31/05/2012

.: QUADRINHOS .: E que o espírito de Will Eisner descanse em paz...

Calhou de, esta semana, eu passar duas vezes seguidas por reinterpretações de “The Spirit”, o famoso super-herói mascarado do mestre dos quadrinhos Will Eisner e que, se não era a sua melhor obra, sem dúvida tornou-se a mais conhecida e destacada. Denny Colt passou pelo meu caminho na segunda-feira, quando enfim terminei de ler a deliciosa coletânea “The Spirit: As Novas Aventuras”, um encadernado que reúne as primeiras histórias da editora Kitchen Sink na qual o personagem seria apresentado para as novas gerações em HQs criadas por autores como Alan Moore e Kurt Busiek. As histórias do Moore, aliás, são um caso à parte. Dane-se o fato de que sou fã do sujeito e, portanto, acabo invariavelmente babando ovo sobre seus trabalhos. Mas ele consegue colocar a sua marca nas tramas e, ao mesmo tempo, preservar o espírito (com o perdão do trocadilho que você sabia que iria acontecer) do original de maneira equilibrada e sutil – fugindo ao exageradamente reverente de um lado e do estupidamente vanguardista. 

E isso é exatamente o contrário do que fez o miserável do Frank Miller, auto-proclamado maior fã de Eisner. Porque, na noite de ontem, eu me forcei a ver boa parte de “The Spirit – O Filme”, a versão cinematográfica dirigida pelo próprio Miller em sua estréia oficial como cineasta. A saber: ao mesmo tempo em que vinha fugindo da produção há alguns anos, eu sabia que, um dia, teria que me obrigar a vê-la. E foi nesta quarta-feira, assim que o Datena saiu de cena na Band.

Levando em consideração apenas e tão somente a parte estética, o filme era rigorosamente o que eu esperava desde que botei os olhos nos trailers e clipes de divulgação: Miller foi de uma preguiça suprema e refez todo o universo de “The Spirit” rigorosamente à imagem e semelhança de “Sin City”, sua própria obra. O filme se parece claramente uma continuação do filme co-dirigido por ele, em parceria com o chapa Robert Rodriguez. Mas este não é o único problema. O principal deles é que a trama não tem humor. Simples assim. Em um ambiente noir, de femme-fatales sedutoras e cientistas malucos, o detetive era como um alter-ego de Eisner, enxergando as histórias com sarcasmo e cinismo, como que se questionando sobre a veracidade de tudo aquilo. Nops. Miller transformou o Spirit numa espécie de Batman e deu a Central City contornos de Gotham City. Ficou tudo sombrio demais – e a personalidade única da obra simplesmente se perdeu. Virou apenas mais um filme de heróis. Ponto.
Veja bem: sou completamente a favor de que o artista tenha seu próprio estilo, sua assinatura pessoal. Se ele vai contar uma história, de qualquer que seja o personagem, tem que ser do jeito dele, não precisa “copiar” o autor original – ou então todos os roteiristas do Homem-Aranha teriam que seguir até hoje, necessariamente, o manual “Stan Lee” para roteiros. Mas peralá. Escrever uma história que totalmente sua, com personagens aparentemente saídos de seu próprio universo, e dizer que eles são, na verdade, uma homenagem ao personagem de outrem, é de uma picaretagem sem tamanho.

Mas, também, vamos combinar: o que esperar de um sujeito que deu ao mundo “O Cavaleiro das Trevas 2”?

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