27/02/2012

.: CINEMA .: Ah, este ufanismo babaca que é brasileiro e não desiste nunca!


Ontem (domingo, dia 26/2), na cerimônia de entrega do Oscar, mais uma vez os ufanistas babacas de plantão do nosso Brasil varonil saíram de suas tocas. Erguendo suas bandeiras de nacionalismo de ocasião, eles ficaram revoltadinhos e xingaram muito no Twitter quando constataram o que era óbvio – que a música “Real in Rio”, da animação “Rio”, não levou a estatueta de “melhor canção original”, sendo superada por “Man or Puppet”, do novo filme d’Os Muppets.

Vamos esquecer por um minuto a bronca natural que tenho de Mr.Carlinhos Brown, que compôs a faixa ao lado do ótimo Sergio Mendes. Vamos deixar de lado o fato de que sou fã declarado d’Os Muppets. E vamos analisar a coisa sob uma ótica mais fria – tanto quanto é possível num blog assumidamente opinativo.

Há mais de dois anos, eu já tinha escrito por aqui (LEIA!) que sou contra este papo de que sou obrigado a gostar e/ou apoiar e/ou defender um filme, uma banda, uma história em quadrinhos apenas e tão somente porque ele (a) é produzido no nosso país. Não vai rolar. Eu dou meu apoio para coisas de qualidade, das quais gosto de fato, nas quais enxergo reais predicados - sem pedir carteira de identidade para checar qual é a procedência ou a nacionalidade daquele treco. Música boa é música boa, filme bom é filme bom, gibi bom é gibi bom. Independente do país em que nasceu.

Mas o caso deste domingo tem um agravante: o filme “Rio” não é brasileiro. Pode ter um diretor brasileiro e ser ambientado em uma cidade brasileira. Mas é uma produção norte-americana, alavancada com dinheiro norte-americano e produzida por um exército de produtores norte-americanos. Então, vamos apagar de vez da história este papo de “ah, mas o ‘Rio’ é o Brasil no Oscar”. Não, não é. Parem de se enganar, de tentar contar uma mentira tantas vezes acreditando que ela pode se tornar realidade.

“Rio” é tão brasileiro quanto uma nota de R$ 3. Não chega a ser ruim, até que é divertido, coisa e tal. Quando levei minha filhota para vê-lo, fiz aqui minha resenha (LEIA!). Mas o caso é que ninguém tira da minha cabeça que é um filme dirigido por um brasileiro que virou um gringo babaca. Pois é, babaca mesmo, daquele tipo que está amarrado a um estereótipo cego e segue com ele até despencar do abismo. “Rio” mostra o Brasil sob o ponto de vista de um gringo deslumbrado e com pouca paciência para ir além do óbvio: carnaval, praia, mulher, futebol, favela. E é isso. Este é o Brasil que um brasileiro consegue mostrar para o mundo. Eu até entenderia este tipo de leitura preguiçosa vinda de um diretor estrangeiro. Mas do próprio Carlos Saldanha?

E todos estes comentários acima também valem para a música “Real in Rio”. É um sambinha genérico, padrão, mequetrefe, sem nada de especial. Perdão, mestre Mendes, mas é a mais pura verdade. “Real in Rio” é um derivado sem graça de suas parcerias com os Black Eyed Peas. Se também não é o suprassumo da criatividade, pelo menos a balada “Man or Puppet” ganha em charme, autenticidade e carisma. Não torci contra “Real in Rio” porque odeio o Carlinhos Brown ou porque adoro Os Muppets. Mas sim porque acho a música do filme d’Os Muppets melhor. E isso sem pensar em sua nacionalidade, mas sim pensando apenas na música. Porque, se fosse usar a lógica bizarra dos ufanistas babacas de plantão do nosso Brasil varonil, eu teria que torcer por “Real in Rio”, já que a música é brasileira. E não importa se a música é boa ou não. Mas, se é brasileira, tenho que torcer por ela. Por mais que ela não seja de fato tão brasileira assim.

Deu para entender ou querem que eu faça um diagrama?

5 comentários:

Annie disse...

Adorei seu texto. Hoje mesmo comentava sobre isso, penso exatamente como você. Sou baiana, moro na Bahia, e as pessoas de modo geral ficam com uma louvação nojenta em relação a tudo que é daqui, independente de ser bom ou não; a maioria é incapaz de argumentar racionalmente, como você fez; limita-se a dizer que quem não gosta tem é "inveja da nossa cultura"... Arre! Mais coerência, menos cegueira, é pedir muito? Nem vi os Muppets, não conheço a música, mas só de ver que Real in Rio não passa de mais um clichê mal feito da "brasilidade", já foi suficiente pra desejar que não ganhasse. Quero crer que o Brasil é capaz de fazer melhor. Grande abraço.

xDanix disse...

Concordo em gênero, número e grau com vc. Qualidade não escolhe nacionalidade. Odeio essa onde de brasilianidade toda vez que tem o Brasil envolvido em alguma coisa internacional (mesmo que seja somente no país de nascença do cara).
Enquanto isso, ninguém elogia o Brasil quando é algo que preste, tipo um destaque em ciência ou meio ambiente.

Dimitri Brandi disse...

Perfeito seu texto, Thiago! Assino embaixo, esse ufanismo que obriga todo mundo a torcer por tudo o que é brasileiro é uma das causas do nosso atraso. Pois não cobramos que o brasileiro tenha o mesmo nível de excelência que exigimos dos demais. Basta ser tupiniquim para receber apoio da grande mídia e dos Galvões Buenos da vida. Ninguém é obrigado nem a torcer pela seleção, isso não tem a ver com gostar do país, ser patriota ou nacionalista. O curioso é que isso gera um efeito colateral que, por exemplo, atrapalha as bandas nacionais, que é presumir que tudo o que é feito aqui é meia boca. Não somos acostumados a avaliar nossos produtos com isenção, pois temos que torcer pro guaraná contra a coca independente de gostar de um ou de outro. Com isso, condenamos a nós mesmos ao subdesenvolvimento.

felipe fonseca disse...

Sr. Thiago, super concordo! Mas gosto da música do Carlinhos Brown (só da música, não do músico). Estava torcendo porque achei bem feita. Mas acima de tudo, o tema é filme-nacional-que-não-é-o-caso-quem-questão-não-é-garantia-de-qualidade. Se a questão é mesmo ganhar o Oscar, o prêmio deveria ter sido entregue para outros filmes nacionais (que não é o caso) que eram realmente bons. Abrás.

Luiz André disse...

É sempre bom ler uma opinião além dos lugares-comuns e do ufanismo barato que precisa ser reconhecido pelo estrangeiro a fim de ser aceito pelos seus pares. É sabido por todos que tenha uma boa dose de bom senso que o cinema brasileiro, como produto de exportação, apoia-se nos triunvirato favela-carnaval-pornochanchada, o que em nenhum momento, registra o que é ser brasileiro nem ao menos se permite mostrar uma outra perspectiva de como o brasileiro vive a celebração do carnaval ou mora em favelas sem ter colocado sobre os ombros a pecha de traficante. Chega a ser engraçado que nós brasileiros tenhamos uma certa ojeriza com nossos vizinhos argentinos e seu cinema continua crescendo a cada ano, talvez porque realmente se dedique à arte cinematográfica de se contar uma história ao invés de tentar realizar filmes-denúncia a partir de grandes manchetes publicadas e republicadas nos grandes jornais. Acho extremamente engraçado quando vou a uma locadora em vejo uma seção somente para cinema nacional, sendo que os filmes mais locados são as comédias produzidas pelo Globo Filmes. Filme nacional não deveria pertencer a um gênero à parte, pois se produz comédia, policial, drama, animação e demais outros gêneros assim como em outros países - mas em uma escala menor. No mais, boa crítica e que o Ministério da Cultura comece a se dedicar à produção de filmes e documentários que consigam captar a verdadeira essência do que é ser brasileiro, ou que pelo menos se motivem em contar uma boa história.