03/03/2012

.: CINEMA .: Meu filme favorito!

Texto originalmente publicado no site A ARCA


Eu sou fã do Homem-Aranha há mais de 20 anos. Fã mesmo, dedicado, daqueles que colecionam tudo e mais um pouco do herói. Tenho cerca de 600 gibis do personagem, bonequinhos,DVDs, CDs de trilha-sonora, camisetas, boné, pôsteres, adesivos, chaveiros, máscara, disparador de teia (é verdade...), munhequeira, carteira, capa de celular... enfim. Minha filha tem dois pijamas do Cabeça de Teia. E chorei, de verdade, quando o vi o primeiro trailer do primeiro filme, aquele que ainda trazia as torres gêmeas. Se é assim, fica a pergunta no ar: por que diabos, toda vez que alguém me pergunta qual é o meu filme favorito, eu respondo na lata Um Sonho de Liberdade (The Shawshank Redemption, 1994), ao invés de dizer que é o "Homem-Aranha"? Porque é a mais pura verdade, ora bolas.

Andrew Dufresne (Tim Robbins) era um sujeito comum. O corretíssimo e incorruptível executivo de um grande banco. Um cara bacana. Ah, este Andrew. Eram os idos de 1940 e poucos. Ou seriam muitos? Enfim. O fato é que a vida deste sujeito virou totalmente do avesso quando ele descobriu que sua mulher o estava traindo com um jogador de golfe. Ele bebeu demais. E chegou a pensar em matá-la. Com uma arma em punho, por pouco não pegou a dupla no flagra a tiros. Mas desistiu. No entanto, na mesma noite, alguém assassinou a Sra.Dufresne e seu amante, deixando todas as evidências recaírem sobre o pobre Andy. Condenado a duas sentenças de prisão perpétua, o cara acabou trancafiado numa cadeia. E seus sonhos foram guardados a sete chaves entre grades, guardas abusivos e presos violentos.

"Um Sonho de Liberdade" pode ser interpretado como um filme sobre amizade. Sobre como Andy encontrou no colega Red (Morgan Freeman) toda a nobreza e confiança que o mundo assustador que reside entre as paredes do presídio não permitiria sequer imaginar. Mas, na verdade, eu enxergo muito mais como uma película sobre esperança. Sobre como os sonhos persistem vivos e intensos durante anos e anos, mesmo em circunstâncias nas quais o despero e a desilusão teriam terreno fértil para florescer .

Em dado momento da trama, o velhote Brooks Hatlen finalmente recebe sua condicional. Mas o que deveria ser motivo de alegria para o bibliotecário acaba se transformando em gritos e lágrimas. "Depois de 50 anos aqui, este lugar é tudo que ele conhece", tenta explicar o sábio Red. E era isso mesmo. O mundo lá de fora tinha se transformado numa enorme armadilha para Brooks. Ele já tinha se acostumado à cadeia. Aquele era o seu mundo agora. Aquelas grades eram a sua verdadeira liberdade. E aqueles prisioneiros eram os seus verdadeiros amigos. Sem maiores aspirações. E o medo de viver esta vida estranha do lado de fora dos muros da prisão de Shawshank fez Brooks preferir outra fuga, pendurado numa corda em seu quarto alugado do Brewer.

Mas Andy nunca foi assim. Ele nunca se conformou. Mesmo passando duas décadas trancafiado, sofrendo alguns dos piores abusos - físicos ou psicológicos - aos quais um ser humano pode ser submetido, ele manteve a chama acesa. Esperança. "Cuidado, a esperança pode ser muito perigosa aqui", advertia Red. Andy nunca deu ouvidos. E continuou acreditando. Uma vida simples. Uma praia no México. Um barco velho para ser reformado. E uma cerveja sob o sol, exatamente como naquele dia nos telhados de Shawshank. "Isso é o bom da música. Eles não podem arrancá-la de você", dizia o branquelo abusado que colocou duas sopranos italianas para cantarem nos alto-falantes da cadeia. O mesmo vale para a esperança. Não importa o quanto batam em você, o quanto o humilhem, o quanto você sofra. Ela está sempre ali, te guiando e te fazendo seguir em frente. Para os mais fortes de espírito, a esperança nunca se dobra.

"Em 1966, Andy Dufresne escapou da prisão de Shawshank. Tudo que encontraram dele foram as roupas enlameadas de um prisioneiro, uma barra de sabão e um pequeno martelinho de pedras. Eu pensava que demoraria uns 600 anos para abrir um túnel nas paredes com aquilo, mas o velho Andy fez em menos de 20. Oh, Andy adorava Geologia, eu acho que tinha a ver com sua natureza meticulosa: uma era do gelo aqui, montanhas se construindo em milhões de anos ali. A geologia é o estudo da pressão e do tempo. E foi só o que precisou: pressão... e tempo. Ah, e um maldito pôster enorme. Como eu já disse, na prisão um homem faz de tudo para manter sua mente ocupada. O hobby favorito de Andy era deixar os restos da parede disfarçadamente pelo pátio da cadeia. Acho que, depois que Tommy foi assassinado, ele decidiu que passou tempo demais aqui. Andy fez como lhe mandaram, encerou os sapatos do diretor até se parecerem com um espelho. O guarda simplesmente não notou, e nem eu... Quero dizer, falemos sério: o quão frequentemente você olha para os sapatos de um homem? Andy rastejou para a liberdade por cerca de 500 jardas de merda cheirando tão mal que eu não consigo imaginar - ou talvez não queira. Quinhentas jardas... é o tamanho de cinco campos de futebol".

No fundo, este filme tem um quê de "O Conde de Monte Cristo", conto de Alexandre Dumas que, inclusive, é citado por Andy ("Este não deveria estar na seção de educativos?", brinca Red) durante a trama. Mas, diferente de Edmond Dantes, nosso paciente Dufresne não queria vingança. Ele só queria sua vida de volta. E conseguiu.

Acho que a primeira vez que vi "Um Sonho de Liberdade" foi num destes "Corujões" da vida. E chorei como um louco no final, quando Red e Andy finalmente se reencontram. Desde então, sempre que o filme estava passando, fosse em TV aberta ou fechada, eu parava absolutamente tudo que estivesse fazendo para assistir. Finalmente, eu comprei o DVD. E, dias atrás, assisti à obra de Frank Darabont mais uma vez, para poder escrever este artigo. E me emocionei exatamente como aos 16 anos. No entanto, a mensagem que a fita me passou desta vez foi um tanto diferente - dez anos depois, pegando em cheio um Thiago mais maduro e, agora, papai.

Eu sou o Homem-Aranha. Um jovem piadista irrecuperável se adaptando ao mundo dos adultos e às suas dificuldades, convivendo dia-a-dia com um mantra sagrado: "com grandes poderes, vêm grandes responsabilidades". Não, não fui picado por uma aranha radioativa. Mas digamos que nem só de escalar paredes vive um homem. No entanto, quando crescer (!), eu quero ser Andrew Dufresne. Um homem comum e que mostrou tanta força, determinação e paciência que, depois de vinte anos, finalmente conseguiu alcançar seu sonho: a liberdade. E que nunca, mas nunca mesmo, desistiu dele. Ainda chego lá.

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