24/04/2012

.: MÚSICA .: Metal Open Air e o espetáculo da vergonha



Sei que muito se falou, ao longo do último final de semana, a respeito do show de horrores que foi o Metal Open Air – festival que prometia ser o maior evento de rock pesado do país mas que, graças a uma sucessão de pataquadas, tornou-se um mico de proporções gigantescas, um King Kong do qual headbangers ainda vão se lembrar durante muito anos. Mas, mesmo sabendo que o que não faltaram foram comentários da imprensa e dos sabichões de plantão nas redes sociais, eu resolvi dar os meus próprios pitacos sobre...

...a organização: Sinceramente, já deu no saco a troca de acusações entre os envolvidos, cada um querendo limpar a própria barra e jogar a culpa para cima do outro em inúmeras declarações oficiais e posts no Twitter e no Facebook. Numa coisa, no entanto, concordo com o pessoal da Lamparina: é bom que se saiba que três empresas assinaram todo o material de divulgação do evento. TRÊS. Reveja pôsteres, press releases e afins e memorize estes nomes – são nomes que vão merecer uma consideração extra quando você decidir que vai gastar seu precioso dinheiro num ingresso para um show. E são nomes dos quais os presentes ao evento terão a obrigação de lembrar quando quiserem lutar por seus direitos. Porque isso, aliás, vocês não só podem fazer como DEVEM. Não aceitem esta situação como se tudo fosse normal. Corram atrás, vão ao Procon, ao Ministério Público, coletem assinaturas, façam barulho. Não deixem o assunto morrer como eles querem que aconteça. Lutem pela sua grana suada que foi pelo ralo.

...o desrespeito com os fãs: Ainda me impressiono com a covardia dos organizadores do Metal Open Air. Sim, a palavra mais acertada é “covardia” mesmo. Lembro-me da entrevista de um dos representantes ao Jornal Nacional, na qual o sujeito dizia que “nos últimos dias, percebemos que o festival estava sofrendo de uma falta de liquidez”. Não. O festival sofreu, isso sim, de falta de clareza. Se o festival estava tendo problemas, teria sido mais digno deixar tudo às claras, abrir o jogo com os fãs e com a imprensa, e não deixar aqueles pobres sujeitos sem informação, aguardando por horas e horas sem qualquer informação, enquanto esperavam em vão por suas bandas favoritas. Encare os seus problemas de frente, assuma, abre o peito. É melhor. Mas, pelo contrário: eles deixaram os fãs para serem devorados pelos mosquitos e sem informação, sem luz, sem comida, sem água (ou, no caso, com a água dos cavalos). E, obviamente, sem shows. Eles só viram os palcos sendo desmontados e, com eles, seus sonhos de um final de semana sem igual para curtir um som com os amigos.

...a debandada das bandas: Acho muito bonito que algumas bandas como o Korzus tenham resolvido subir ao palco, mesmo sem receber o que era devido, apenas em respeito aos fãs. Acho excelente saber que Dave Mustaine botou seu time e seus próprios equipamentos para trabalharem e fazerem o show do Megadeth acontecer, garantindo o único show internacional de grande porte daqueles três dias que se tornaram dois. Mas acho injusto que as bandas, tanto brasileiras quanto gringas, sejam crucificadas como sendo “traidoras” só porque se recusaram a tocar. Os fãs têm que entender, de uma vez por todas, que para os músicos, a música é o trabalho deles. E trabalhar sem condições dignas e sem receber por isso é uma baita sacanagem. Aliás, mais do que isso: é inaceitável. Uma banda é mais do que uma banda – é um monte de músicos, engenheiros de som, técnicos e roadies trabalhando. Eles têm que se sustentar, como eu e você, eles pagam contas e têm famílias cujas bocas pedem por comida. Eu não trabalho de graça e não espero que trabalhem de graça por mim. Ao tentar tirar satisfações com Scott Ian, do Anthrax, o baterista do Shaman, Ricardo Confessori, perdeu uma chance imensa de ficar calado. Aprendeu, na certa, com Thiago Bianchi, vocalista e companheiro de banda.

...os defensores do metal nacional: Por falar no Bianchi, queria entender onde foram parar ele e Edu Falaschi, vocalista do Angra/Almah e seu principal parceiro na tarefa de levantar a bandeira da união do metal nacional, quando as bandas brasileiras começaram a perceber que a grana não cairia em suas respectivas contas e que, se quisessem tocar no festival, teriam de bancar as passagens dos próprios bolsos. Onde foi parar a tal “união” ali? Há quem diga que o Shaman e o Almah estavam entre as poucas bandas que receberam pelo menos parte do cachê – mas, como não tenho informações concretas, prefiro não acusar. O que me espanta é que ambos não ajudaram a liderar um motim contra esta situação pavorosa. Do contrário: preferiram se calar ao invés de apregoar a “união”. Quer dizer, o Bianchi se calou – porque o Falaschi postou uma porrada de “comunicados oficiais” tentando esclarecer o que quis e o que não quis dizer, enfim. Já tinha gente pedindo pelamordedeus para cortarem a internet do cara antes que ele resolvesse falar mais bobagens. Onde estavam os paladinos do bastião metálico?

...a imagem do heavy metal: A situação do Metal Open Air foi prato cheio para a imprensa não-especializada, que só não conseguiu explorar mais o assunto porque os fãs de metal ali presentes se comportaram de maneira exemplar e não se meteram em badernas e tumultos em momento algum. Estão de parabéns. Mesmo assim, portais e redes de televisão não demoraram a construir matérias sobre aquela horda de cabeludos vestidos de preto e envolvidos em uma situação de caos e desordem. Além de ajudar a perpetuar um estereótipo babaca, este momento para se esquecer só ajuda a impedir que outros eventos memoráveis e bem-sucedidos como o Monsters of Rock e o Live ‘n Louder aconteçam. Porque patrocinadores, parceiros e anunciantes vão se manter cada vez mais com receio de investir neste negócio estranho e problemático chamado heavy metal. Por que diabos eu associaria a minha marca a algo assim? Para acabar da mesma forma que as pessoas que investiram no Metal Open Air? Convencer estes caras do potencial de consumo e fidelidade dos fãs de metal vai ficar cada vez mais complicado.

...a imagem do Maranhão: Os idiotas estavam rigorosamente esperando por esta oportunidade, pelo momento em que algo daria errado e eles poderiam ir para as suas amadas redes sociais e finalmente poderiam dizer: “Ah, isso só aconteceu porque o festival foi naquele fim de mundo” ou “se fosse aqui em São Paulo e não na terra dos cabeças-chatas, nada disso teria rolado”. E, sim estes comentários são 100% reais e retirados de fóruns de sites especializados. E são, obviamente, fruto de um preconceito babaca e arraigado que ficou mais do que cristalino desde que o Metal Open Air foi anunciado. Os problemas não são culpa do falta de estrutura do Nordeste, da cidade de São Luis ou da receptividade do povo maranhense. Os problemas têm a assinatura dos organizadores, digam eles o que quiserem. Lembram-se do primeiro item que comentei aqui? Então. Com o trabalho primoroso (ironia mode: on) destes camaradas, não importaria se o Metal Open Air seria realizado em São Paulo, no Rio, em Minas, no Amazonas, no Tocantins, na Bahia, no Paraná ou no Acre. Seria um fiasco retumbante de qualquer forma.

Metal Open Air. O festival que tentou dar um passo maior do que a perna e acabou dando dois passos atrás num cenário que está tentando crescer e se desenvolver. Valeu pela força, galera. Definitivamente, não nos vemos na próxima. 

Um comentário:

Rafael Oliveira Lopes disse...

Sobre seu último item, apenas acrescento uma coisa: A Negri Concerts é paulista e o dono da Lamparina Produções(Natanael) é carioca.

Se alguma região deveria ser culpada pela canalhice do evento, deveria ser o sudeste...

Eu sou do Rio, fui ao MOA, fiquei acampado e passei esse perrengue todo. Felizmente não tenho o ódio da cidade nem culpo a região pelos problemas.

Os problemas são, única e exclusivamente, da Negri Concerts, CK Concerts e Lamparina Produções.