vem justamente de Joseph Campbell, só que eu vou misturar um tiquinho com Aristóteles. Segundo ele, toda sociedade precisa de figuras heróicas, não importando seu grau evolutivo, cultural, financeiro e demais características. Isso acontece porque nenhuma sociedade é perfeita. Sempre há problemas a combater, a solucionar. Problemas que fazer as pessoas sofrerem, chorar, ter uma vida nada fácil. É mais fácil haver heróis no sentido clássico da palavra em um país que tem um grande histórico de guerras e/ou conflitos externos? É, concordo. Mas o Brasil não é isento de problemas, eles apenas são internos. E mesmo problemas externos vão muito além do Haiti.

Olhe por exemplo, este link!

Pra quem acha que Brasil não pode ser terra de boas histórias ficcionais, eis ótimo material para criação. Se as pessoas prestarem bem atenção em várias notícias diariamente, histórias de ação, aventura suspense e espionagem podem ser sim feitas aqui. O que acontece é que o Brasil desse link é fantástico demais na cabeça das pessoas, apesar de ser uma notícia real. O entretenimento é tão forte que esse tipo de coisa, na cabeça dos brasileiros, só é possível em países como EUA ou Inglaterra. Faça-se a seguinte pergunta: o que vai chamar mais atenção, uma notícia dessas ou a revelação sobre quem é a nova loira do É o Tchan? Notícias como a desse link tem aos montes, é só prestar atenção, garimpar.

No site oficial do Zap! HQ, reproduziremos notícias como essas, dando o devido crédito e link para que o leitor veja que há um outro Brasil real que ele desconhece que exista. Faz parte do nosso plano de "suspensão da descrença" que colocaremos em prática. Apenas as histórias, por melhores que sejam e com muito tempo não são suficientes para acabar com esse preconceito todo.

Como vê, não é tão simples, mas não é impossível.

4) A queda nas vendas de quadrinhos já é uma realidade em todo o mundo, por uma série de fatores que vão desde a pirataria ao envelhecimento do público. O que você acha que seria possível fazer para tentar reverter ou, minimamente, conter este quadro?
Só dá para saber fazendo. Estando efetivamente do outro lado em todas a frontes. Assim como fiz toda essa mencionada pesquisa toda para a criação do Zap! HQ, tenho acompanhado atentamente a questão de scans e quadrinhos digitais. Quero deixar claro que scans e quadrinhos digitais, pra mim, são termos completamente diferentes para basicamente o mesmo produto.

Scans, ao meu ver, são as HQs escaneadas, distribuidas pelos piratas. Ou seja, ilegais. O termo quadrinhos digitais já encaro como o mesmo produto, mas criado, distribuído e vendido de forma legal. Scans = pirata. Quadrinhos digitais = feitos pelos criadores. Simples assim, acho que funciona.

Tendo isso em mente, creio que ninguém tem a resposta para essa pergunta, mas não podemos ficar parados sem fazer nada. Acredito que na verdade, o maior problema é que o mercado tinha um modus operandi e esse MO foi quebrado. Então ninguém sabe pra que lado ir, pra onde atirar. O modelo de negócio foi destroçado e então o mercado está tendo que se reinventar. Ou ser literalmente criado um novo do zero para substituir o antigo. Estamos vendo, literalmente, a maior transformação dos quadrinhos desde o seu surgimento. E teremos que encarar isso, queira ou não. Se as gigantes Marvel e DC tem problemas quanto a como fazer, quem é que não vai ter?

Naturalmente, todos no Zap! HQ estão discutindo esse aspecto porque temos sim a intenção de ter as versões digitais ao mesmo tempo que as impressas. Quase dez ideias diferentes de como conciliar os dois lados estão sendo discutidos com todos os membros do Zap! HQ, da criação ao administrativo. Mas não depende apenas de nós. Tudo depende também da visão da editora com qual fecharmos negócio - deixando claro que ainda não fechamos com ninguém - porque cada uma tem sua política editorial. Porém, enquanto a maior parte dos detalhes estratégicos ainda estão sendo discutidos, estamos desenvolvendo nossos navegadores digitais. Já temos um beta para PC/MAC, iPhone e iPad (só não mostramos a ninguém) e começamos a esboçar as ideias para que seja possível ler uma HQ na televisão através do XBox, por exemplo.
 
5) Digamos que você consiga estourar com as suas ambições para o Zap! HQ - e, logo depois, você receba uma proposta para roteirizar o Super-Homem, na DC Comics. O que você faz? Dá as costas para o Zap !HQ? (risos)
Pegou no ponto fraco, não é? Não daria as costas para o Zap! HQ não. Faria de tudo para conciliar, isso sim. Poderia ser com qualquer personagem ou editora e seria a mesma coisa.

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