04/04/2012

.: 5 PERGUNTAS PARA...Hector Lima (indicado ao Troféu HQ Mix)

1) Por mais que estejamos falando de uma versão 100% online, você esteve durante algum tempo à frente da Herói, que é um dos mais longevos e marcantes informativos de cultura pop em atividade no Brasil. Como é esta sensação, para um cara que também é fã?
Foi bem legal participar da volta da Herói, todo mundo me falava que lia a revista quando era moleque - o que me fez me sentir ainda mais velho, haha. Não canso de falar de Cultura Pop - quem tem paciência de me seguir no Twitter e Facebook sabe - e mal tendo fechado o blog Goma de Mascar tenho que conter o comichão pra abrir outro. Aprendi bastante com o pessoal da Herói: o lendário André Forastieri, Leonardo Carvalho, André Jaccon, Milena Azevedo e até com figuras complicadas como James Silveira e o Rodrigo Manjuba. Quadrinhos, filmes e séries só me proporcionam coisas boas - editar a Herói (e, antes disso, frilar pro Omelete) foram algumas delas. Pena que foi por pouco tempo, mas outras propostas apareceram no caminho que não pude negar, como roteirizar um talk show pra produtora Colméia e entrar na equipe de conteúdo da agência Remix, onde estou agora.

2) Por falar neste negócio de ser fã: você é um fã de quadrinhos que está ultrapassando a fronteira natural e produzindo/roteirizando seus próprios gibis. Como é esta migração? Que tipo de característica um fã precisa ter para ousar passar para o outro lado?
Está sendo muito legal, aos poucos realizando esse meu sonho maluco. Infelizmente só não é na velocidade que eu gostaria, mas isso tem a ver não só com as oportunidades mas com as escolhas da gente. O bom dos Quadrinhos é que nunca é tarde pra começar - o Milton Sobreiro, por exemplo, começou aos 70 anos. O bom dessa demora é que eu tenho aprendido cada vez mais; há 10 anos eu achava que sabia todo o caminho das pedras, mas não era bem assim.

Pra virar quadrinista um fã precisa manter seu amor pelos Quadrinhos mesmo diante de todas as frustrações que vai encarar; ao contrário do que muitos fãs pensam, não existe quem ama mais as HQs do que quem as produz. Porque é muito mais fácil ter uma carreira em qualquer outra área. Também precisa adquirir um ponto de vista editorial porque na maior parte do tempo você vai ser seu próprio editor e porque você vai pensando em como viabilizar cada projeto.

No caso dos roteiristas é preciso gostar de ler bastante livros em geral, não só HQ, ver muitos filmes que não sejam só dentro do universo de Fantasia e Ficção Científica, saber um pouco como as pessoas se relacionam, como as culturas de diferentes lugares operam, gostar de pesquisar o contexto de tudo - tentar entender a mecânica das situações. Ter alguma experiência de vida mesmo. E conhecer a estrutura básica da formatação do roteiro, coisa que se pode aprender em livros teóricos e em muitos arquivos espalhados na internet - como este do Warren Ellis que traduzi no século passado.

3) Nos dias de hoje, com esta enorme quantidade de meios digitais, ficou mais fácil para um quadrinista independente lançar-se no mercado, da mesma forma que, em tese, teria ficado mais fácil para um músico independente abrir seus caminhos na web? Ou ficou ainda difícil, por conta da competição?
As duas coisas: ficou mais fácil e ao mesmo tempo mais difícil. A web deixou toda a informação, os contatos e os meios de publicação à disposição de qualquer um que souber pesquisar direito e se jogar. Ao mesmo tempo essa facilidade fez com que a concorrência aumentasse. Isso em todos os meios de produção de arte. Independente disso o que nunca muda é que se você é bom, e tem ou cava direito sua oportunidade, as coisas acontecem. Existe o elemento de sorte envolvido mas digo "cava" porque nos Quadrinhos as coisas às vezes se parecem com Jornalismo: você tem que ir atrás e mostrar pros editores que você existe e que trabalhos você tem feito. Melhorando a produção e mostrando-a por aí, fazendo contatos uma hora render bons frutos. Todo esse papo parece bem óbvio, mas ainda ainda tem muita gente acredita em ser descoberto por algum olheiro ou coisa do tipo. Eles até existem, na figura de editores de visão, mas você tem que mostrar pra eles que tem algo a oferecer.

4) Aproveitando que o assunto é música, uma coisa que é bem a sua praia também: você tem algum tipo de trilha sonora ideal para quando está escrevendo seus quadrinhos? Como é a sua rotina criativa?
Em geral tenho anotações soltas (em papel ou em arquivos digitais) de uma história que podem ser desde apenas uma ideia muito geral a um diálogo, algumas cenas e até uma sinopse completa contendo a história do começo ao fim. Varia muito de roteiro pra roteiro. Gosto de fazer pesquisa e me afundar em referências pra ter mais inspiração, mas também é bom não pegar muita coisa porque o excesso de informação pode travar ao invés de inspirar. Falando nisso, durante a escrita em si combato a tentação de ver o que acontece na internet e desenvolvo a estrutura - sempre que possível gosto de ter o final da história.

Nesse processo todo procuro ouvir músicas que tenham a ver com o clima das cenas ou da história como um todo. Nas cenas de ação do Major, por exemplo ouvi a trilha do filme "Zatoichi" e outras gravações com percussão japonesa de guerra. Pra história curta do Necronauta 2, sobre uma atriz de filmes B, ouvi a trilha de "Ed Wood". Pra "Sabor Brasilis" tenho assistido a músicas-tema de novelas e a trilha completa da minha preferida - "Vale Tudo". Ouvir música temática é um jeito de se imergir no tema da história e entrar naquele mundo e dar uma explorada nele.

5) Como foi ter recebido o convite para integrar o seleto time de artistas que reinterpretaram a obra de Mauricio de Sousa neste terceiro volume do especial MSP? Você chegou a ter contato direto com ele?
O Sidney Gusman, coordenador editorial da Mauricio de Sousa Produções e responsável por essa homenagem e a abertura aos novos estilos, estava por dentro do que eu vinha fazendo. A cada HQ nova eu mandava pra ele, inclusive a de amigos - ele viu um pré-boneco da coletânea "Inkshot" que organizei e pescou alguns nomes já pro MSP Novos 50 (o segundo volume do projeto). Um belo dia meu telefone toca - ele gosta de fazer esses convites à maneira antiga - e ele me chama pra participar com o George Schall (um dos parceiros de "Sabor Brasilis"). Confesso que me segurei pra não chorar no telefone, era algo que eu queria muito fazer e Turma da Mônica evoca tudo que é memória afetiva.

O Sidão nos convidou pra visitar o estúdio, como fez com todos os colaboradores, mas ainda não tivemos a oportunidade - quero muito ir. O Mauricio ainda é uma força imensa de Comunicação - ele é o Silvio Santos dos Quadrinhos (inclusive encontrá-lo ao vivo deve dar a mesma tremedeira nas pernas). Minha família finalmente viu que algo podia rolar nessa área quando eu falei do convite, pra se ter uma idéia. Sempre me apoiaram mas fica aquela torcida pra arrumar um emprego de verdade, né... mas nada que eu tenha feito até agora me deu as mesmas alegrias e realizações que o pouco que fiz de Quadrinhos até agora me deram. Então sou muito grato e um total devoto da arte sequencial.

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